LETRAS @CORdadas – Luís Rosa

por Miguel Alves | 2017.11.22 - 13:52

 

Luís Rosa nasceu em 1939

Prémio Virgílio Ferreira,

Grande Oficial da Ordem do Infante, 2010

 

Luís Rosa nasceu em Alcobaça em 1939. Licenciou-se em filosofia na Universidade Clássica de Lisboa. Veio mais tarde a lecionar na Universidade da então Lourenço Marques e no Instituto Superior de Educação da Moçambique durante o período compreendido entre 1968 e 1974. Mais tarde seria também professor no Instituto Superior de Línguas e Administração em Lisboa entre 1982 e 1997.

Adquiriu ao longo da sua carreira, múltiplas formações, particularmente nas áreas da pedagogia e da gestão, circunstância que o levou a desempenhar cargos elevados na Portugal Telecom.

É membro da Academia Portuguesa de História e já foi membro da direção da Associação Portuguesa de Escritores e da Academia Portuguesa de História.

LR tem construído a sua carreira como escritor sobretudo com o romance histórico. Publicou o seu primeiro romance em 2002 com o título “O Claustro do Silêncio”, que o consagrou de imediato e com o qual recebeu o prémio Virgílio Ferreira. Seguiu-se “O Terramoto de Lisboa e a Invenção do Mundo”. Uma outra obra sua, “O Amor Infinito de Pedro e Inês” teve uma enorme projeção pela profunda densidade que imprimiu a um dos temas mais fascinantes da história de Portugal.

Quero hoje @CORdar uma das suas obras em que aborda um dos temas mais dramáticos da história recente do nosso país: a guerra colonial, mais concretamente na Guiné na qual participou como oficial do Exército: “Memória dos Dias Sem Fim”, 2009.

Li esta obra há alguns anos por mera curiosidade, baseada numa matéria relativa a uma experiência da minha vida pessoal que foi também de grande dureza e intensidade: participei na guerra colonial como oficial miliciano do Exército na ex província ultramarina de Angola durante vinte e sete meses.  No meu período de vida “vintage”. Com essa experiência ficamos marcados para o resto da vida. Em primeiro lugar por África: os sons, os cheiros, o chão africano, os rios africanos, a floresta africana, a chuva, as trovoadas e as tempestades africanas e, suprema maravilha, o pôr do sol em África. Em segundo lugar, a guerra, onde todos as caraterísticas anteriores de África assumem uma outra, dramática e assustadora dimensão. Situada lá, nessa realidade de beleza tão rara e outra para onde queríamos, urgentemente e todos os dias, regressar como fugitivos angustiados a um perigo permanente: a casa, ao nosso canto do “puto”, como era por nós tratada a metrópole. LR sintetiza este drama e angustia permanentes de forma brilhante: “Connosco ficava esse estranho mundo em que a forma de vida era a perene espera de morrer”.

A “Memória dos Dias Sem Fim” é um romance histórico que se embrenha nos meandros da política colonial, na sua imensa absurdez, nos seus aspetos concretos, no funcionamento e logística da mesma e nas relações humanas e pessoais dos seus intervenientes ao nível do seu comando e da imensa massa humana de combatentes que a levaram a cabo sem dela perscrutarem as razões profundas e os contextos históricos que as desenvolveram. Vale por isso.

