LETRAS @CORdadas – Alexandre O’Neill

por Miguel Alves | 2018.01.02 - 15:05

 

Alexandre O´NEILL (1924 – 1986)

Prémio da Associação de Críticos Literários, 1982;

Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant´Tiago de Espada a título póstumo, 1990.

 

Alexandre Manuel Vahia de Castro O N`Neill de Bulhões nasceu em Lisboa. Foi um importante poeta do surrealismo português. Descendente de irlandeses na burguesia lisboeta, era neto paterno da escritora Maria O`Neill que era sobrinha bisneta do 1º Visconde de Santa Mónica e sobrinha neta do 1º Barão de Sabroso. Autodidata, nunca foi um escritor profissional. Por não conseguir viver apenas da sua obra escrita, trabalhou como escriturário na Caixa de Previdência dos Profissionais do Comércio, em publicidade e foi redator da revista Almanaque entre 1959 e 1961, onde prontificaram José Cardoso Pires, Luís Sttau Monteiro, Augusto Abelaira e João Abel Manta.

Em AON devemos considerar o seu envolvimento na criação do movimento surrealista, a sua vida literária, a sua intervenção e ideias políticas e a sua vida pessoal e profissional.

AON apenas com dezassete publica os primeiros versos num jornal de Amarante: A Flor do Tâmega. Também quando aluno do colégio Valsassina, foi vencedor de alguns prémios literários que aí ocorreram. Foi, porém, no processo da criação do movimento surrealista de Lisboa em 1948 que AON publicou o seu primeiro livro: “A Ampola Miraculosa”. Este movimento foi criado por ele, Mário Cesariny, José Augusto França, Cruzeiro Seixas, Mário Henrique Leiria, António Domingues e outros. Em 1949 tiveram lugar as primeiras manifestações do movimento surrealista em Portugal com a Exposição do Grupo Surrealista de Lisboa onde expuseram AON, António Dacosta, José Augusto França, Fernando de Azevedo, João Moniz Pereira, António Pedro e Marcelino Vespeira. O movimento teve a sua primeira afirmação política de relevo em 1948, ao retirar a sua colaboração na III Exposição Geral de Artes Plásticas, por recusar a censura prévia do regime através da comissão organizadora que quis impor critérios prévios sobre as obras a expor.

Entre 1950 e 1951 ocorreram uma série de ataques pessoais e confrontos artístico ideológicos entre alguns membros do grupo fundador do movimento e que levou á saída de Mário Cesariny a que se juntou António Maria Lisboa e Pedro Oom que criaram o Movimento Surrealista Dissidente. Pouco tempo depois, os dois grupos extinguem-se e o movimento surrealista continuou a manifestar-se apenas a nível solitário e individual.

Foi em 1958 que AON publicou a sua obra mais celebrada como poeta: ”No Reino da Dinamarca”. Toda a década que se seguiu foi de grande labor produtivo ao nível da poesia, antologias e traduções. Os seus textos são, quase na generalidade, uma intensa sátira e um irónico sarcasmo ao modo de ser do país e dos portugueses, destruindo mistificações como o proletariado heróico por oposição à vida pequena e mesquinha do português comum, contrapondo-lhe a constatação do absurdo da vida e o humor como única forma de reação saudável. “Respondo de perfil, a quem de frente me imagina”.

Porém, os temas universais da condição humana não lhe são alheios: a solidão, o amor, o sonho, o tempo, o medo e a morte. Quase sempre através de figurações simbólicas, onde não falta uma nuance discretamente sentimental e algum desespero pelo marasmo do país, expresso na paródia que cria à volta de discursos oficiais e publicitários que reproduzem a medíocre organização social e os lugares comuns do discurso público.

