Letras @CORdadas – Haruki Murakami (1948)

por Miguel Alves | 2017.04.25 - 00:07

 

 

 

Prémio Tanizaki, 1985;

Noma Literary Prize, 1982;

Kiriyama Prize, 1982;

Yomiuri Prize for Literature-Ficção, 1995;

Prémio Franz Kafka, 2006;

World Fantasy Award-Novela, 2006;

Prémio Jerusalém, 2009;

Frank O´Connor International Short Story Award, 2009;

Prémio Internacional Caatalunha, 2011;

Goodreads Choice Award, 2011.

 

Haruki Murakami nasceu na cidade de Kyoto no Japão em 1948. Filho de um sacerdote budista e de uma mãe comerciante, passou a sua infância e parte da juventude na cidade de Kobe. Ambos os seus progenitores ensinaram literatura japonesa, facto que terá decididamente influenciado a sua carreira como escritor.

Muito precocemente HM interessou-se pela cultura ocidental, valorizando e apreciando sobretudo a nossa música e literatura, quer europeia como americana. Esta influência é francamente visível na sua obra literária, facto que o torna distinto da maioria dos escritores japoneses por um lado, e por outro, alvo de algumas criticas do meio cultural japonês.

HM estudou literatura e teatro gregos na Universidade de Waseda e o seu primeiro emprego foi numa loja de discos. Ainda antes de terminar os seus estudos abriu um bar de jazz em Tóquio (Peter Cat) que geriu durante sete anos.

Foi um adepto de atividades desportivas, tendo em 1966 completado uma ultramaratona em redor do lago Saroma, nos arredores da cidade de Hokkaido, na distância de 100 quilómetros.

Viveu na Europa e nos USA, tendo regressado ao Japão em 1995 após o terramoto de Kobe e do ataque com gaz sarin no metro de Tóquio perpetrado pela seita Verdade Suprema.

HM é autor de uma vasta obra que inclui o romance e o conto a par da sua atividade como tradutor. Traduziu Scott Fitzgerald, Raymond Carver e John Irving que considera os seus mestres e inspiradores. É considerado uma figura de referência da literatura pós-moderna cuja escrita se cruza com valores e conceitos próximos do surrealismo e da cultura pop. Por várias vezes foi já como potencial laureado Nobel, facto que nunca ocorreu.

Quero hoje @CORdar uma das obras mais notáveis de HM: “Norwegian Wood”, 1987*. É uma obra que abarca e cruza os valores ocidentais com os orientais, retratando algumas caraterísticas daquilo a que se poderá chamar a cultura urbana das grandes metrópoles. “Acabei por ficar para a sessão seguinte. Saí do cinema às quatro da manhã e deambulei sem rumo pelas ruas frias do bairro, mergulhado nos meus pensamentos. …acontecia ser convidado por duas desconhecidas para ir tomar uma bebida às cinco e vinte da madrugada. Perdidas de bêbadas caímos na cama e ferrámos no sono. Nem sequer ouvimos o telefone tocar”. A sua trama, clara e descritiva, mas mergulhando nas profundezas da condição humana com bastante frequência, ocorre em Tóquio nos finais dos anos sessenta do século passado. São suas figuras principais Töru Watanabe, filho único, amante da solidão e estudante universitário de teatro, Naoko e Midori duas mulheres com quem Töru se relaciona a níveis diferentes, numa tentativa de se encontrar a si mesmo naquilo que corresponde a componentes profundas da sua personalidade. Esta busca é paralela e concomitante também a elas e no seu desacerto está algum sentido trágico das suas existências e dramas internos. “Vagueávamos em rumo. Andávamos por andar, como num ritual religioso destinado a mitigar o sofrimento”. Ainda Nagazawa, estudante de direito, dois anos mais velho que Watanabe e seu amigo. Uma espécie de alter ego da sociopatia circulante na narrativa. Este “Às vezes era de uma simpatia tocante, mas podia tornar-se especialmente cruel enquanto o diabo esfrega um olho. Tanto dava mostras de enorme nobreza de caráter como de uma vulgaridade insustentável. Levava tudo e todos para diante, mas o seu coração debatia-se no pântano da solidão profunda. Não me lembro rigorosamente de nada acerca de uma que seja. Não sei o nome delas e não me lembro das caras. É como se dentro de mim existisse uma sede que só pode ser saciada desse modo. O que nos distingue é a arrogância. Há qualquer coisa nele que o impede de amar do fundo do coração.  Não é um homem ao lado do qual se possa encontrar a felicidade. …não almeja encontrar a felicidade e fazer os outros felizes. Tem uma maneira de pensar e viver atípica. Quando estou á conversa com ele, muitas vezes tenho a sensação de andar em círculos. O processo que o faz avançar, leva-me a mim a dar voltas e mais voltas. Ele atinge sempre o que pretende. Guiamo-nos por sistemas diferentes. Isso costuma acontecer a uma pessoa normal. Acredita, há muito disso neste mundo”.

