LETRAS @CORdadas – Philip Roth

por Miguel Alves | 2018.02.25 - 20:46

 

Philip Roth, nascido em 1933

Prémio Pen/Faulkner, 1994;

National Book Award, 1995 e 1960;

Medalha Nacional das Artes, 1998;

Prémio Pulitzer, 1998;

Prémio Médicis para Estrangeiros, 2002;

Doutor Honoris Causa em Letras pela Universidade de Harvard, 2003;

Prémio da Sociedade de Historiadores Americanos, 2005;

Medalha de Ouro da Ficção pela Academia Americana das Artes e Letras, 2011;

Prémio Internacional Man Booker, 2011,

Prémio Príncipe das Astúrias, 2012.

Philip Milton Roth nasceu em Newark, Nova Jersey nos Estados Unidos da América. É considerado um dos maiores escritores norte americanos da segunda metade do século XX. Romancista emérito, escreveu também ensaios e contos. Oriunda de uma família judaica, os seus pais foram já americanos de primeira geração. Filho de um mediador de seguros de origem austro húngara, a sua obra literária está perpassada da problemática e cultura judaicas e da assimilação da sua identidade nos USA. Foi um apaixonado pelo basebol desde tenra idade, e começou a escrever aos dezoito anos. É o único escritor norte americano que tem todas as suas obras publicadas em vida na Library of America. Esta instituição tem como missão editorial a preservação das obras consideradas como herança cultural do país.

PR estudou na universidade de Bucknell e pós-graduou-se na universidade de Chicago. Alistou-se no exército, mas abandonou-o por força de uma lesão ocorrida na instrução militar. Nessa sequência, iniciou a sua carreira académica:  foi professor de escrita criativa na universidade de Iowa, de literatura inglesa na universidade de Princeton e na parte final da sua carreira académica (1991), lecionou literatura comparativa na universidade da Pensilvânia.

PR é um escritor de fortes e, frequentemente, polémicas convicções. Uma delas é sobre a religião e a fé “quando o mundo inteiro não acreditar em Deus, será um ótimo lugar. Não quero falar sobre isso. Não é interessante falar sobre as ovelhas referidas como crentes. Quando escrevo estou sozinho. Estou cheio de medo, solidão e ansiedade. E nunca precisei da religião para me salvar. A sua obra inclui também a abordagem da sexualidade e do desejo, na intimidade de monólogos de grande intensidade e onde é visível uma energia e um humor quase amotinados contra si próprio, facto que transmite á sua narrativa nesta área uma feição pouco convencional e às vezes até promiscua, como acontece numa das suas primeiras obras ”0 Complexo de Portney” (“No perpétuo estado de emergência que é o inebriamento sexual”). Exemplo ainda disto, é a saliência que é dada ao affair Mónica Lewinsky com o presidente Clinton e enquadrada no puritanismo hipócrita americano, área que ele aborda em muita da sua obra. Les Farly, o veterano do Vietnam chega a dizer: “O manhoso que fugira ao recrutamento e agora dormia na Casa Branca. Como se explicava que houvesse veteranos a dormir na rua, enquanto aquele gajo que fugira ao recrutamento dormia na Casa Branca. Pensava nesse gajo que se safa de tudo e nos gajos que não se safam de nada”. Ao mesmo tempo, ele fá-lo com incidência dominante na comunidade e cultura masculina judaicas.

A obra literária de PR tem caraterísticas autobiográficas e é atravessada por um seu alter ego narrador: Nathan Zuckerman que surge e se desenvolve em muitas das suas obras, uma das quais aquela de que hoje vamos escrever

Quero hoje @CORdar uma das obras mais aclamadas de PR: “A Mancha Humana”, 2000. É uma obra arrebatadora sobre a identidade e a sua aceitação e assimilação na sociedade americana. Fá-lo com uma narrativa acutilante, intensa e forte, que apaixona e quase incomoda pela profundidade com que penetra na alma e condição humana. Em concreto nas contradições e hipocrisias da sociedade americana a par do pensamento liberal e democrático que julga ser a sua matriz dominante, expressas nas comunidades negra, emigrante, judaica e daqueles que constituem as sequelas duma guerra monstruosa como foi a do Vietnam. É ainda e sobretudo um notável hino á liberdade sobretudo quando ela se exerce fora do pensamento dominante e do politicamente correto e da capacidade de renovação dos sonhos da vida, qualquer que seja o seu marco (“Graças ao viagra acabei por compreender as transformações amorosas de Zeus. Era esse nome que deviam ter dado ao viagra. Deviam ter-lhe chamado Zeus”). Mesmo quando quase tudo se desmoronou, a redenção e a esperança deixaram de existir e apenas resta a força interior para alterar e dominar a realidade.

