LETRAS @CORdadas – Ernest Hemingway (1899-1961

por Miguel Alves | 2017.03.23 - 09:49

 

Ernest Hemingway (1899-1961)

Medalha de Prata Italiana da Bravura, 1918;

Nobel da Literatura de 1954;

Prémio Pulitzer, 1953

Ernest Hemingway nasceu em Ketchum, condado de Blaine no estado norte americano do Idaho a 21 de Julho de 1899. Nesta mesma cidade veio a morrer por suicídio.  Durante toda a sua vida teve uma relação intensa e apaixonada com Espanha, por aí ter levado a cabo a cobertura da guerra civil que devastou o nosso país vizinho de 1936 a 1939 como correspondente de uma agência de notícias americana.  As condições para a explosão desta guerra começaram a ser desenhadas a partir de 1931 com a queda da monarquia espanhola nesse ano. EH chegou a mesmo a tourear como amador, tal era a relação emocional e ideológica com este país. Espanha e os quatro anos que aí viveu, foram para ele uma experiência marcante de toda a sua vida e cuja guerra civil constituiu a fonte inspiradora de uma das suas obras maiores e sobre a qual nos debruçaremos neste texto. “Nunca te sentiste corrompido pelo impulso espanhol? Que gente esta, dizia para consigo. Que povo é o espanhol!”

EH desde jovem sentiu atração por conflitos bélicos facto que o levou muito cedo para a Europa quando a I guerra mundial estava no seu auge. Na Europa tentou alistar-se no exército aliado, não o tendo conseguido por ter problemas de visão. Mesmo assim conseguiu uma vaga de motorista de ambulância na Cruz Vermelha. Nestas funções viria a apaixonar-se por uma enfermeira que seria a heroína de um outro notável romance seu, o “Adeus às Armas”. Ainda nestas funções, viria a ser atingido por uma bomba, circunstância que o fez abandonar a Europa. Recém casado regressaria à Europa em 1921 acompanhado da sua primeira mulher de quem teve um filho. Juntamente com Ezra Pound, Scott Fitzgerald, e Gertrude Stein, fez parte de um núcleo de grandes escritores que em Paris ficou conhecido como a geração perdida.

Viria a casar uma segunda vez e uma terceira agora com uma jornalista, Pauline Pfeiffer de quem teria dois filhos. Na década de 30 viveu em Cuba onde se apaixonaria pela mulher do diretor da Pan American Airways e mais tarde por outra jornalista, Marta Gelhorn, com quem regressaria a Espanha para fazer a cobertura da guerra civil pela North American Newspaper Alliance. Nestas funções, tornou-se um aliado ideológico das forças republicanas contra o fascismo franquista e aí encontrou inspiração para aquela que é considerada a sua obra prima. Quando a Républica Espanhola caiu, EH e Marta regressaram a Cuba, onde desenvolveu atividades de informação e espionagem sobre os fascistas espanhóis em Cuba (recorde-se que os USA nunca reconheceram o regime franquista) e na identificação de submarinos alemães que rondassem a costa cubana. De qualquer forma, os serviços de espionagem americanos nunca tiveram absoluta confiança no seu trabalho.

Em 1946 casa pela quarta vez com Mary Welsh, confirmando o que S. Fitzgerald um dia lhe dissera: “você precisa de uma mulher para cada livro”.

Suicidou-se em Ketchum aos 61 anos de idade, tal como seu pai já havia feito, depois de sua mãe (déspota e dominadora) lhe mandar pelo correio a arma com que pai dela havia posto termo a vida. EH não viria a utilizá-la, por ter ficado atónito e sem saber se a mãe queria que repetisse o ato de seu pai ou apenas guardasse a arma como sua memória. Suicidou-se com uma arma de caça.

