Letras @CORdadas – Naguib Mahfuz (1911-2006)

por Miguel Alves | 2017.02.26 - 13:34

 

 

 

 

 

Nobel da Literatura de 1988;

Prémio Nacional das Letras Egípcias, 1972;

Colar da Républica (a mais alta condecoração egípcia), 1995;

Nomeado para o Prémio Príncipe das Astúrias, 2000;

Prémio Goya do filme baseado na sua obra “O Beco dos Milagres”.

 

Naguib Mahfuz foi um escritor egípcio nascido na cidade do Cairo num dos bairros mais conhecidos e mais antigos da sua zona histórica: Al-Gamaliyya. Poeta, romancista e colunista, autor de cinquenta romances e mais de 350 contos, foi o primeiro e único escritor árabe a receber o Prémio Nobel e o mais conceituado e famoso homem de letras do seu país e da cultura árabe. NM foi também o primeiro escritor árabe a explorar temas enquadrados na corrente do existencialismo. Foi o mais novo de oito irmãos, numa família de educação e praticas islâmicas rigorosas e até severas. Comentando as suas origens chegou a afirmar: ”Você nunca teria pensado que um artista poderia surgir dessa família”. Seu pai era funcionário do Estado. Após herdar o escritório de seu pai, foi trabalhar para o Ministério dos Assuntos Religiosos e mais tarde para o Ministério da Cultura como responsável pela industria cinematográfica do Egipto.

NM desde muito jovem começou a escrever artigos em revistas da época. Interessado por línguas, estudou inglês, tendo traduzido para o árabe em 1932 a obra de James Baikie “O Egipto Antigo”. Foi após o seu ingresso no Ministério dos Assuntos Religiosos que a sua obra literária teve o seu impulso maior com romances históricos dedicados ao Egipto Faraónico. Após este período, NM envereda pelo romance social, período de que “A Trilogia do Cairo” (“Entre Dois Palácios,”, “O Palácio do Desejo” e “O Açucareiro”, que abordam as grandes mudanças sociais e políticas ocorridas na sociedade egípcia após a queda da monarquia em 1952), é o expoente mais relevante. Uma terceira fase da sua obra aborda as frustrações e desilusões da revolução egípcia, através de objetivos não atingidos, heróis fictícios e anti-heróis. Ainda uma quarta fase em que NM envereda pelo absurdo e um certo surrealismo onírico que tem por base a derrota do Egipto na guerra do Sinai de 1967 contra Israel. Mesmo na parte final da sua vida, NM escreve de forma não identificável, misturando todos os estilos que utilizara ao longo da vida.

NM foi um militante da tolerância, da liberdade e advogou sempre não haver nenhuma incompatibilidade entre a democracia e a sociedade árabe e muçulmana (“A liberdade é a vida do espírito”). Pelo facto de ter apoiado o Presidente Sadat pela assinatura do Acordo de Paz com Israel em 1979, os seus livros foram banidos e proibidos em diversos países árabes. Conhecido foi também o seu apoio a Salman Rushdie quando este foi alvo de perseguições e ameaças de morte.

Por força dessas convicções passou a parte final da sua vida isolado socialmente, por complicações de saúde resultantes de um ataque de que foi alvo com arma branca por parte de fundamentalistas islâmicos que consideravam a sua obra uma blasfêmia ao Islão (1992). Em 1995 os autores desse ataque foram enforcados numa prisão do Cairo. Em 1996, foi considerado herege e condenado á morte por grupos radicais islâmicos, facto que limitou a sua atividade literária a colunas em jornais e tertúlias literárias no Cairo, associado ainda às limitações que lhe resultaram, ao nível dos olhos, ouvidos e um dos braços, do ataque de que havia sido alvo.

Quero hoje @CORdar uma das obras primas de NM: ”As Noites das Mil e uma Noites, 1982 que foi editado nesta data no Egipto com o título “Layali alf Layla”. Trata-se de uma alegoria mágica, completamente embebida de pormenores, hábitos e personagens do fantástico mundo árabe antigo e contemporâneo e onde abundam conflitos políticos, religiosos e culturais. Eivada de fantasia, mística, simbologia, mistérios, enigmas e também sensualidade, é considerada “uma obra prima da narrativa”.