Coleman Silk é um reitor universitário do interior americano cuja vida, apesar do seu valor e prestígio académicos, vive na tentativa de esconder as suas origens e forjar uma outra identidade. É envolvido numa trama que vai ditar o seu destino através de uma carta anónima (escrita pela colega Delphine Roux) que o acusa de racismo na utilização da expressão “spooks” quando se referiu a alguns alunos que não apareciam nas aulas. “Adorava segredos. Na sua cabeça lutava secretamente com outro individuo. Falava com intencionalidade, precisão e clareza que fulminava os outros com as suas palavras…um golpe derradeiro perverso e aviltante, uma suprema injustiça que para sempre justificasse o seu ressentimento. Já não está a lutar com um bando de igualitários elitistas que disfarçam a sua ambição através de ideais magnânimos. Foi o principio da desintegração. Tudo ditado pela raiva. Tendo começado a descontrolar-se no interior da prisão cada vez mais estreita da fúria. Para um homem tão lixado quanto ele, o silêncio é a única maneira de parecer amistoso. Não resta nada em mim que permita preocupar-me com as grandes adversidades do mundo. Compreendo-os. O que não compreendo não é o que eles dizem, mas sim tudo o que não dizem. O que não estão a dizer. Há algo de fascinante no que o sofrimento moral pode fazer a alguém que nada indicia ser uma pessoa frágil ou fraca. Há três semanas ou um mês, enfim, a última vez que que o vi ainda estava mergulhado até aos joelhos no seu próprio sangue. … a sua taça transbordava e o seu considerável talento para a retidão aplicava-se a acumular e distribuir prazer”.

 

Faunia Farley, uma rural da América profunda que faz a limpeza da universidade onde ele se encontra e que virá a ser sua amante, reinventa a sua vida e identidade numa relação que só pode vir a ser trágica “…o seu corpo era algo mais do que eficientemente magro e severo, ela era uma mulher de constituição firme, que já tingiu a maturidade, uma mulher no apogeu do apogeu”. Les Farley é o marido desta: veterano do Vietnam, psicopata violento que tenta sobreviver à ”morte” que trousse dessa guerra, aprendendo a ser assassino porque isso lhe ensinaram lá. “Voltara da guerra na selva e, como se não bastasse não ser apreciado, era temido; por isso, o melhor seria voltar. Um guerreiro muito agressivo. Não era daqueles que mal chegavam a todo aquele caos de violência ficavam impacientes por se lançarem ao barulho, daqueles que não regulavam muito bem ou eram muito agressivos por natureza e a quem bastava a mais pequena oportunidade para ficarem loucos violentos. Insensível, nenhuma emoção. Insensível perante a morte dos seus próprios filhos. Não há frestas de compaixão na sua armadura. Quase se podia considerar atencioso, embora de um modo absolutamente impessoal. Não, ele não é estupido. É um bruto, um assassino, mas não tão idiota como eu pensava. Não é um cérebro que lhe falta. Aliás, seja sob que disfarce for, raramente é um cérebro que falta. Não vale a pena falar consigo sua parva! Eu fiz aquilo porque estou morto. Não conheço nada mais difícil de controlar que o ódio. É mais fácil deixar de beber do que dominar o ódio. Levei três dias do Vietnam para casa. Deram-me duzentos dólares para voltar para casa”.

Delphine Roux, uma professora afrancesada da mesma universidade, coberta de inveja e estruturalismo e que vai ser a origem do colapso humano e psicológico de Coleman. Abandona o seu país deixando para trás a sombra tutelar da família para construir o seu destino “…não chegava aos calcanhares de Farley, nem como psicopata nem como adversária. A face oculta da sua própria vergonha. Tão meticulosamente avaliadora de si mesma e tão completamente iludida. Quem procura ela? procura o homem que a reconheça. Procura o Grande Reconhecedor. Astuta, confiante, profissionalmente demoníaca. Uma enorme potenciação do veneno. O simples facto de fazer a acusação é prová-la. Não consegue saciar-se de toxinas”.

São reinvenções de identidade que a todos sairá violentamente cara, porque a vida não pode acontecer com harmonia na omissão daquilo que constitui a essência da natureza humana: a identidade.

A ambição que muitas vezes subjaz à sede de toxinas, constrói hoje processos e mecanismos diversos para a alteração destrutiva de identidades alheias. É sinal dos tempos que deve obrigar a que “a nossa compreensão das pessoas não pode deixar de estar sempre, na melhor das hipóteses, ligeiramente alterada”.

Porém, fazer face essa vilania deve constituir fator de identidade e apesar de muita da cultura hoje dominante entender e assim agir, como se “nada dura e, todavia, nada acaba também. E nada acaba porque precisamente nada dura. Salvara-o a sabedoria que diz: não faças nada”.

Para que o ódio e a fúria não campeiem nas relações humanas como às vezes parece ser visível e “Fazer valer a incapacidade como um privilégio” não seja regra tão frequente. Apesar de e como escreve PR, “A Mancha Humana existe. Está em todos. Sopro interior. Inerente. Determinante. A mancha existe antes da sua marca. Sem o sinal de que está lá. A mancha é tão intrínseca que não precisa de marca. A fantasia da pureza é aterradora. É demencial. O que é a ânsia de purificar senão impureza?” Embora este fatalismo de PR deva ser relativizado. Os USA não são o planeta e os seus rituais de purificação não são universais.

Outras obras de PR:

Adeus Colombo, 1959*;

O Complexo de Portney, 1969*;

O Professor do Desejo, 1977;

Diário de uma Ilusão, 1990;

Património, 1991;

Trilogia Americana:

1.     Pastoral Americana, 1997*;

2.     Casei com um comunista, 1998;

3.     Conspiração contra a América, 2004;

O Animal Moribundo, 2001*;

O Homem Comum, 2006;

Indignação, 2008*;

Nemésis, 2010 (obra de fecho de carreira por opção do autor).

*Adaptadas ao cinema, entre outras, nas quais e inclui A Mancha Humana.

 

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

Pub