LETRAS @CORdadas – John Le Carré (1931)

por Miguel Alves | 2017.07.21 - 18:05

 

Prémio Somerset Maughan, 1964;

Doctor of Letters da Universidade de Bath, 1998;

Medalha Goethe do Instituto Goethe, 2011;

 Doctor of Letters da Universidade de Oxford, 2012.

 

John Le Carré, é o pseudónimo de David John Moore Cornwell. Nasceu em Pool, Dorset no Berkshire, Inglaterra. Segundo filho de um executivo publicitário que fez e desfez fortuna várias vezes e teve problemas com a justiça chegando a ser preso por fraude na área dos seguros, apenas conheceu a mãe aos vinte e um anos, por esta o ter abandonado quando tinha apenas cinco anos de idade. As relações com seu pai foram sempre muito tumultuosas, tendo culminado na circunstância de na sua morte, 1975, o mesmo ter pago o serviço funerário sem ter estado presente no funeral. As fraudes de seu pai terão induzido o interesse de JLC pelos segredos da justiça que, a par da sua futura atividade profissional nos serviços secretos e na diplomacia, contribuíram para definir a justiça, a diplomacia e a espionagem como o agregado temático de toda a sua carreira como escritor. Numa das suas obras, “O Espião Perfeito”, 1986, o personagem principal, é criado e desenvolvido com base na história de vida de seu pai, Ronnie, de seu nome. Sua irmã era uma atriz de teatro, Charlotte Cornwell.

JLC estudou línguas estrangeiras na universidade de Berna na Suíça, e em Oxford na Inglaterra. Após esses estudos, ingressou nos Serviços Secretos do Exército inglês sediados na Áustria, como inquiridor da massa flutuante de cidadãos a analisar politicamente e que circulavam entre a Europa de leste e a Europa ocidental. Em 1952 regressou a Inglaterra para estudar no Lincoln College em Oxford, onde se bacharelou em Artes de Primeira Classe. Ingressou depois nos Serviços Secretos ingleses, MI5, onde desenvolveu trabalho na espionagem junto de grupos de extrema esquerda no sentido de identificar eventuais espiões soviéticos em solo britânico.  “O acto de espiar é a normalidade levada a extremos. Espiar é esperar. Continuo a percorrer os corredores secretos, chamando dever á minha cobardia e sacrifício á minha fraqueza”. A sua carreira nestes serviços terminou abruptamente quando um agente duplo britânico denunciou ao KGB a identidade de muitos dos seus colegas, facto que gerou uma enorme controvérsia política e social naquele país.

Foi professor de francês e alemão no Eton College, uma das escolas mais prestigiadas de toda a Inglaterra e por onde passa, em regra, toda a alta aristocracia inglesa. Após esse período ingressou na carreira diplomática daquele país onde permaneceu entre 1960 e 1984. “Era um diplomata e não um amigo, nome porque eram conhecidos os espiões. E na sua zoologia”.

Ficcionista e romancista na área da justiça, espionagem e  diplomacia, foi considerado em 2008 como o 22º escritor inglês entre “Os cinquenta maiores escritores ingleses desde 1945”. Na sua escrita, os conflitos assumem frequentemente a caraterística de dramas interiores quer em termos pessoais como sociais, deixando de fora muitas das suas facetas socialmente visíveis e de maior expressão pública. Na mais recente fase da sua produção literária, trabalhou também em temas mais atuais como o desmembramento da União Soviética, o terrorismo islâmico e alguns aspetos censuráveis da política externa americana, como por exemplo, a política americana no Panamá e as políticas comerciais duvidosas da industria farmacêutica americana relativamente a África.

Como cidadão, é conhecido pela sua clara e elevada independência social e política que o posicionou abertamente conta a guerra do Iraque, na recusa de vários prémios literários e na rejeição do grau honorífico de “Cavaleiro do Reino” por tarte de coroa britânica. “Por vezes a verdade não passa de uma máscara para a auto-indulgência”.