Mas vale por muito mais: é um livro apaixonante que me levou a acompanhar e ler a escrita de LR, pela profundidade e densidade com que aborda a condição humana em múltiplas e ocultas facetas. A potência sociológica e psicológica que LR imprime à condição humana a partir da realidade da guerra (“Para além da guerra e da violência dos tiros, havia uma outra violência que afetava as almas, como conflito surdo, pronto a explodir no manancial de todos os actos.  Na guerra, o homem é um ser estranho. O individuo tornava-se selvagem por conjuntura. A guerra tem um cheiro próprio. A guerra é fértil em produzir afloramentos de aproximação á loucura. A guerra era ali, contraditoriamente, a solução para tudo o que, afinal, se constrói sem armas. A arrogância é quase sempre uma vestimenta de fortidão aparente, escondendo a cobardia mísera de que é feito o travamento da alma dos biltres. Coisa grande ali era a amizade. Nunca o esqueci. Seria capaz de fazer por ele todos os caminhos do inferno. Mas a generalidade dos oficiais do mato era silenciosa, revoltada contra os basbaques que na cidade faziam a guerra comoda de comezaina e má vida. O olhar não escondia um certo desprezo por aquela corja de basbaques”), transporta este livro muito para além dela: para os grandes temas que preenchem o sentido da vida, ou da falta dele: o amor (“o tempo está a mais no amor”), a amizade (“Para ele a amizade era igual em todo o lado”), o sofrimento (“… a cabeça caída como se a alma tivesse ficado para trás. A voz correu como um calafrio que arrastava uma tristeza infinita. Era o Braga. Os outros respeitavam-no”), o medo (“Deus fez o homem aparentemente cheio de limitações. Tinham a expressão suspensa de quem acabara de passar ao lado do fim”), a crueldade, a solidão (“a solidão está sempre povoada de fantasmas. …a vida tornar-se-ia na invenção das formas e no desenrascanço dos modos”), a morte (“…a morte nunca vem na hora esperada. A morte passara em voo rasante. É sempre grande uma causa e a morte que por ela faz terminar a vida. Outro acomodava-se entre as munições e as granadas com a familiaridade de quem encostava o corpo ao aconchego da morte. … para desejar aquele manso imitador da morte que é o sono”).

O livro acaba servindo-se ainda da guerra, agora no pós guerra, para abordar o conflito entre os humanos, a harmonia, a tolerância e a paz, mesmo entre aqueles que se combateram. Não se trata do encontro entre o comandante guerrilheiro e o comandante do sistema político que definia o primeiro como terrorista. É o encontro entre formas de encarar a vida, entre os modelos para a governar e os princípios que devem nortear a conduta humana. No limite, a política. (”Quando se fecha o diálogo apenas resta a luta. Aí os que têm um ideal mais forte tendem a dominar. A repressão do impulso pode fazer explodir os actos em formas inesperadas de perversão. Não quis saber mais. Já nada na dimensão do humano seria capaz de me impressionar. Mas as promessas quando amontoam ás promessas, matam a esperança e vão fazendo nascer o desespero. Os sistemas ou a mudança dos sistemas atiram as pessoas para comportamentos que só á distância conseguem ter um julgamento isento. Quando se abrem as portas da mudança, por ela entram ventos e tempestades. Mas o homem, deixado ao desaforo desembestado da sua cobiça, constrói sempre um universo de leis à sua medida. É capaz mesmo de fabricar um deus á sua dimensão que lhe justifique os desmandos. Quando se vive num sistema dificilmente se apercebe do seu fim ou da sua mudança. Para tudo o homem precisa de pontos de referencias. Queriam á força fazer de nós portugueses de pele negra. A vida não pode ser ódio permanente. Entendemos-nos, apenas, no dia em que cada um relativiza a sua verdade. Como se cada um fosse o principal desconhecedor de si próprio. E nada nem ninguém é senhor da verdade para poder ser juiz de alguém. A verdade não cabe em nenhum sistema. Nem na cabeça do homem. É como as flores. Sente-se-lhe o perfume e murcha quando a fazemos nossa”).

Governar são sempre promessas do devir. Não podem amontoar-se. É a esperança e o desespero que estão em causa. “A verdade não cabe em nenhum sistema, nem na cabeça do homem”. Todos queremos a flor da vida viçosa e perfumada. São as conclusões do diálogo entre o Comandante Malan e o Comandante Português no final do livro. De subscrição obrigatória e universal, para que os desembestados da cobiça não voltem a construir universos e deuses à medida dos seus desmandos.

Mas o homem, deixado ao desaforo desembestado da sua cobiça, constrói sempre um universo de leis à sua medida. É capaz mesmo de fabricar um deus à sua dimensão que lhe justifique os desmandos. Outras Obras de LR

“O Claustro do Silêncio”, 2002;

“O Terramoto de Lisboa e a Invenção do Mundo”, 2004;

“O Amor Infinito de Pedro e Inês”, 2005”;

“Bocage – A vida Apaixonado de um Genial Libertino”, 2007

“O Dia de Aljubarrota”, 2008.

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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