LETRAS @CORdadas – Samuel Huntington

por Miguel Alves | 2018.12.18 - 10:23

Samuel Philips Huntington – 1927-2008

Samuel Huntington nasceu em Nova York no dia 18 de abril. Filho de uma escritora de contos e um editor de revistas especializadas em hotelaria. Seu avô foi também editor.

Foi um cientista político de grande renome internacional, na sociedade e política americanas e muito influente sobretudo nos seus círculos mais conservadores. Formado na universidade de Yale aos dezoito anos, foi membro do exército dos USA, período após o qual fez um mestrado na universidade de Chicago. Doutorou-se em Harvard onde foi professor aos vinte e três anos. De 1959 a 1962 foi professor associado da universidade de Columbia em Nova York. Retornou a Harvard em 1963 onde permaneceu até 2007. Em 1965 foi eleito membro da Academia Americana de Artes e Ciências após uma segunda candidatura. Na universidade de Harvard fez parte da sua direção e foi o diretor do seu Centro para os Assuntos Internacionais. Foi editor e coeditor da conhecida revista de política internacional Foreign Policy.

SH foi um cientista notável, influente e, ao mesmo tempo, muito polémico e contestado. Por isso, a par da sua produção teórica e política, são também conhecidos factos, decisões e movimentos que patrocinou e que são hoje historicamente condenados pela história.

SH foi, também, em simultâneo um “historiador” no sentido de analista e interprete de factos históricos, que analisou e articulou a história com a política e delas produziu ilações e projetou cenários de evolução da humanidade e da história. Desta sua primeira e exímia qualidade não é fácil contestá-lo, o mesmo não acontecendo com a sua valiosa, profusamente documentada e fortemente argumentada evolução da história e da política mundiais para o século XXI.

SH foi inicialmente conhecido com especialista das relações entre a política e os militares, através de estudos e investigações que fez sobra os golpes de Estado. Daqui transitou para o estudo das civilizações com base em estudos já feitos por um historiador e filósofo polaco, Feliks Koneczyn, que foi quem primeiro estudou e analisou as civilizações como primeiro ator da política mundial e como sendo a eventual origem das principais fontes de conflito entre as nações após o fim da guerra fria e a decadências dos modelos ideológicos.

Como académico tornou-se conhecido inicialmente por um estudo polémico onde contestou que o desenvolvimento económico pudesse ser servir como alavanca e instrumento valioso para a estabilização de democracias em países recentemente descolonizados. Esta orientação condicionou fortemente a política externa americana em diversas partes do globo.

Neste caminho, SH foi consultor do presidente americano Lyndon Johnson, tendo publicado em 1968 um célebre artigo em que justificou o maciço bombardeamento das zonas rurais do Vietnam do Sul para impedir o seu apoio aos Vietcongs do Vietnam do Norte em marcha para o sul. Nos anos setenta assessorou o general presidente brasileiro Garrastazu Médici (último período da ditadura militar brasileira, 1969-1975) com o relatório “Abordagens á Descompressão Política” no qual avisava contra uma excessiva e rápida liberalização do regime e propunha um Estado gradual e forte á imagem do Partido Revolucionário e Institucional que governou o México durante décadas. Alan Hooper, politólogo inglês, afirma que o Partido dos Trabalhadores de Lula da Silva, surgiu por oposição a esta teoria da liberalização política a partir da superestrutura do Estado. Em 1977, foi o responsável pelo planeamento da segurança nacional no Conselho de Segurança Nacional (NSC) dos USA, pela mão de Zbigniew Brzezinski, seu amigo pessoal e também membro daquele Conselho, no mandato do Presidente Jimmy Carter. Durante os anos oitenta foi conselheiro do regime sul africano para a reforma do apartheid e a repressão da resistência que se lhe opunha. Chegou a afirmar aos políticos sul africanos que “o processo de reforma requer duplicidade, falsidade, suposições equívocas e cegueira intencional”.

Quero hoje @CORdar a obra mais importante de SH: “O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial”, publicado em 1996. O seu estudo sobre as civilizações já havia começado com um artigo na Foreign Affaires em 1993. Este livro é uma ampliação desse trabalho agora mais extenso, minucioso e documentado.

Esta obra veio provar que com o fim da guerra fria não viria o “fim da história” e que, com o colapso das economias socialistas tuteladas pelo bloco soviético e a queda dos principais regimes totalitários, se avizinhavam tempos de paz, harmonia e desenvolvimento global da humanidade. Teses que fizeram história sobretudo a partir dos estudos do japonês Francis Fucuyama.