Quero hoje @CORdar uma obra muito celebrada de JLC: “A Casa da Rússia”, 1989, e que na altura da sua primeira edição se revestiu de enorme curiosidade e grande interesse público. É uma obra de ficção que tem subjacente uma ideia básica que se reveste hoje de grande atualidade: o conhecimento do povo e da sociedade russos, a sua história, a sua cultura, os seus temores, anseios e idiossincrasias. “Na Rússia, os elevadores e as Igrejas estão sempre em reparação. Tantas igrejas e não se ouve uma oração. Os russos não confiam nas paredes, ela há-de falar melhor ao ar livre. Se quiser entender a doença russa, terá de viver no pântano russo. Só uma russa seria capaz de se mostrar tão intrometida a ponto de poder verificar a aritmética de um homem. Mas quando os russos queriam fazer das suas, havia sempre alguém por perto. …enquanto se amaldiçoava por ser um eslavozinho impetuoso e não um inglês frio e calmo. …as suas confusões por ser eslavo, do seu amor pela Rússia e, apesar de tudo, do facto de se sentir suspenso entre duas culturas”.  Para, a partir desse conhecimento mais aprofundado, e para além dos estereótipos que a guerra fria criou, desenvolveu e manteve, durante a qual a história se desenvolve, se criarem condições de uma maior “entente” entre este importante e grandioso país e o ocidente. “Mas então, qual é a diferença, pergunto eu, entre os países que encarceram algumas ovelhas ranhosas e aqueles que deixam á solta os seus gangsters? O desarmamento não era uma questão militar, nem tão pouco política, foi o que eu disse. Era uma questão de vontade dos homens. Tínhamos que decidir se queríamos paz ou queríamos guerra. Porque aquilo para que nos preparássemos seria aquilo que teríamos no futuro. Eu disse-lhes que acreditava em Gorbachev. Disse-lhes que se os americanos estivessem alguma vez preocupados com o desarmamento, tanto como se preocupam em mandar um pateta qualquer à Lua, ou em pôr listas cor de rosa nos dentífricos, já há muito que teríamos desarmamento. A bomba não obstou que houvesse uma Coreia, a opressão da Checoslováquia, a que houvesse um Vietnam. A bomba não impediu o bloqueio de Berlim, a construção do Muro de Berlim, ou a intervenção no Afeganistão. Se isso é a paz, porque não tentá-la sem a bomba?”

A estrutura formal deste romance obedece a um rigor fino e apurado e as suas personagens têm uma enorme profundidade humana e psicológica, a par da complexidade social, política e até moral da trama em que elas se desenvolvem e da sofisticação e inteligência desses enredos. Esta caraterística fez com que JLC seja considerado o maior romancista de espionagem do século XX, encarada esta em termos literários e filosóficos. “Chamem o nosso velho ilusionista das leis. Há vinte anos que sou o vosso mais humilde criado secreto, pronto, em qualquer altura, a manipular os pratos da balança da mesma deusa cega que o meu coração jovem aprendeu a venerar. …tinha-se treinado na técnica do sorriso. Era uma arma injusta, se usada com pessoas amigas, um pouco como o silêncio ao telefone. Mas nada sabia de injustiças, porque nada sabia do seu oposto. Desonestos, mas eficientes. Lidamos com coisas erradas. Ele não distingue dinheiro de esterco. Mas você deve ser uma pessoa que confunde facilmente os outros. Um homem, que de tão vergado pelas coisas da vida, talvez fosse o indicado para manter os outros na linha”.

Barley Blair é um editor britânico com negócios na publicação de ficção russa no tempo de Mikhail Gorbatchev e do início das profundas alterações que nesse imenso império começavam a acontecer. “Porém, nesse domingo de Setembro, com os invulgares odores que havia no ar, cerca de duzentos admiradores do escritor tinham-se aglomerado à volta do tumulo. O que nós sentíamos era que os cânticos tinham banido do céu aqueles porcos”. Numa das viagens que faz a Moscovo, percorre o país e tem encontros com alguns dos escritores daquele país. “…parecia determinado a explorar tudo o que havia para além do óbvio. Com a arrogância de alguém para quem a mentira era um constrangimento que os outros não lhe deveriam impor”. Num dos eventos dessa viagem está Goethe, importante cientista russo que pretende que Blair lhe venha a publicar um livro no qual iria descrever importantes problemas no sistema de defesa russo, tal como decisivas informações sobre alguns dos segredos militares que poderiam ser decisivos para o ocidente. “Não havia nada de desleal na traição, desde que se traia o que se odeia e se lute pelo que se ama. A lealdade em excesso pode ser uma terrível maldição. É que pode vir um dia em que não haja mais nada nem ninguém a quem servir. Eu sou um pária moral. Negoceio com teorias impuras”. Katya Orlova, também editora como ele e ex amante de Goethe, tenta localizá-lo para lhe fazer entrega desses documentos durante uma feira do livro no consulado britânico em Moscovo, mas o editor não aparece. O setor da “Casada Rússia” dos serviços secretos britânicos faz regressar Blair a Moscovo mais tarde, para verificar se os documentos existem e são verdadeiros, ou se tudo não passará de estratagemas da espionagem soviética.  “Estamos a um passo de obter informações que nenhuma máquina sofisticada, que nenhuma criatura eletrónica, que nenhum jesuíta do Pentágono poderia obter nos séculos mais próximos”. Goethe vem mais tarde a ser hospitalizado, vindo a morrer por suposta “causa natural”, após os serviços secretos russos entrarem no processo e o controlarem. Blair e Katya haviam começado progressivamente a envolver-se emocionalmente, acabando apaixonados. Instalam-se em Lisboa onde acabam tranquilamente os seus dias. “…um fulgor de excitação ardia nos seus pálidos olhos bálticos. Não disse uma palavra, mas eu sentia a intensidade disciplinada da sua excitação. Mas a minha outra metade sente vergonha e um misterioso alarme. Quando uma mulher é bela, inteligente e virtuosa, nunca se sabe para que lado vai cair. O casamento não sei, mas o amor de certeza. Transformaram-se repentinamente em duas cabeças numa almofada, ouvido contra ouvido. E quando ele desligou, não foram as suas piadas nem o seu discurso auto irónico que ela guardou, mas o tom da sinceridade, uma sinceridade feliz”.