”As Noites das Mil e uma Noites”, é uma sequência do maior clássico da literatura árabe “As Mil e uma Noites” que tem origens no folclore e culturas indiana, persa e árabe. Este, é constituído por uma série de histórias em cadeia narradas por Xerazade ao seu esposo o Rei Xariar. Este rei ficou louco por ter sido traído pela primeira esposa e a partir daí casa com uma cada noite, mandando matá-la no dia seguinte. Xerazade consegue fugir a este destino contando histórias fantásticas e maravilhosas que captam a curiosidade e interesse do rei. Em cada madrugada interrompe a historia para a retomar na noite seguinte. Chegados à história mil e uma, o rei dá-se conta do logro em que caiu, arrepende-se e manda executar Xerazade.

Em “As Noites das Mil e Uma Noites”, o Sultão Shahriar governa um território não identificado no tempo e no espaço. Este subterfúgio é utilizado pelos escritores árabes para fugirem ao confronto direto com os seus regimes, já que neles qualquer oposição pode custar a vida e a liberdade. Tem no seu palácio uma contadora de histórias: Xerazade. Depois de ter ouvido as suas histórias durante três anos, o Sultão casa com ela. Graças á sua habilidade nessa tarefa, instala-se na corte a convicção de que Xerazade irá incutir no coração do Sultão os valores da piedade e do amor para com o seu povo e que, a partir daí, reinará a paz e a harmonia no reino. “A arrogância e o amor não podem habitar no mesmo coração”. Tal não vai acontecer e a mudança revelar-se-á apenas artificial: o Sultão continuará sem piedade, compaixão e amor pela justiça. Continuará poderoso, mas sem consciência da sua malignidade. Como fazer para que tal não aconteça e o Sultão adquira a consciência que não tem? Só através de acontecimentos dramáticos e trágicos que, finalmente, lhe farão vislumbrar o verdadeiro sentido e finalidades do poder.

Seguem-se dezassete contos interligados onde são abordados temas universais da humanidade como o poder, a corrupção (Não faças, pois, da corrupção uma desculpa para a corrupção. Quem é demasiado honesto, passa fome nesta cidade. Não quis fazer marcha atrás porque se recusara a tomar a oferta da vida sem pagar o preço”), o amor (“…o amante nunca se cansa”) e a traição, intrincados em conflitos sociais (“…o mundo daqueles que tinham influência e posições de poder: o mundo da piedade aparente e corrupção latente”), políticos (“Não há misericórdia nem perdão sem um preço. O melhor favor é o que se faz o mais rápido possível. Ai das pessoas que estejam sob um governante que não tenha sentido de vergonha”), religiosos (“Que sultanato tão extraordinário é este, com o seu povo e os seus génios! Exulta a Deus e ao mesmo tempo mergulha na sujidade. E o polícia quando se vira para Deus não esquece a sua antiga profissão”) e culturais.

Metaforicamente, este livro é uma obra sobre o exercício do poder, as suas promessas e algumas aparências do seu exercício. Quais Sultões que mudam em cada ciclo e se mantêm no seu racional. Xerazade acabou assassinada como todas as outras, apesar do encanto das suas histórias e da sua/nossa fé (“As pessoas estão agora divididas entre os que temem o teu poder, porque desejam conservar o seu, e os que esperam proteção para a sua fraqueza”).

Falando desta sua obra, NM afirmou que “…é do mais importante que escrevi em toda a minha vida; nele se misturam a tradição com a modernidade, a realidade com a lenda”. Fica claro.

 

Outras obras de NM:

Rhadopis (A Cortesã do Egipto), 1943;

O Beco dos Milagres, 1947;

A Trilogia do Cairo, 1956 e 1957;

O Ladrão e os Cães, 1951;

As Noites do Nilo, 1956;

Histórias do Nosso Bairro; 1975;

O Dia em Mataram o Líder, 1985;

Akhenaton: o Rei Herege, 1985

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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