Naoko: Antiga namorada do maior amigo da adolescência de Watanabe que se suicidara, Kizuki. Este “Tinha uma veia sarcástica que muitos-sobretudo os que não o conheciam bem – interpretavam como uma manifestação de arrogância, mas, no fundo era um tipo simpático e justo. …possuía o dom de distinguir instantaneamente o ambiente à sua volta e de se adaptar a ele. …porventura o mais importante, a capacidade de encontrar o discurso dos outros, por muito maçador que fosse”. Naoko era sensível e frágil, apaixona-se por Watanabe sem nunca esquecer o seu primeiro amor, fratura psicológica que nunca irá conseguir resolver e estará na origem do seu internamento e posterior morte. Durante este internamento aparece Reiko, mulher madura de existência trágica, que fica amiga de ambos e trás a esta obra componentes e circunstância da cultura tradicional do Japão, a par de um retrato do país menos desenvolvido, distante, magnífico e alheio às grandes metrópoles nipónicas. “Reiko possuía um sentido de observação muito apurado, e isso bastava para despertar as emoções e tornar o diálogo apaixonante. Em todo o caso, era dotada de um genuíno talento no que tocava a estimular e exacerbar os nossos sentimentos. Por outro lado, tendo perfeita consciência desse dom, utilizava-o habilmente a seu belo prazer. Sabia como jogar com os sentimentos do seu interlocutor, a fim de provocar nele o mais variado rol de emoções: ódio, tristeza, compaixão, desapontamento, alegria. Manipulava os sentimentos alheios sem outra finalidade que a de testar as suas próprias capacidades nesse domínio. Aqueles que considero desequilibrados andam todos a passear lá fora”.

Midori: Estudante de teatro como Watanabe, mulher moderna, dinâmica e lutadora, dona de uma livraria que já ajudara a gerir durante a vida de seu pai. Este “Nunca gozou de grande popularidade, mas comparado com os indivíduos matreiros e sem escrúpulos que por aí andam, é um homem sério. Como eu também não sou do género de dar o braço a torcer, sempre nos travámos de razões”. São os últimos momentos da vida deste, que Watanabe apoia e presencia, que levam este a debruçar-me sobre o sentido da vida e da morte, num processo de angustia questionante e sofredoraA Midori “Intuição é coisa que não me falta. Sou uma pessoa comum. Faço parte do povo. Acaso não serão as pessoas comuns que sustentam a humanidade? Ao contrário de ti não sou capaz de me refugiar dentro da minha carapaça. Aqueles tipos não passavam de impostores. Que ficavam satisfeitos pelo simples facto de usarem palavras caras, pretendendo apenas impressionar as caloiras e tendo por objetivo enfiar a mão debaixo das suas saias. Haja ou não revolução, o povo continuará sempre na corda bamba. O que muda é apenas o nome do partido no governo. Mas aquela gente, que mais não faz do que usar e abusar da verborreia, não tem a noção disso?”.

Como pano de fundo, “Norwegian Wood” retrata a luta e contestação juvenil, estudantil e sobretudo universitária daquela década notável que marcou todo o século XX que, para HM pela voz de Watanabe, se mostrou débil e marcadamente hipócrita por força, talvez, de algum conservadorismo histórico próprio da sociedade japonesa. Existem nesta obra componentes marcadamente autobiográficos de HM, mesmo quando ele afirma que a sua vida e juventude não tiveram o bulício e turbulência que percorrem a existência de Watanabe.