É uma obra de teses, todas elas abundantemente documentadas, de grande poder argumentativo, mas em que alguns dos seus fundamentos foram fortemente contestados na altura da sua publicação e que ainda hoje permanecem válidos. É uma obra de especulação sobre a evolução da política mundial, argumentada de forma brilhante, maciçamente documentada e considerada de leitura obrigatória para todos os governantes, responsáveis e de um interesse muito relevante para quem estiver interessado em entender muitos dos processos da política internacional que são de crucial importância para todos os cidadãos, como por exemplo, as questões ligadas ao terrorismo que hoje assola a Europa e parte do planeta.

Uma das suas primeiras características é a de assinalar a importância de uma geografia crítica como disciplina obrigatória para o entendimento de algumas questões internacionais, pela importância que o espaço geográfico possui para além das suas dimensões económicas e culturais.

A primeira tese desta obra e que representa a sua tese global, é de que as civilizações substituíram as nações e as ideologias como forças motoras da política mundial. Para SH, “…na história, a política global é, simultaneamente, multipolar, civilizacional e multicivilizacional; modernização é diferente de ocidentalização; o equilíbrio de poder entre as civilizações está a mudar; a influência do ocidente está a decair e está a emergir uma nova ordem baseada nas civilizações: os países agrupam-se à volta de Estados-Núcleos ou Estados dominantes nas respetivas civilizações. As pretensões universalistas do ocidente conduzem-no crescentemente ao conflito com outras civilizações. A sobrevivência do ocidente depende de os americanos realizarem a sua identidade ocidental e os ocidentais aceitarem a sua civilização como única, mas não universal”.

SH identifica oito civilizações: a civilização Ocidental, a Islâmica, a Budista, a Eslavo-Ortodoxa, a Hindu, a Nipónica, a Latino-Americana e a Africana. Para chegar a esta asserção, SH começa por valorizar o papel e importância das diversas culturas e dos fatores culturais que as constituem.

Para SH, “a história humana é a história das civilizações. A ideia de civilização foi desenvolvida pelos franceses no século XVIII por oposição á barbárie. A sociedades civilizadas distinguiam-se das sociedades primitivas por serem sedentárias, urbanas e conhecerem a escrita. Uma civilização representa a mais ampla entidade cultural. As civilizações são globais, uma civilização é uma totalidade. As civilizações são mortais, mas também de longa vida: evoluem, adaptam-se, sendo as mais resistentes das associações humanas. As civilizações passam pela mistura, gestação, expansão, idade de conflito, império universal, decadência e invasão. As civilizações são identidades culturais e não políticas. Num caso extremo, uma civilização e uma unidade política podem coincidir. A China é uma civilização que pretende ser um Estado e o Japão é uma civilização que é um Estado”.

SH analisa depois o conceito de civilização, as suas constituintes e a origem do seu aparecimento que teve lugar em torno dos valores do ocidente e da civilização ocidental (língua, religião, separação da autoridade espiritual da temporal, pluralismo social e direitos humanos, corpos representativos). Parte depois para um conceito de “civilização universal” que poderia desenvolver-se em torno dos valores ocidentais tendo como veículo o conceito de modernização. Sociedades modernas e desenvolvidas serão aquelas que partilham valores semelhante aos do mundo ocidental (“No século XIX, a ideia do fardo do homem branco ajudou a justificar a extensão da dominação política e económica ocidental sobre as sociedades não ocidentais. O universalismo é a ideologia do ocidente para a confrontação com as culturas não ocidentais”).

SH desenvolve depois os equilíbrios instáveis inerente ás civilizações e que hoje são incontornáveis na sua visibilidade e nos seus efeitos na civilização ocidental: o seu declínio face à emergência de novos poderes em termos políticos, económicos e militares (“O declínio do ocidente apresenta três caraterísticas principais: é um processo lento, não ocorre linearmente e a capacidade de uma pessoa ou grupo fazer mudar o comportamento de outra pessoa ou grupo, que passa pela posse de recursos económicos, militares, institucionais, demográficos, políticos, tecnológicos, sociais e outros. Grande parte dos recursos importantes que pesam no poder do ocidente, mas não todos, atingiram o seu apogeu em princípios do século XX, tendo depois começado a diminuir em relação aos de outras civilizações”).

