Letras @CORdadas Maria José Vera nascida em 1959

por Miguel Alves | 2018.11.09 - 11:48

 

 

Maria José Vera nasceu em Lisboa e é o nome literário de Maria José Martins de Azevedo e sendo Vera o apelido de seu pai, poeta publicado e já falecido.

MJV é psicóloga clínica, psicoterapeuta e psicanalista, bem como formadora de especialistas nestas áreas. Exerce a atividade clínica e formativa há mais de trinta anos em instituições públicas e privadas e em regime de clínica privada, nomeadamente: Centro de Saúde Mental Infantil de Lisboa, Hospital D. Estefânia, Hospital Júlio de Matos e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

É membro de diversos organismos nacionais e internacionais, nomeadamente sociedades cientificas em cuja fundação de algumas delas participou: Sociedade Portuguesa de Psicanálise, Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica, Sociedade Portuguesa de Rorschach e Métodos Projetivos, Associação de Psicoterapia Psicanalítica na Infância e em Jovens; Sociedade Internacional de Rorschach, International Psychoanalitical Association, European Psychoanalitical Federation e Societé Européene pour la Psycanalise de l´Enfant et de l´Adolescent.

Foi ainda docente no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, no Instituto da Arte e Design e no Instituto Piaget.

MJV está publicada na Revista Portuguesa de Psicanálise, na Revista Kairos, na Revista Cidade Solidária e na Revista Visão Junior.

Quero hoje @CORdar a obra publicada mais recentemente de MJV: “O Complexo de Lúcifer”.

Foi criado comemorado recentemente o “Dia do Animal”. A data foi escolhida em 1931 durante uma convenção de ecologistas em Florença. Foi escolhido para o dia mundial do animal o dia 4 de outubro por ser o dia de S. Francisco de Assis o santo padroeiro dos animais.

Em Portugal a estima e o apreço pelos animais tem tido um crescimento assinalável, nomeadamente pelos animais de companhia. Por outro lado, a censura pública aos maus tratos e abandono de animais é de valorizar e louvar, a par de manifestações de maior condenação para algumas práticas e desportos/festas, constituintes de tradições culturais mais ou menos enraizadas na nossa história e alma coletivas. É o exemplo das touradas que em Portugal e Espanha são o exemplo mais notório. A ligação cultural, emocional e afetiva a esta festa, as funções simbólicas e o que nela projetamos estão nela expressas de forma profunda e evidente, mas ignoradas pela maioria dos seus aficionados. As touradas são, de facto, um case study da cultura ibérica, sobretudo das suas componentes violentas e sanguíneas. Na recente polémica sobre a descida/não descida do IRC para as touradas estão lactentes muitas das temáticas de que hoje falaremos abreviadamente.

Na tourada procura-se um sentido para a vida festejando a morte. Ao fazê-lo expressa-se pujante a capacidade destrutiva do ser humano.

Na tourada integram-se fantasias, afetos e emoções, transformando-a numa festa de grande intensidade emocional.

As corridas de touros são rituais de caça, que se revestiu de um assinalável progresso da espécie humana, vinda da era anterior exclusivamente recoletora. Com ela o homem participa e altera o ambiente criando técnicas de defesa e ataque e descobrindo que organizado em grupos de cooperação será mais eficaz. Marcadamente masculino, o toureiro é caçador e nela demonstra a sua superioridade no domínio da morte e do inimigo. O traje de luzes, o porte comportamental altivo, são símbolos dessa superioridade.

A união e a cooperação estão expressas no conceito da praça, “territórios de paz, reunião e diálogo”. Onde se organiza a defesa e o ataque, como se controla e direciona a agressividade coletiva e se liberta o prazer. Esta é desculpabilizada pelo facto de o adversário ser um animal, mas quando ele cai, desce também o desanimo à praça, ao mesmo tempo que a superioridade humana é reconhecida*1. Porém, se recupera e de novo investe, surge a vingança já que a honra e a soberania foram afrontadas. Perante a submissão e cobardia finais do vencido, resulta a frustração do vencedor que mata o inimigo para vingar a sua própria frustração e a “dor psíquica” que provocou.

A sociabilidade que se anexa à tourada é sintoma de conflitos intrapsíquicos. Como caminho e atuação para controlar a agressividade, a tourada representa uma “tentativa falhada de sublimação, porque tentativa de terapêutica do ódio”.

“O matador, condutor de emoções, terapeuta do ódio, interprete e ator do inconsciente, por vezes também é agredido. Nesses momentos de suspensão, o clã sofre com ele o duro efeito da agressividade infletida no corpo ferido do toureiro. O clã vive a culpa pela projeção do seu ódio. É preciso que o toureiro viva. Com a morte do matador morre uma parte de cada espetador”.

Na tourada são importantes os troféus e a hierarquia. As orelhas e os rabos decepados, são castrações simbólicas e diplomas de lutas vencidas. A hierarquia da festa é o instrumento de controle e o caminho a seguir pela agressividade. Dá segurança, define os territórios, impõe as regras e identifica os rivais e apoiantes. Processo que constrói e agrava a “disparidade de forças existente entre os contendores”. Que no fim da festa culmina na “valentia e misericórdia dos cobardes”. Tal como em muitos outros aspetos do funcionamento social.

 

*1. A propósito do período recoletor e da sua passagem para a revolução agrícola na história da espécie humana, bem como da “dor e sentimentos” dos animais, leia-se Harari Y. 2016, Homo Deus, Edições Elsinore, Lisboa.

Outras obras de MJV:

As transgressões do Amor, 2016

A Oficina do Psicanalista, ensaios sobre a experiência psicanalítica, 2017.

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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