Letras @CORdadas – José Rentes de Carvalho (1930)

por Miguel Alves | 2018.06.24 - 11:02

 

 Prémio da Literatura Biográfica da APE, 2012;

Prémio da APE para a Crónica, 2013;

Comendador da Ordem do Infante, 1991;

Medalha de Ouro da Cidade de Vila Nova de Gaia, 1992.

 

José Rentes de Carvalho é um escritor luso-holandês de origem transmontana nascido em Vila Nova de Gaia onde viveu até 1945. Atualmente reside parte do ano na Holanda e parte na aldeia de Estevais (Mogadouro) onde recuperou uma casa feita nas horas vagas apenas pelo seu avô para um neto que na altura ainda não existia e onde os seus pais viveram durante quarenta anos.

Estudou no Porto, Viana do Castelo e Vila Real. Cursou direito e românicas na universidade de Lisboa, onde também fez o serviço militar. Abandonou Portugal pouco depois dos vinte anos por razões políticas, baseadas no facto de ter amigos comunistas e correr o risco de ser preso. Foi durante o serviço militar que o PCP tentou o seu aliciamento político, a que ele respondia que não queria pertencer ao partido. O seu pai, guarda fiscal, tinha um amigo inspetor da pide que sabendo disso lhe disse “se o rapaz anda com essas companhias mais cedo ou mais tarde será preso; é melhor ele ir-se embora”. Paralelamente, os seus pais tinham uma família amiga em Gondarém e onde trabalhava uma governanta casada com um bisneto de Balzac. Conhecendo-o, ela terá sido decisiva na sua ida para Paris: “Tu não pertences aqui. Vem para Paris”.

Viveu no Rio de Janeiro, S. Paulo. Nova York e Paris, cidades onde trabalhou para jornais e revistas diversas. Em 1956 aceitou o cargo de assessor do adido comercial do Brasil na cidade de Amesterdão, cidade onde passaria a viver a maior parte da sua vida e onde ainda vive parte do seu tempo. Nesta cidade completou os seus estudos superiores com uma tese sobre Raúl Brandão (“O Povo na obra de Raúl Brandão”) e onde passaria a ser professor de literatura portuguesa durante vinte quatro anos. Após esse tempo dedica-se em exclusivo à escrita que inclui a sua participação em jornais e revistas literárias de Portugal, Brasil, Holanda e Bélgica.

Em Viana do Castelo foi aluno de António José Saraiva e a quem ele dava sempre “optimo” nos seus textos. Viria a encontrar esse seu professor em Amesterdão nos anos sessenta: exilado político e em situação muito precária e difícil em termos financeiros. Sobre essa circunstância conta JRC em entrevista: “Então eu, que já estava a lecionar na Universidade de Amesterdão, achei que o Saraiva era um bom candidato à cátedra de Língua Portuguesa que, entretanto, tinha ficado vaga. O catedrático espanhol insistia que o Saraiva era um pulha, mas eu e o meu colega holandês não lhe demos ouvidos. Ele chegou e logo na aula inaugural, em vez de fazer um trabalho original, limitou-se a ler uma coisa de uma conferência que já tinha feito em França. A partir daí foi rodeado de uma corte de maoistas fanáticos como ele e como a Teresa Rita Lopes [com quem António José Saraiva vivia] e começámos a entrar em choque. Tudo começou no dia em que íamos pela rua de Amesterdão e a Teresa Rita Lopes parou na montra de uma loja de casacos de peles e perguntou ao Saraiva se não lhe comprava um. Aí eu não me contive e gritei-lhe: “Casaco de peles uma grandessíssima merda. Então você não é comunista?” A partir daí ele começou a tentar que eu fosse expulso da Universidade. No dia depois do 25 de Abril um jornal holandês escreveu que eu tinha sido preso em Lisboa porque era da PIDE. Quando voltei para Amesterdão percebi que tinha sido o Saraiva que tinha inventado aquela história. Movi-lhe um processo em tribunal e ele foi condenado por difamação. A Universidade decidiu demiti-lo, mas uns dias antes ele já tinha vindo para Lisboa onde tinha arranjado um lugar de professor na Universidade Nova. Mas este foi apenas uma das vezes em que quis ajudar, em que fui sincero e leal e levei um pontapé”.