Quero hoje @CORdar aquela que é considerada a obra prima de EH que acima referi: “Por Quem os Sinos Dobram”, 1940. Em termos históricos, situa-se nos anos 30 do século passado, mais concretamente durante a guerra civil de Espanha que decorreu entre 1936 e 1939. EH viaja para Espanha para levar a cabo uma série de reportagens sobre a resistência do governo legítimo de Espanha, apoiado pelas brigadas internacionais, contra os revoltosos fascistas de Francisco Franco. Três anos mais tarde, escreve “Por Quem os Sinos Dobram”, obra que relata e acompanha a ação de uma unidade guerrilheira nas montanhas em redor de Segóvia. O seu herói e personagem principal é Robert Jordan, um jovem americano membro das brigadas internacionais, ele próprio oriundo de uma família com tradições e prestígio militares no seu país (“ …lês e estudas a arte da guerra desde a infância, desde que teu avô te começou a contar a guerra civil americana. A guerra da Rebelião, como ele dizia. O teu avô combateu quatro anos na nossa guerra civil e tu estás apenas a terminar o teu primeiro ano. Lembras-te do gabinete de trabalho do velho… Lembras-te de um arco grande num canto da sala… Procura lembrar-te de qualquer coisa assim. Lembra-te da Smith & Swesson do teu avô. Era a pistola regulamentar de calibre .32, e não tinha guarda mato. As caixas das balas estavam cuidadosamente embrulhadas e arrumadas. E depois o teu pai suicidou-se com essa pistola. Mas sei que o teu pai a estimava muito, porque o pai dele a usou durante a guerra toda”. A sua missão será fazer explodir uma ponte que permita um ataque maciço e simultâneo a Segóvia e impeça a chegada do apoio das tropas franquistas. Para a construção desta obra, EH faz uso da sua experiência pessoal já que ele foi um apoiante e participante voluntário no apoio aos republicanos contra Franco. Os nacionalistas eram apoiados por Hitler e Mussolini e os republicanos pelas brigadas internacionais e pela União Soviética. Teses há que defendem ter sido a guerra civil de Espanha uma espécie de ensaio geral para a II guerra mundial que iria eclodir quase na sua sequência.

“Por Quem os Sinos Dobram” é um hino ao amor, à coragem (“Tu não és esperta. Tu és corajosa. Tu és leal. Muita decisão e muito coração”), à lealdade ao sacrifício, sofrimento e privação, mesclados e vividos no retrato do caráter mais genuíno de Espanha e dos espanhóis: apaixonados e violentos (sanguíneos) na vitória como na derrota. “E que povo admirável o espanhol! Não há melhor nem pior no mundo. Um povo sem moderação, sem meios termos.  Um povo que é amor e sangue, dor e paixão. Na verdade, o espanhol só é fiel á sua aldeia. Os insultos tinham atingido a extrema solenidade espanhola, em que os actos não se exprimem, mas se subentendem. Não existe língua mais imunda que a espanhola; tem palavras e uma imensidão de expressões intraduzíveis correspondentes a todas as obscenidades. Teria havido um povo em que os dirigentes fossem tão inimigos do seu povo como aconteceu em Espanha?”

“Por Quem os Sinos Dobram” é também um hino, espantoso e inesperado, à condição humana, mesmo que imbuído de rara violência, a começar pelo seu título que remete para um poema de John Donne (Meditações, 1764) em que este atesta o absurdo das guerras e conflitos entre irmãos de qualquer natureza. Em diversas fases da obra de EH é patente o choque e estranheza sentidos pelos inimigos, uns perante os outros, quase se amando mutuamente e admitindo poderem estar nas posições uns dos outros. Escreveu John Donne: “… a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano, e por isso não me perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”, …republicanos ou nacionalistas no caso.

Disse Pilar: tens um vago amor por toda a gente. Os fascistas parecem bem aquecidos. Estão no quente, mas amanhã vamos matá-los. Estive a observá-los durante todo o dia. São homens como nós. Lamentava-os a todos como seres humanos. Dizia-o sempre e era das poucas ideias autenticas que lhe restavam. …se era necessário matar Don Guilherme, era preciso fazê-lo com rapidez e dignidade. …se é necessário matá-los a todos, que os matem com decência e sem esta palhaçada! …um padre espanhol deve saber morrer. Porque morreu muito mal. Com muito pouca dignidade. Depois da guerra deve haver uma penitência. …organizar uma penitência que nos limpe a alma. Mas a mim ninguém me tira que o matar é um grande pecado. Nos que gostam de matar há sempre qualquer coisa de podre”.