De seguida SH desenvolve de forma extensa e detalhada as duas civilizações que estão a ultrapassar a civilização ocidental: A afirmação asiática e o Ressurgimento islâmico (“Os asiáticos serão cada vez mais poderosos nas questões mundiais. O ocidente está a perder rapidamente a sua capacidade de transformar as sociedades asiáticas, de acordo com os padrões ocidentais, no que respeita aos direitos humanos e outros valores. O Ressurgimento do Islão em toda a sua dimensão e profundidade, é a última fase do ajustamento da civilização islâmica ao ocidente, num esforço para encontrar a “solução”, não nas ideologias ocidentais, mas no Islão. Inclui a aceitação da modernidade, a rejeição da cultura ocidental e o reempenhamento do Islão como guia para a vida no mundo moderno. …queremos modernizar-nos, mas não necessariamente ocidentalizar-nos”).

Na recomposição do futuro em termos civilizacionais, SH teoriza e desenvolve quatro tipos de Estados, por oposição à situação que perdurou durante a guerra fria (aliados, satélites, clientes, neutros e não alinhados): Estados membros onde existe um Estado núcleo, Estado solitário, País dividido, País dilacerado (“O ocidente tem historicamente dois Estados núcleo de entre os seus membros, USA e o eixo franco germânico com a Inglaterra como núcleo adicional. À América Latina, África e Islão faltam Estados núcleo. Isto resulta, em parte, do imperialismo das potências ocidentais que dividiram a África e o Médio Oriente e, menos decididamente, a América Latina. Estado solitário tem falta de afinidades culturais com outras sociedades. A Etiópia está culturalmente isolada pela sua história imperial e pela diferenciação religiosa com os povos maioritariamente muçulmanos que o a rodeiam. O Haiti é “o vizinho que ninguém quer” e, verdadeiramente, um país sem família. Os países divididos cujos territórios são atravessados por fronteiras entre civilizações são confrontados com o difícil problema de preservarem a sua unidade: Sudão, Tanzânia, Quénia, Índia, Malásia, Singapura, CHINA, Indonésia e Timor”. Num país dividido, os grupos importantes pertencem, pelo menos, a duas civilizações. Um país dilacerado, tem uma cultura dominante que determina a sua pertença a uma civilização, mas cujos dirigentes políticos querem que passe para outra civilização. …concordam sobre quem são, mas não estão de acordo sobre qual é propriamente a sua civilização. A Rússia tem sido um país dilacerado desde Pedro o Grande. O país de Mustafà Kemal Attaturk-Turquia, é seguramente o clássico país dilacerado que desde os anos vinte tem tentado modernizar-se, ocidentalizar-se tornar-se parte do ocidente. Dois seculos após o México se ter definido como país latino americano em oposição aos USA, os seus dirigentes nos anos oitenta transformaram o seu país num país dilacerado quando tentaram redefini-lo como sociedade norte americana”).

Para SH, a mudança de civilização nos países dilacerados está condenada ao fracasso. A Turquia atual confirma-o (“Os dirigentes políticos podem fazer história, mas não fogem à história. Produzem países dilacerados; não podem criar sociedades ocidentais. Infetam o país com uma esquizofrenia cultural que se torna a sua caraterística continuada e definidora”).

SH entende que as elações entre Estado/s e civilizações podem não vir a ser próximas, mas quando o forem serão antagónicas e serão mais propícias umas que outras. Os choques e conflitos perigosos que possam provocar, resultarão, segundo ele, “da interação entre a arrogância ocidental, a intolerância islâmica e a afirmação sínica. O ocidente é a única civilização que teve um impacto grande, e por vezes devastador, sobre as outras”. Nesta matéria, SH analisa em pormenor muitas questões graves da atual diplomacia internacional e, sobretudo, da questão dos armamentos em especial o nuclear. A par da imigração, em que já são visíveis muitas das questões pertinentes que coloca: “A história, a geografia e a pobreza mostram que a França e a Europa estão destinadas a ser invadidas por pessoas vindas de sociedades falhadas do sul. No passado, a Europa era branca e judaico-cristã. Não o será no futuro. A questão consiste em saber se a Europa será islamizada ou os USA hispanizados; se a Europa e os USA se tornarão Sociedades divididas ou incluirão duas comunidades distintas e amplamente separadas, pertencentes a duas civilizações”.

Os previsíveis e eventuais conflitos entre civilizações terão lugar, segundo SH, a nível micro “nas fronteiras de Estados vizinhos de civilizações diferentes, entre grupos de civilizações diferentes num mesmo Estado e entre grupos que tentem criar novos Estados a partir do resto dos antigos” (antiga União Soviética e antiga Jugoslávia) e a nível global entre os Estados núcleo de diferentes civilizações.

