LETRAS @CORdadas – Boris Pasternak

por Miguel Alves | 2018.03.23 - 10:30

 

Boris Pasternak (1890 – 1960)

Nobel da Literatura em 1958

 

Boris Leonidovitch Pasternak foi um poeta e romancista russo nascido em Peredelkino, Moscovo. Nascido numa família abastada de origem judaica e ucraniana, era filho de um professor de pintura e de uma pianista. Esta era filha de um industrial ucraniano, Isadore Kaufaman, natural de Odessa. Na altura do seu nascimento, o pai já tinha relações muito próximas com Leon Tolstói, ilustrou o seu romance “Ressurreição” e algumas das suas publicações. Era, por isso, uma das figuras de proa do chamado Movimento Tolstoiano, uma espécie de corrente, em simultâneo, literária, sociológica e política.  BP estudou filosofia na Alemanha, regressando á Rússia em 1914. Durante a guerra trabalhou numa fábrica da industria química nos Urais, experiência que foi a fonte de inspiração para a sua obra maior: Doutor Jivago, levada ao cinema nessa realização memorável de David Lean e desempenhos espantosos de Julie Christie, Geraldine Chaplin e Omar Sharif. Autores há a defender que esta ultima personagem tem componentes autobiográficas, constituindo uma espécie de alter ego do seu autor.

BP foi alvo de perseguições políticas vindas do regime soviético desde os anos 30 do século passado e acusado de subjetivismo na sua obra literária. Por essas razões, esta sua obra maior não teve grande aceitação e divulgação no seu país. Esta perseguição política teve o seu auge aquando da atribuição que lhe foi feita do prémio Nobel da Literatura em 1958, galardão que não lhe foi permitido receber por parte das autoridades soviéticas. Este facto desencadeou uma forte reação internacional e constituiu uma fonte de enorme descrédito do regime. Em plena erupção da guerra fria, a CIA rápido se apercebeu da oportunidade de que dispunha para atacar o regime soviético: fez publicar secretamente o livro em russo, editá-lo em França, apresentá-lo e distribuí-lo, imagine-se, no pavilhão do Vaticano na Feira Mundial de Bruxelas em 1958.

Trinta anos depois, o filho de BP, Yevgeny Borissovitch Pasternak foi autorizado a deslocar-se a Estocolmo para receber em nome de seu pai a Medalha e Prémio Nobel da Literatura. Na cerimónia, um outro enorme vulto da cultura e música russas, Mstislav Rostropovich, tocou Bach em memória e honra de BP no seu sublime e “divino” violoncelo.

Apesar desta feroz censura, BP nunca foi perseguido a ponto de ser enviado para um Goulag, sistema de prisão, violência e perseguição políticas utilizado pelo regime para o silenciamento dos seus inimigos. Mas a obra de BP é considerada o embrião daquela que viria a ser a caraterística mais importante do legado político, social e literário que, mais tarde, Alexander Solzhenityin nos deixou.

Quero hoje @CORdar uma das obras literárias mais celebradas de BP: “Salvo Conduto”, 1931. É uma obra de uma escrita quase encantatória que seduz por ela mesma, mesmo quando o desenrolar da narrativa não nos oferece um percurso sequencial e de memórias e, por isso, não obedecendo à lógica esperada de uma matriz temporal.

Tendo também caraterísticas autobiográficas, são nela evidentes o seu apaixonado amor á musica assim como referências a artistas russos seus contemporâneos e com quem com BP tinha relações muito estreitas, na continuação daquilo que já acontecera com seu pai. Sergei Rachmaninoff, Maxim Shostakovich, Rimsk Korsacof, Alexander Scriabine, Lev Chestov, Rainer Rilke e outros, são disso exemplo. “A música era o que eu mais amava no mundo e a nenhuma outra musica amava mais que à de Scriabine. …desta simplicidade, a que devemos sempre aspirar, as suas novas sonatas, depreciadas pelas suas vertiginosas dificuldades”. A profusão de nomes importantes da história e cultura russas ao longo da narrativa, muitos deles pouco conhecidos da maioria das pessoas, acaba por ser irrelevante na medida em que o que sobressai da sua passagem pela obra não são eles próprios, antes a influência e impacto que têm na consciência do autor e no seu caminho introspetivo.