Este hino á condição humana, supra político-ideológica, vagueia ao longo desta obra quando se torna visível que em certas circunstâncias da guerra, nenhuma das partes tinha qualquer informação sobre o seu desenrolar, as manobras e atividades do seu inimigo. Lutava-se por um ideal quase desconhecido, não para atingir o fim duma missão superior e coletiva, mas apenas para desempenhar bem, com paixão e violência o seu papel. Que poderia ser outro (“Isso era como tudo se realizaria se não houvesse traição e cada um cumprisse o seu dever. Com o olhar altivo e firme, sabia como as coisas poderiam ter sido e como seriam; orgulhando-se do que poderiam ter sido, confiando no que elas poderiam ser, mesmo que nunca viesse a acontecer).

Não falta nesta obra a particularidade de EH, com a sua visão acutilante e externa de Espanha, nos mostrar algumas das caraterísticas de certas regiões deste país: “… as gentes das Astúrias que são muito desenvolvidas politicamente.  Os valencianos não têm maneiras e não fui capaz de os entender. Tudo o que fazem é gritar che uns para os outros. Os galegos ou são muito inteligentes, ou são muito estúpidos e brutos. Em Madrid sente-se que tudo corre bem e há a certeza de vencer. Os cobardes fugiram de Madrid. E Barcelona? Continua a mesma ópera cómica. Primeiramente foi o paraíso dos doidos e dos revolucionários românticos. Agora é o paraíso de soldados de brincadeira. Heróis que adoram usar uniformes, pavonear-se, fazer bravatas e trazer o lenço vermelho e preto no pescoço. Que admiram tudo quanto está ligado á guerra, menos tomar parte na luta. Valência enoja. Barcelona faz rir. Valência é a terra do melão. O melão de Castela é para os olhos. O melão de Valência é para a boca.”

No que ao seu autor diz respeito, o sentido de “Por Quem os Sinos Dobram” é, no contexto das suas marcas autobiográficas, (“E que será de ti, ou melhor, qual será a tua situação quando deixares o serviço da Républica? …penso que te libertarás de todas estas recordações lançando-as no papel. Tens um belo livro a escrever. Espero ter feito algum bem por aqui. Procurei fazê-lo com toda a inteligência que possuía. Tudo o que tenho. Tudo o que possuo. Sim, foi uma vida tão boa como a do teu avô, se bem que seja mais curta.), um, entre outros, exemplo do sentido trágico da vida e do destino a que se é incapaz de resistir mesmo quando a sua evidência é anunciada. “Pensa nos companheiros em marcha. Pensa em Montana. Não posso. Pensa em Madrid. Não posso. Pensa num copo de água fria. Ótimo, é assim que será. Como um copo de água fria. És um mentiroso. Será igual a nada. Nada, nada. Então suicida-te. Suicida-te. Hay que tomar la muerte como si fuera aspirina”). EH viveu a sua vida sempre próximo dessa evidência e que viria, afinal, a confirmar-se quando lhe pôs tragicamente termo. Nesta obra como noutras, são nítidas algumas proximidades do seu pensamento às teses existencialistas. Para outros também, são detetadas na sua escrita subliminares tendências homofóbicas.

A escrita de EH tem também uma linguagem marcadamente cinematográfica: cortes de cena, declarações curtas e de sentido largo, abrangente e intenso que concorrem para o sentido geral da história a construir. Em1943, “Por Quem os Sinos Dobram” foi levado a filme pelas brilhantes e saudosas figuras da história do cinema que foram Ingrid Bergman e Gary Cooper.

 

Outras obras de EH:

Torrentes da Primavera, 1925;

O Sol Também se Levanta, 1926;

O Adeus ás Armas, 1929;

Morte á Tarde, 1932;

As Verdes Colinas de África, 1935;

Na Outra Margem Entre as Árvores, 1950;

O Velho e o Mar, 1952;

Paris é uma Festa, 1964;

O Verão Perigoso, 1960;

Ilhas na Corrente, 1970;

O Jardim do Éden, 1986.

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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