A economia e o comércio são produtores de conflitos a nível diplomático como a nível político. E nesta matéria a Ásia, com a China à cabeça, “estão a perturbar a política internacional a três níveis: a crescente autoconfiança das suas sociedades leva-os a aumentar as suas capacidades militares, promove a desconfiança quanto ao futuro relacionamento entre os Estados e trás á superfície velhas rivalidades suprimidas durante a guerra fria. Depois, o desenvolvimento económico aumenta a intensidade dos conflitos entre as sociedades asiáticas e o ocidente, sobretudo com os USA. Finalmente, o crescimento económico da maior potência da Ásia, aumenta a influência chinesa na região e a probabilidade de a China recuperar a sua tradicional hegemonia no estremo oriente”. SH é taxativo: “…poderá ocorrer uma grande guerra se os USA desfiarem a ascensão da China como poder hegemónico mundial”.

SH teoriza também de forma especulativa como poderão ser os novos alinhamentos político-ideológicos globais entre as civilizações que ele identificou no início da sua obra. Para de seguida desenvolver e caraterizar de forma muito detalhada aquilo a que chama as “guerras de transição” ocorridas em fronteiras civilizacionais: Afeganistão, Iraque, Kweit e Bósnia. Para defender que estas guerras, tiveram na sua génese um fenómeno vasto e muito profundo: a ascensão da “consciência civilizacional”. Nestas guerras existe um nível direto entre os contendores em causa, os participantes secundários relacionados com os intervenientes diretos e a participação de Estados terciários, sendo normalmente os Estados núcleo das civilizações envolvidas. Sobre elas, AH tira uma conclusão: ”As guerras civilizacionais fervem de baixo para cima, a paz civilizacional escorre de cima para baixo”.

A parte final da sua obra, SH dedica-a a analisar o futuro das civilizações, começando por salientar o modelo mais conhecido da “periodização” das civilizações que Carroll Quigley construiu. E o futuro começará com a “reafirmação definitiva dos USA em favor da civilização ocidental” e a nível internacional pela sua “rejeição das “tentativas ilusórias de assimilação dos USA à Ásia”. SH tira depois um conjunto de conclusões importantes, de que podem salientar-se:

“O ocidente já não tem o dinamismo económico ou demográfico requerido para impor a sua vontade a outras sociedades.

O universalismo ocidental é perigoso para o mundo, porque poderá conduzir a uma guerra intercivilizacional entre Estados núcleo.

Uma postura prudente para o ocidente seria não tentar a deslocação do poder, mas aprender a navegar em baixios, a suportar tormentas, a moderar as apostas e a preservar a sua cultura.

Aceitar a Rússia como Estado núcleo da civilização ortodoxa e uma grande potência regional com interesses legítimos na segurança das suas fronteiras meridionais.

Manter a sua superioridade tecnológica e militar sobre as outras civilizações”.

SH termina esta obra notável salientando que a civilização é um bem comum e para que a coexistência cultural possa existir é decisivo procurar os fatores comuns a todas as civilizações em vez de promover as supostas caraterísticas universais de uma delas “No choque das civilizações, a Europa e a América farão um bloco ou estarão separadas.  No mundo que nasce, os choques de civilizações são a maior ameaça á paz mundial e uma ordem internacional assente nas civilizações será a mais segura salvaguardada contra uma guerra mundial”.

Uma consideração final para referir a oposição às teses de SH: Edward Said afirma que: as suas teses são “uma versão reciclada da guerra fria” Outros autores afirmam que “a taxonomia de Huntington é simplista, arbitrária e não leva em conta as dinâmicas internas e as tensões partidárias dentro das civilizações. Além disso, neglicência a mobilização ideológica das elites e as necessidades socioeconómicas não satisfeitas da população, como os verdadeiros fatores causais de conflito, que não se encaixam bem nas fronteiras civilizacionais identificadas por ele”.

Polémicas aparte sobre a obra de um notável autor, mesmo que polémico, esta obra é de leitura obrigatória para quem se preocupa com o futuro e os caminhos que a sua construção poderá levar. Sendo certo que a realidade já cauciona muito daquilo que ele nos legou nesta obra de referência.

Outras obras de SH:

O Soldado e o Estado, 1957;

Ordem Política em Sociedades em Mudança, 1968;

A Crise da Democracia: Sobre a governabilidade das Democracias, 1976;

Política Americana: A promessa de desarmonia, 1981;

A Terceira Onda: Democratização no final do século XX, 1991;

Cultura Matéria: Comos os Valores formam o Progresso Humano, 2000;

Quem Somos nós: Os Desafios para a Identidade Nacional da América,2004.

 

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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