António Muñoz Molina nasceu em 1956
Prémio Ícaro, 1986;
Prémio Nacional da Narrativa, 1988 e 1992;
Membro da Ordem das Artes e das Letras de França,1988;
Prémio Femina, 1998;
Prix Mediterranée Étranger, 2012;
Prémio Jerusalém, 2013;
Prémio Príncipe das Astúrias, 2013.
António Muñoz Molina nasceu em Úbeda, Jaén (Espanha) em 1956. Estudou nas Escolas Profissionais da Sagrada Família durante a Infância e fez o bacharelato no Colégio Salesiano Domingos Sávio. Estudou depois Jornalismo em Madrid e História da Arte em Granada. Foi funcionário público e nesse período começou a escrever como colunista no diário “Ideal”. O seu primeiro livro foi a compilação de todos esses artigos, cuja edição saiu com o título de “O Robinson Urbano”, 1984.
É membro da Real Academia Espanhola, desde 1996, tendo sido o seu mais jovem membro. Dirigiu o Instituto Cervantes entre 2004 e 2006.
Quero hoje @CORdar uma obra muito conhecida de AMM: ”Nada do Outro Mundo”, 1993. É um livro constituído por quatorze contos e sobre o qual o próprio AMM firmou: “Em histórias, não sei porquê, sou mais gracioso e mais propenso ao fantástico e sempre contemporâneo e realista. Muito estranho”.
Nesta obra, AMM desenvolve com uma fina ironia parte da vida de dois jovens universitários dos anos setenta. São contos fantásticos e algo misteriosos, onde é possível vislumbrar elementos comuns como o terror (“No porão daquele vapor onde passei dois meses escondido entre tapetes, as ratazanas acordavam-me roendo-me as orelhas…”), o amor (“Mas em Marino, o amor também apagava os pormenores”) e a morte (“…como as mulheres que andavam sozinhas até de madrugada e eram levadas em estado de coma para o hospital onde ninguém as iria identificar. Perguntou o que fariam com ela se quando morresse ninguém a tivesse identificado. Iria para a vala comum, embora talvez o seu corpo fosse útil para as aulas práticas da universidade”), eivados de uma autocrítica por vezes feroz e um humor incisivo (“…compreendi que era detestável e que Márquez a amava para lá da razão e do ridículo, inclusivamente do escarnecimento. Foi preciso vê-la na manhã seguinte para reconhecer em si mesmo a dose justa e letal de infelicidade, a sensação de não ser jovem e de ter perdido alguma coisa, uma felicidade ou plenitude que desconhecia totalmente, uma notícia fugaz sobre um país aonde nunca iria”).
Neles, também o fantástico se mistura com a realidade quotidiana fazendo dela algo mais surpreendente, por vezes insólita e até improvável (“Mas não é impossível que em determinadas ocasiões a nostalgia seja mais poderosa que o desejo, mais poderosa e certamente mais prejudicial”). A sua narrativa escorreita, atraente e insinuante, prende-nos sucessivamente ás suas páginas de forma quase obsessiva e dependente (“Com incredulidade, sem assombro, percebi tudo: também a sabedoria e a vingança. Não me lembro de quanto tempo passou. Houve um momento que os meus olhos ficaram húmidos de desconsolo e de felicidade e vi as coisas como que através de um vidro escarchado).
Pode dizer-se que a sua caraterística maior se encontra no facto de cada conto ter em si uma mensagem/reflexão, muitas vezes com um fundo político (“…era preciso compreender os rapazes, disse ele, punham todo o seu entusiasmo, mas faltavam-lhe os meios, era o eterno problema. Para uns tanto e outros tão pouco!”), que nos remete para lá dos tradicionais contos fantásticos, cuja fantasia e irrealidade tem o efeito surpreendente de nos forçar a uma explicação para lá das dimensões correntes em que vivemos (“…encontrar muitas semelhanças entre a maternidade e a literatura. Escrever um livro não será como dar à luz? Mas a ordem mais inflexível é a dos dicionários, e o mistério mais próximo e difícil é o da etimologia de cada palavras).
Na manhã do dia 15 fui invadido por uma sensação de quase pavor ao acordar. Tudo parecia de outro mundo: o céu completamente bloqueado á minha frente pelo fumo, cujo cheiro havia entrado em casa mesmo com ela totalmente fechada. O sol, apesar da sua potência estrelar, não consegui romper a espessa muralha que nos cerca. Mal sabia o que me esperava: todo país ardia a norte do Tejo e a sensação de asfixia parecia querer invadir-me. Que poderes ocultos deste/doutro nosso mundo nos castigam com tamanha virulência?
Na véspera, fui dormir estarrecido com uma das últimas notícias que ouvi: um milionário americano poderá doar dez milhões de dólares a quem fornecer informações á justiça que possam levar ao impeachment de Donald Trump, o presidente da nação mais poderosa do planeta. A América saberá porquê. Nós também. Governar exige responsabilidade e sabedoria. Como pode negar-se o efetivo aquecimento global, como o dia de hoje o prova à saciedade, e o facto de os tufões já começarem a passar á nossa porta? São muitas, muitas coisas de um “outro mundo” que parece aproximar-se.
Outras obras de AMM:
Novela e Romance
O Inverno em Lisboa, 1987;
Belteneros, 1989;
Os Mistérios de Madrid, 1992;
Ardor Guerreiro, 1995;
O Vento da Lua, 2006;
A Noite dos Tempos, 2009.
Ensaio
A Verdade da Ficção, 1992;
O Atrevimento do Olhar, 2012.