Talvez por força do peso histórico e sociológico desta época, a par da contestação à guerra do Vietnam ali bem próxima do Japão, em “Norwegian Wood”, HM aborda temas que em obras anteriores considerava nunca trataria na sua escrita, como a morte, o sexo e outros temas proibidos como o sentido da vida e a tragédia da existência, o amor, a hipocrisia. Eles surgem agora com força, volúpia e realismo ao longo das páginas desta obra. “Confrontado com aquele cenário, senti-me cada vez mais confuso e sem compreender nada. Qual o sentido de tudo aquilo? O mundo é injusto por natureza. Não tenho culpa. Sempre assim foi e nunca há-de ser diferente. Admito que o medo funcione como premissa. Quero chegar até onde puder e estou disposto a ir até ao limite das minhas forças. Fico com o quero e deito fora o resto.   Uma sociedade injusta, pelo contrário, permite a exploração até ao limite das tuas próprias capacidades. Provavelmente nunca refletira sobre a diferença entre o esforço e o trabalho. …a olhar para o céu, à espera que os frutos caiam. Olha, pensa na vida como sendo uma lata de biscoitos. Deixa as coisas seguirem o seu rumo. Por mais que te esforces, quando chega a altura de uma pessoa se magoar, não há nada a fazer.  …exageras, por tentares que a vida se adapte á tua maneira de viver”.

Sobre a morte: “Tudo o que se prende com a sua morte continua vivo dentro de mim, e algumas dessas sensações tornaram-se ainda mais nítidas do que eram á data. Ali convivia com os mortos. A morte naquele lugar não era o elemento decisivo que punha termo á vida. Ali, a morte não passava de um dos muitos elementos que englobavam a vida. Naoko continuava a viver uma vida com a morte dentro de si. Não te preocupes Töru, é apenas a morte. Não ligues. Assim como eu partilhara com Naoko a morte de Kizuki, eu e a Reiko partilhávamos agora a morte de Naoko. Aquele pensamento deixou-me incapaz de dizer fosse o que fosse. Quando paro para pensar, dou-me conta de que, desde os primórdios da nossa relação, estivemos sempre na fronteira entre a vida e a morte. A morte não é o oposto da vida, mas sim uma parte integrante dela. Esquece de vez aquele funeral sombrio. Lembra-te apenas deste”.

Sobre o amor: “Parece que não me faço entender. Se uma pessoa compreende outra, é porque o momento é propício, e não porque a pessoa deseje ser compreendida. A maioria das pessoas chama a isso o amor. Até que ponto me amas? Até ao ponto de todos os tigres das selvas espalhadas pelo mundo inteiro se dissolverem até ficarem transformados em manteiga”.

O contraste dos anos sessenta com o passado, a história e algum conservadorismo oriental aparecem-nos retratados na figura impar de Facho, ligeira e ocasionalmente gago, colega de quarto de Watanabe no colégio interno só para estudantes rapazes em Tóquio. “O Facho era alto, tinha a cabeça rapada e as maçãs do rosto vincadas. Andava sempre com uma camisa branca, calças pretas e uma camisola de malha azul-marinho. Tinha o ar de ser um estudante de direita, daí que os outros lhe tivessem posto aquela alcunha, mas, em boa verdade, mostrava-se completamente alheio à politica. Vestia-se sempre da mesma maneira por ter preguiça de escolher roupa. Levantava-se às seis da manhã e o hino nacional servia de despertador. O meu colega de quarto era doentio no que dizia respeito à limpeza. Fogo, o tipo até as cortinas lava. O gajo tem um comportamento muito esquisito. Adoro mapas e é por isso que estudo car-car cartografia”.

 

…”costuma acontecer a uma pessoa normal. Acredita, há muito disso neste mundo”. Inteligentes mais na versão da esperteza e sempre a querer subir e rondar o poder. Diz a gíria popular: Eles andam por aí… É verdade e torna-se imperioso detetá-los pelo perigo que representam. Porque não é uma sede, não é um sistema, não é uma qualquer coisa… é uma coisa mais que tudo isso … é a estrutura.

 

*Norwegian Wood: Famosa canção dos Beatles, de quem HM é um intenso admirador. Numa dada fase deste livro, Reiko toca na sua guitarra para Töru 50 canções desta banda. A obra de HM foi levada ao cinema, também com o mesmo título, em 2010 por Tran Anh Hung.

 

Outras obras de HM:

 

A Biblioteca Secreta, 1990;

Flipper, 1973;

Ouve a Canção do Vento, 1973;

O Elefante Evapora-se (dezassete histórias), 1993;

Após o Terramoto, 2002;

Kafka à Beira Mar, 2002;

Após o Anoitecer, 2004;

Mulher Adormecida, 2006;

Sputnik Meu Amor, 2008;

1Q84, trilogia, 2009/2010;

Dez Histórias de Amor Escolhidas, 2013.

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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