JRC é detentor de uma escrita exímia, rigorosa, de grande invenção criativa e, ao mesmo tempo, detentora de um estilo requintado na sua simplicidade. A sua obra está expurgada de toda e qualquer inutilidade, não existe “palha” para encher páginas, cada palavra tem um sentido exato, necessário, profundo e completo (“Não gosto de ludibriar o leitor com romances de quinhentas páginas das quais metade devia ir para o lixo. Isso dá muito trabalho. Encontrar a palavra certa. Aquela que não pode ser substituída. Escolher a frase do tamanho certo, sem coisas a mais nem a menos. Sinto uma necessidade de manter o significado, de manter a riqueza do idioma. De encontrar harmonia, sentido musical e ritmo”).

A sua obra é culturalmente erudita e cosmopolita, mesmo quando aborda a cultura, mentalidades, temas e locais das zonas muito pobres onde teve as suas origens e infância. São elas que constituem uma parte importante da sua obra, expressas numa matriz de rigor cirúrgico, acutilante, irónico, mordaz, mas de uma afeição profunda e de enorme frontalidade e coerência (“Somos um país de medricas, de gente subserviente, assustada. Talvez seja um medo psicanalítico do pai… Esta é a minha terra, esta é a minha gente, é onde eu pertenço”).

JRC tem relativamente ao seu país e á cultura portuguesa posições muito críticas, mas de grande honestidade intelectual. Tem até razões para isso. Foi ignorado e ostracizado durante décadas pelo meio cultural e editorial português que, não obstante o seu sucesso e aceitação na Europa, só muito tardiamente foi aceite e reconhecido em Portugal. Ressentido? ”Não, ressentido não. É normal, eu não vivo cá e o meio é pequeno e para poucos. Mas custou-me quando me deparei com uma certa maldade, como no ano em que estive na feira do livro de Frankfurt. Tinha publicado na Holanda o Portugal, Um Guia para Amigos, que vendeu mais de 200 mil livros, esgotou dez edições. Então o meu editor holandês decidiu ir a Frankfurt levando apenas o meu livro. O stand da editora (a segunda mais importante da Holanda) estava coberto com fotos da minha cara e eu estava lá. Passaram ali escritores, editores e jornalistas portugueses que eu conhecia e nenhum deles me cumprimentou. Baixaram a cabeça ao passar. Isso magoou-me muito. Somos um povo sem palavras e por isso queremos ter coisas. De preferência caras que deem um sentido aparente ao caos interior. Por exemplo, na Holanda não há carros de luxo. Quem tem carros de luxo são os traficantes de droga, as prostitutas e os parolos. Começa logo nos políticos. Ser político à portuguesa implica logo ter um carro de luxo (como experiência pessoal minha, tive ocasião de verificar nos anos noventa do século passado, que o presidente do governo do Estado de Bremen na Alemanha, muito próximo da Holanda e social e culturalmente mais holandês que alemão, Hitler nunca foi a Bremen, deslocava-se na cidade de bicicleta. Tinha na altura mais de sessenta anos. Porém e sobre esta matéria, JRC não nos diz como se deslocam os políticos holandeses). Portugal não funciona em função das necessidades dos seus cidadãos. Permite a riqueza a uns quantos e os outros são descartáveis”.

Quero hoje @CORdar uma das obras mais recentes de JRC: “O Meças”, 2016. É uma obra sobre a memória de um homem atormentado por demónios interiores que o fazem capaz de engendrar os piores horrores. Memórias geradoras de loucuras e medos que ocupam a sua vida no presente utilizando o caminho do ódio devastador e da violência. Memórias de sua irmã a quem o rico abastado usava e abusava. Memórias que não são bem aquilo que ele pensa serem, já que vivendo com o filho e a nora detesta-o a ele e deseja-a a ela. Porque a matriz é outra: psicopata rural, mas igual a todos os outros nas suas típicas diferenças.

Obra que retrata idiossincrasias incontornáveis do ser português de todos os tempos e lugares: na ruralidade do isolamento, abandono, pobreza e ignorância (“calam e escondem, olham de lado, vivem o medo, aceitam o destino. Cresceram maldosos, bons na fisga e nas armadilhas, ágeis que nem macacos. Porque todos eles são barris de pólvora, e um dichote, um olhar que cai mal. A mecha que os faz explodir com pouco se ascende”) onde decorre e narrativa, como de todos os outros em todos os lugares (…“em vez de um país de verdade me veja numa quermesse de dependências e jeitos, favores, golpes de todo o feitio”, medos e ameaças, anseios irreais e amanhãs que não chegam” porque “na vida há eternidades de espera, nenhum caminho é direito”).

