LETRAS @CORdadas – José Luís Peixoto

por Miguel Alves | 2018.07.26 - 06:42

 

José Luís Peixoto nascido em 1974.

Prémio José Saramago, 2001;

Prémio Cálamo de Espanha, 2007;

Prémio de Poesia Daniel Faria, 2008;

Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores, 2013;

Prémio “Libro d´Europa” de Itália, 2013;

Prémio “Oceanos” da Literatura Portuguesa do Brasil, 2016.

José Luís Peixoto nasceu numa aldeia do Baixo Alentejo, Galveias no concelho de Ponte de Sor, onde viveu até aos dezoito anos. Nessa altura, foi estudar para a faculdade de Ciências Sociais e Humanas em Lisboa onde se licenciou em línguas e literaturas modernas na vertente de estudos ingleses e alemães. Após isso, foi professor nessas disciplinas em inúmeras escolas do país e na cidade da Praia em Cabo Verde. Em 2001 e apenas com 27 anos decidiu dedicar-se em exclusivo à escrita, sendo atualmente um dos escritores mais prestigiados da nova geração das letras portuguesas quer em Portugal como no resto do mundo.

A sua obra espraia-se sobretudo pelo romance, mas também pela poesia, pela literatura de viagens e até pela literatura para a infância e juventude. JLP escreve ainda em diversos órgãos da escrita portuguesa e estrangeira entre os quais a revista “Visão”, o “Jornal de Letras”, o “Notícias Magazine” e outros. JLP está traduzido em 26 idiomas espalhados pelo mundo.

JLP é o escritor mais jovem a ter recebido o Prémio José Saramago e várias de outras obras suas foram objeto de consideração internacional, nomeadamente nos 10 melhores livros da primeira década do século XXI (Morreste-me) da revista “Visão”, na lista do Financial Times para os melhores romances publicados em Inglaterra no ano de 2007 (Nenhum Olhar), na edição europeia dos 100 livros para ler antes de morrer (Uma Casa na Escuridão), o primeiro português a ser publicado na Geórgia (Galveias) e o primeiro escritor português a ser traduzido na Mongólia (A Mãe que Chovia).

A escrita de JLP é, simultaneamente, realista, lírica e mágica. Escritor intimista escreve ao sabor e fluxo da consciência o que nos faz lembrar o realismo mágico de William Faulkner e García Marquez. Realismo de vidas e lugares concretos, mas espelho da jornada humana em lugares universais.

Quero hoje @CORdar “Nenhum Olhar”, 2000, uma das obras mais apreciadas e reconhecidas nacional e internacionalmente de JLP.

“Nenhum Olhar” situa-se nas origens familiares e sociais de JLP: uma aldeia perdida e ignorada no Alentejo onde a pobreza é severa e generalizada e o destino tão certo e seguro quanto o é a morte, porque a vida é aí quase o único valor existente (“Eu morrer não é nada na ordem implacável do mundo”).

Nenhum Olhar” são traços de vidas numa aldeia alentejana onde todos nos podemos parcialmente reconhecer e cujo GPS nos pode transportar para lugares “sujeitos epistémicos” da condição humana (“A sua história pesadamente eterna, não por nunca acabar, mas por ser constante, por não haver uma pausa que distinga o fim do início. Talvez os homens sejam pedaços de caos sobre a desordem que encerram, e talvez seja isso que os explica. Talvez haja uma luz dentro dos homens, talvez os homens sejam as certezas que possuem”). JLP repete e insiste como refluxo amargo, real, mesmo que mágico, o fluir de uma consciência que não esquece e torna universais os dramas e vivências que parecem localizadas (“…enrolaram o que tinham na gaveta da mesinha de cabeceira dentro de um lenço de assoar porque tudo o que possuíam cabia na gaveta da mesinha de cabeceira e dentro de um lenço de assoar”). E isto porque “Nenhum Olhar” podem ser muitos ou todos os olhares.

Em “Nenhum Olhar” existe o velho que resiste e sobrevive a todas as intempéries sociais e humanas; existe a prostituta, o homem enganado que vê a sua vida desmoronar-se (“…lá estava o meu pai a olhar-me, como me olhou antes de morrer, fechado num silêncio de não poder dizer o que sentia e a dizê-lo num olhar mudo. …foram casados pelo diabo. …todas as mulheres sabem mais do que vêm quando são questões sentidas”), o infeliz que nunca acerta na ação e nos lugares onde ela pode ter lugar. Existe quem tudo desequilibra, no caso a religião e a igreja católica (“Calei-me porque conheço o tamanho curto da memória dos homens”). Há animais, sol, sol e muito, muito calor que pode ser frio e gelo em qualquer outro lugar (“O canto dos pássaros retomou a sua misteriosa simetria. A tarde resistiu o tempo de ser atravessada por uma andorinha. O canto dos grilos enchia toda a extensão da noite com a sua ausência. Nunca leves uma grila para casa porque elas chamam as cobras”).

Nenhum olhar” é um livro de silêncios e olhares que refletem o universo circundante e onde, por isso, quase não é necessário falar (“…sem quebrar o silêncio que as coisas fazem existir, José lembrou-se do sorriso do demónio”). A felicidade não se persegue porque simplesmente não se sabe como fazê-lo e a fatalidade do destino está entranhada na essência do ser. A par de poucos que conseguem o contrário, sabe-se lá como (“Talvez o sofrimento seja lançado ás multidões em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros”). A par de outros que tentam, mas a má língua a intriga, a maledicência e os preconceitos trapaceiam o caminho (“Ficavam a olhar-me, como se me procurassem nos olhos, como se quisessem humilhar-me com os olhos, como se com os olhos me dissessem puta. …roubam ao corpo um esforço para me cumprimentar enquanto passam”).

JLP acaba este livro escrevendo que “O mundo acabou. E não ficou nada”, enunciando de seguida aquilo que na sua perspetiva desapareceu e terminando em “não ficou nenhum olhar”. Parece certo que caminhamos para lá. Nenhum olhar como significante de “consciência” que, como escreve Yuval Harari em “Homo Deus”, 2016, a ciência e a inteligência ao descolarem da consciência, só poderão restar algoritmos.

 

Outras obras de JL

Romance

Morreste-me, 2000;

Uma Casa na Escuridão, 2000;

Antídoto, 2002;

Cemitério de Pianos, 2006;

Abraço, 2011;

Galveias, 2014;

Em teu Ventre, 2015.

Poesia

A Criança em Ruinas, 2001;

A Casa na Escuridão, 2002;

Gaveta de Papéis, 2008.

Literatura de Viagens

Dentro de um Segredo, 2011;

O Caminho Imperfeito, 2017.

Literatura Infantil

A Mãe que Chovia, 2012;

Todos os Escritores têm a cabeça Cheia de Piolhos, 2016.

 

(Foto DR)

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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