LETRAS @CORdadas – António Muñoz Molina

por Miguel Alves | 2017.10.23 - 12:46

 

António Muñoz Molina nasceu em 1956

Prémio Ícaro, 1986;

Prémio Nacional da Narrativa, 1988 e 1992;

Membro da Ordem das Artes e das Letras de França,1988;

Prémio Femina, 1998;

Prix Mediterranée Étranger, 2012;

Prémio Jerusalém, 2013;

Prémio Príncipe das Astúrias, 2013.

 

 

António Muñoz Molina nasceu em Úbeda, Jaén (Espanha) em 1956. Estudou nas Escolas Profissionais da Sagrada Família durante a Infância e fez o bacharelato no Colégio Salesiano Domingos Sávio. Estudou depois Jornalismo em Madrid e História da Arte em Granada. Foi funcionário público e nesse período começou a escrever como colunista no diário “Ideal”. O seu primeiro livro foi a compilação de todos esses artigos, cuja edição saiu com o título de “O Robinson Urbano”, 1984.

É membro da Real Academia Espanhola, desde 1996, tendo sido o seu mais jovem membro. Dirigiu o Instituto Cervantes entre 2004 e 2006.

Quero hoje @CORdar uma obra muito conhecida de AMM: ”Nada do Outro Mundo”, 1993. É um livro constituído por quatorze contos e sobre o qual o próprio AMM firmou: “Em histórias, não sei porquê, sou mais gracioso e mais propenso ao fantástico e sempre contemporâneo e realista. Muito estranho”.

Nesta obra, AMM desenvolve com uma fina ironia parte da vida de dois jovens universitários dos anos setenta. São contos fantásticos e algo misteriosos, onde é possível vislumbrar elementos comuns como o terror (“No porão daquele vapor onde passei dois meses escondido entre tapetes, as ratazanas acordavam-me roendo-me as orelhas…”), o amor (“Mas em Marino, o amor também apagava os pormenores”) e a morte (“…como as mulheres que andavam sozinhas até de madrugada e eram levadas em estado de coma para o hospital onde ninguém as iria identificar. Perguntou o que fariam com ela se quando morresse ninguém a tivesse identificado. Iria para a vala comum, embora talvez o seu corpo fosse útil para as aulas práticas da universidade”), eivados de uma autocrítica por vezes feroz e um humor incisivo (“…compreendi que era detestável e que Márquez a amava para lá da razão e do ridículo, inclusivamente do escarnecimento. Foi preciso vê-la na manhã seguinte para reconhecer em si mesmo a dose justa e letal de infelicidade, a sensação de não ser jovem e de ter perdido alguma coisa, uma felicidade ou plenitude que desconhecia totalmente, uma notícia fugaz sobre um país aonde nunca iria).

Neles, também o fantástico se mistura com a realidade quotidiana fazendo dela algo mais surpreendente, por vezes insólita e até improvável (“Mas não é impossível que em determinadas ocasiões a nostalgia seja mais poderosa que o desejo, mais poderosa e certamente mais prejudicial”). A sua narrativa escorreita, atraente e insinuante, prende-nos sucessivamente ás suas páginas de forma quase obsessiva e dependente (“Com incredulidade, sem assombro, percebi tudo: também a sabedoria e a vingança. Não me lembro de quanto tempo passou. Houve um momento que os meus olhos ficaram húmidos de desconsolo e de felicidade e vi as coisas como que através de um vidro escarchado).

Pode dizer-se que a sua caraterística maior se encontra no facto de cada conto ter em si uma mensagem/reflexão, muitas vezes com um fundo político (“…era preciso compreender os rapazes, disse ele, punham todo o seu entusiasmo, mas faltavam-lhe os meios, era o eterno problema. Para uns tanto e outros tão pouco!”), que nos remete para lá dos tradicionais contos fantásticos, cuja fantasia e irrealidade tem o efeito surpreendente de nos forçar a uma explicação para lá das dimensões correntes em que vivemos (“…encontrar muitas semelhanças entre a maternidade e a literatura. Escrever um livro não será como dar à luz? Mas a ordem mais inflexível é a dos dicionários, e o mistério mais próximo e difícil é o da etimologia de cada palavras).

Na manhã do dia 15 fui invadido por uma sensação de quase pavor ao acordar. Tudo parecia de outro mundo: o céu completamente bloqueado á minha frente pelo fumo, cujo cheiro havia entrado em casa mesmo com ela totalmente fechada. O sol, apesar da sua potência estrelar, não consegui romper a espessa muralha que nos cerca. Mal sabia o que me esperava: todo país ardia a norte do Tejo e a sensação de asfixia parecia querer invadir-me. Que poderes ocultos deste/doutro nosso mundo nos castigam com tamanha virulência?

Na véspera, fui dormir estarrecido com uma das últimas notícias que ouvi: um milionário americano poderá doar dez milhões de dólares a quem fornecer informações á justiça que possam levar ao impeachment de Donald Trump, o presidente da nação mais poderosa do planeta. A América saberá porquê. Nós também. Governar exige responsabilidade e sabedoria. Como pode negar-se o efetivo aquecimento global, como o dia de hoje o prova à saciedade, e o facto de os tufões já começarem a passar á nossa porta? São muitas, muitas coisas de um “outro mundo” que parece aproximar-se.

 

Outras obras de AMM:

Novela e Romance

O Inverno em Lisboa, 1987;

Belteneros, 1989;

Os Mistérios de Madrid, 1992;

Ardor Guerreiro, 1995;

O Vento da Lua, 2006;

A Noite dos Tempos, 2009.

Ensaio

A Verdade da Ficção, 1992;

O Atrevimento do Olhar, 2012.

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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