“O Meças” é exemplarmente arquitetado em quatro peças: na primeira ocorre uma espécie de anamnese de António Roque (O Meças), o personagem principal: (“fala só, imita vozes, num ou noutro dia murmura diálogos, quem o encontra acena e passa adiante, de sobra lhe conhecem os repentes e a língua solta, a força bruta. …porque de nada desatava aos gritos e não podia estar quieto. Já então parecia ter raiva do mundo, e homem feito era melhor não o contrariar porque desafiava á toa, pouco lhe importando o perigo ou a valentia do outro. …voltou da Alemanha mais zonzo do que antes, ainda mais avesso, dispensando amigos bebendo sozinho”).

Na segunda desenrola-se a tentativa de uma espécie de “insight” feita por ele sobre si próprio, e que só em literatura pode ocorrer já que em personalidades como a dele não existe a capacidade para olhar para dentro de si com semelhante profundidade (“Há muito deixei de me por interrogações inúteis. Consegui libertar-me de culpas que supunha minhas. A memória tem chagas que nada sara, nada fecha, insensíveis ao tempo, constantes na dor. Tocar-lhes aumenta o sofrimento, remexer no que foi é sem proveito nem paz, basta quando a recordação nos assalta, inimigo que trazemos nas entranhas.   …aparência que me fez consumado actor que por vezes a mim próprio me surpreendo, encontrando mais conforto no papel que faço do que na pessoa que sou”).

Na seguinte desenvolvem-se alguns dos principais episódios da história que uma obra como esta sempre terá que contar. Para o leitor que sou, é a parte dos romances menos valorizada.

Na quarta têm lugar, e sempre no contexto da história do Meças, as reflexões do autor que remetem para algumas caraterísticas autobiográficas desta obra, nomeadamente: a emigração e as análises sociais e políticas que faz de Portugal e dos portugueses (“O ele não ser engenheiro de coisa nenhuma, como mostra de respeito, mas era também a maneira segura de verdadeiros servos, ocultar o ódio e o desprezo que lhe tinham. A horas mortas divertia-me com lucubrações descobrindo então bizarrias semelhantes de Portugal, como se ele fosse em vez de país fosse também pessoa. …dói, dói muito, quando sinceramente e com fundamento, nos demonstram piedade pela pouca sorte de temos nascido num país de ternura, de tanta gentileza, mas ser ele há séculos como coito de quadrilhas que pela força e o embuste chamam a si a lei, a impõem a uma gente que, amedrontada e pobre, se verga ao jugo e muda em subserviência o seu natural carinho. …continua a enfurecer-me a desigualdade, a desvergonha e o desdém dos governantes pelos governados, o desmedido fosso entre os que têm e os que não têm. Longe de mim querer pôr outra gente nos cornos da lua para melhor acentuar a pequenez da minha, mas onde encontrar um chico-espertismo á portuguesa, a tão original mistura de trafulhismo e ingenuidade? Uma bazófia assim? Aquele modo de falar do Mercedes? A cómica soberba dos que se creem donos disto tudo e tomam Cascais e a Foz do Douro pelo supra-sumo da elegância”.

Assim será pelo menos parcialmente e, felizmente, cada vez menos. Mas, … talvez fatalidade “Continuo a olhar em redor e hesito, quero-me despedir, ouvir-me dizer que não voltarei, mas o grilhão pode mais: será sempre bilhete de ida e volta”. Assim termina JRC esta sua obra. Porque será?

Este romance tem ainda uma preciosidade adicional: como anexo, JRC oferece-nos uma série de reflexões/comentários que lhe ocorreram ao longo da sua escrita, que com ele podem ser articulados e ele teve a lucidez e inteligência de registar. Quase tão valiosos quanto a história e a sua riqueza e qualidade narrativas. Por isso ele diz também e com acerto: “somos aquilo que sobra de nós”.

 

Outras obras de JRC:

Montedor, 1968;

O Rebate, 1971;

A Sétimas Onda, 1984;

Ernestina, 1998;

Mazagran, 1992;

Portugal, a Flor e a Foice (escrito em 1975), 2014;

Trás-os-Montes, o Nordeste, 2017.

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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