Este amor à musica está expresso no percurso de um jovem estudante que se realiza por entre viagens e encontros, amigos, desilusões e traições. Tudo isto acontece numa linguagem profundamente reflexiva sobre alguns dos grandes problemas do homem e da humanidade e onde a linha temporal dos acontecimentos e o papel dos seus atores se dilui, esbate e relativiza perante esse percurso interior do autor, cuja lógica de desenvolvimento é a da sua própria memória. É, por isso, um livro de leitura exigente onde deve valorizar-se o conteúdo restrito da escrita e das ideias que transmite e não o seu enquadramento numa qualquer lógica narrativa. ”Porque se deixaram então a maior parte dos homens embaraçar na mediania quase insuportável? Porque á personalidade preferiram a impersonalidade, assustados pelos sacrifícios que a revolução exigia desde a infância. Admitia que a impersonalidade era mais complexa que a personalidade, que a volubilidade se mostra tanto mais oportuna quanto mais vazia, e que, quando corrompidos pela nulidade dos lugares comuns, descobrimos-lhe pela primeira e vez e é efetivamente uma riqueza de fundo inaudita. …representamos os homens para sobre eles transpor a natureza, representamos a natureza para sobre ela transpormos a nossa paixão. A intensidade da minha vida interior repelia-a para as profundezas. Só nas sugestões desta paz interior se apoiava o meu carater inteiro. Aprendi que muito pouca coisa é precisa para provocar a cólera do génio. Era ali que patinhavam as nuvens sufocando-me. Era ali que se beliscava o frívolo rosto de uma miseranda existência e as burguesias bem instaladas no gargalo do tempo. Era ali que se devoravam peixes e se atirava vitriolo à cara dos rivais. Era ali também que se trocavam maliciosamente em surdina os sorrisos postiços de uma vida decadente. Era ali também que nas centenas de anfiteatros expirava e rabujava a Universidade, em parte afogada em condecorações. Não havia ninguém particularmente brilhante. Era quanto bastava para, sem aguardar qualquer auxílio do exterior, dirigentes e dirigidos se unirem num esforço comum para sair do ponto morto a que a vida tendia a amarrá-los. Apenas a força tem necessidade de uma linguagem de corpos de delito. Os outros aspetos da consciência têm a vida longa, sem pontos de referência. Cada solavanco vital representa uma passagem para uma nova fé”.

Uma de outras áreas que o livro aborda é a degradação do regime soviético, o seu definhamento intelectual e a consequente e irreversível desilusão que leva ao suicídio de uma das suas mais importantes personagens. Com ele, BP faz subentender aquilo que aconteceu a um dos seus grandes amigos, e que foi um dos maiores poetas do o século XX e da cultura russa: Vladimir Maiakovsky, que suicidou em 1930 por estas razões. “Era de uma amabilidade mordaz e escondia com muita astúcia e excitação. Fosse o que fosse que se passava nele, estava a transpor uma curva interior. A sua predestinação abria-se-lhe por diante. Posava ostensivamente, mas com uma angustia e uma febre tais que sobre essa pose viam-se gotas de suor frio. Era provavelmente a consequência de uma solidão fatal, voluntariamente cultivada, que segue a via da fatalidade consciente. … aquele homem era, em suma, o mais raro cidadão daquela cidadania. Era ele quem trazia nas veias a grande novidade dos tempos. Fora desde criança estragado pelo futuro que se lhe oferecera cedo demais e sem esforço da sua parte”.

São também frequentes nesta obra referências à história europeia do século XIX e XX que é curioso e instrutivo assinalar: “Berlim afigurou-se-me uma cidade de adolescentes a quem tivessem acabado de oferecer sabres e capacetes, bengalas e cachimbos, verdadeiras bicicletas e redingotes, como a pessoas grandes. Julgava surpreendê-los aquando da primeira saída. Era a época da ocupação do Ruhr. A Alemanha tinha fome e frio, sem ilusões, sem tentar enganar fosse quem fosse estendendo a mão, de vez em quando, como para apanhar uma esmola (gesto que não lhe é nada familiar), e toda a gente, sem exceção, amparada em moletas. A paisagem que fizera pensar na Guerra dos Trinta Anos, acaba por atrair a guerra de 1914. A maneira como as nações se transformam é verdadeiramente notável. Será possível compreender-se como pôde a guilhotina andar algum tempo nos broches das senhoras? O velho pietismo prussiano contemplava o mundo. Isabel da Hungria, a futura santa, tinha como conselheiro espiritual um tirano, isto é, um homem sem imaginação. Prático, clarividente, percebia que os suplícios que impunha à sua penitente a precipitavam em êxtase. Em russo, a palavra mentir significa mais contar histórias que propriamente enganar”.

Autores há a pensar que a humanidade durante o século XX se emancipou da ideia de Deus. Que no século XXI processo semelhante poderá ocorrer com a verdade, face à imensidão e escala de “todas” as verdades. Diz BP:     “Enquanto ele (o homem) diz a verdade o mundo ultrapassa-o. A verdade, a verdade do homem, fica então atrasada, engana”. Neste evoluir concetual tem um papel decisivo a ciência (para além de Donald Trump, mas aí o conceito é outro), cujas capacidades, consequências e verdades poderemos não conseguir acompanhar dada a natureza plástica e de moldagem lenta da condição humana.

Outras Obras de BP:

Gémeo nas Nuvens, 1914:

Sobre as Barreiras, 1916;

Minha Irmã Vida, 1922;

Nascer de Novo, 1932:

Infância, 1941;

No Interlúdio: Poemas, 1945;

Poemas selecionados, 1946;

Poemas, 1945, 1960, 1962;

Doutor Jivago, 1957;

Quando o Tempo Melhorar, 1959.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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