As relações entre os USA/Ocidente e a Rússia estão atualmente em risco ou carregam algum potencial de melhoria? Os sinais são contraditórios e as decisões não parecem ter fio condutor. Estaremos á beira de riscos maiores? Segundo o relatório dos Cientistas Atómicos Americanos, “o relógio” que eles colocaram em marcha está na eminência do ponto crítico final. Diz JLC: “De novo a guerra. Os velhos declaram-na, os jovens travam-na, mas hoje os bebés e os velhos também a travam. Os americanos, com o seu desfrute sem limites de poder e dinheiro, alardeiam a sua ventura. Falta-lhes o instinto de simulação, que nos britânicos é tão natural. …podem surgir situações em que o jogador tem fantasias tão grotescas acerca do outro que acaba por ver nele o inimigo de que precisa. Temos que pensar como heróis se queremos comportar-nos como seres humanos meramente decentes”.

Será de todo desprovida de potencial a política de D. Trump relativamente á Rússia? Jack Matlock, antigo embaixador americano na Rússia afirmou não poder acreditar na atenção excessiva dada aos passos da Administração no sentido de estabelecer canais de comunicação com a Rússia. Diz ele: “Claro, é exatamente o que eles devem fazer”. O que se vê e ouve “É uma espécie de paradoxo: a única questão que parece inflamar a oposição democrata, é a única coisa que tem justificação e aspetos razoáveis na base. O único raio de luz nesta escuridão: tentar reduzir as tensões com a Rússia.”

O problema de maior profundidade e intensidade estará no facto de a sociedade americana ter arreigada no seu inconsciente coletivo a convicção (fantasia grotesca) de que a Rússia é seu inimigo, por força de meio século de guerra fria. (O inimigo de que precisa). Esquecendo-se que o território russo, ao longo da sua história, foi invadido pelo Império Mongol, pela França de Napoleão e pela Alemanha de Hitler. Encontrando sempre no seu povo a resistência e ferocidade que a história nos relata e espanta, com a qual sempre terá de se contar, porque componente profunda da sua história secular.

 

JLC vive há quarenta anos numa propriedade sua, com uma milha de penhascos em St. Buryan, Land’s End, na Cornualha, onde se dedica exclusivamente à escrita. Numa entrevista num canal de TV americano no programa “Democracia Agora”, afirmou ser a última vez que falaria publicamente porque já dissera tudo o que queria dizer fora dos seus livros. ”Quero dedicar-me inteiramente à escrita e não a esta forma de arte particular”.

Muito por força do seu conteúdo temático, sete obras de JLC foram adaptadas ao cinema (“O Espião que Veio do Frio”, “O Alfaiate do Panamá”, ”O Jardineiro”, “A Casa da Rússia”, “A Garota do Tambor”, “O Espião que Sabia Demais” e “O Homem mais Procurado”.

 

Outras obras de JLC

Um crime entre Cavalheiros, 1962:

O Espião que Veio do Frio, 1963;

O Espião que Sabia Demais, 1974;

A Garota do Tambor, 1983;

O Peregrino Secreto, 1990;

O Alfaiate do Panamá, 1996;

Amigos Absolutos, 2003;

Os Estados Unidos Ficaram Loucos (ensaio), 2003;

O Nosso Fiel Traidor, 2010;

Uma Verdade Delicada, 2013.

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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