O que é, afinal, o surrealismo? É um movimento literário e artístico surgido em França em 1920 e desenvolvido entre as duas guerras mundiais. Esteve na origem do que viria a ser o movimento modernista. Fortemente influenciado por Freud e a sua teoria psicanalítica que focaliza o inconsciente como instância decisiva no processo criativo, a sua ambição era destruir a corrente racionalista que, segundo o movimento, destruía a arte. André Breton (1896-1966) foi a sua figura de proa e seu líder incontestado. Terá sido em 1917 que Guillaume Apollinaire (1886-1918), vindo da tendência cubista, terá utilizado pela primeira vez o termo e definido o seu conceito. A sua primeira expressão pública surge com o Manifesto Surrealista (1924) com nomes sonantes da cultura europeia como Breton na literatura, Buñel no cinema, Max Ernst, René Magritte e Salvador Dalí nas artes plásticas. O estilo surrealista carateriza-se pela mistura do representativo com o real, o abstrato e o irreal, na expressão e libertação de pulsões do inconsciente. Esta síntese surreal pretende libertar a arte das lógicas racionais, da razão aparente e da consciência alienada do quotidiano. Rejeita a chamada ditadura da razão e dos valores burgueses clássicos: pátria, família, religião, trabalho e outros. A arte deve ser a sua subversão. Breton escreveu no Manifesto Surrealista acreditar na possibilidade de reduzir a uma realidade absoluta (surrealité), dois estados contraditórios: o sonho e a realidade, numa espécie de ampliação da consciência (a análise psicanalítica ambiciona isso mesmo: a trazida dos processos inconscientes ao campo da consciência através da revinculação às figuras primitivas da relação com a realidade, ampliando assim essa mesma realidade).

Mais do que um movimento artístico, o surrealismo é uma forma de encarar a vida, a realidade e o mundo. Tenta superar o conflito entre a objetividade e a subjetividade que angustía todo o ser humano na procura do sentido da vida, do tempo e do temor da morte.

AON foi sinalizado por razões políticas. O seu primeiro contacto com a polícia política ocorreu com a recusa desta em lhe conceder o passaporte para poder ir a Paris encontrar-se com Nora Mitrani (membro destacada do Movimento Surrealista francês) de quem se apaixonara aquando da sua vinda a Portugal para fazer uma conferência. Mais tarde, viria a estar vinte e um dias preso na Cadeia de Caxias por ter ido esperar Maria Lamas no seu regresso do Congresso Mundial da Paz em Viena. A partir desta data, passou a ser vigiado de perto pela Pide. Nunca teve nenhuma filiação partidária, e na fase final da sua vida distanciou-se de todos os grupos e tertúlias, permanecendo cioso do seu individualismo e irónico da realidade circundante. Reconheceu ele próprio ter sido um homem desregrado. Em 1976, sofreu um primeiro ataque cardíaco e em 1986, após um acidente vascular cerebral e prolongado internamento, viria a morrer ainda relativamente novo. A Biblioteca Alexandre O´Neill em Constança, por decisão e oferta do autor, é depositária de todo o seu espólio.

Quero hoje @CORdar uma compilação de escritos deste importante autor da cultura portuguesa, que o sintetiza na sua complexidade como homem, escritor e poeta. Trata-se de uma edição comemorativa dos dezasseis anos do semanário Independente levada a cabo em 2004: “Coração Acordeão”.

“Não, o amor não tem asas

se tem asas são as mãos

que se enlaçam para a festa

maravilhosa do corpo

e entre elas o coração

coração acordeão”.

 “Nosso povo, quando você se engana, quando você acerta, gosta de o fazer por conta própria, não tolera que olhem por cima do seu ombro e lhe guiem a mão. Por uma vez nosso povo não deixe que lhe falem assim os que julgam que encabeçam o seu destino”.

“Que esperamos agora nesta praça? Hoje chegam os bárbaros. Porque está inativo o Senado e, imóveis, os pais da Pátria não legislam? É que hoje chegam os bárbaros. Que leis iam votar os Senadores? Quando chegarem os bárbaros serão eles a ditar a lei. E porque esvazia a multidão ruas e praças? É que a noite caiu e os bárbaros não chegaram. Pessoas vindas das fronteiras garantem que já não há bárbaros. E agora que será de nós sem os bárbaros? Essa gente, apesar de tudo sempre era uma solução” (para alguns!).

“À porta da loja de brinquedos, o Pai Natal já não podia com frio. Um senhor teve pena dele e pagou-lhe um copo num bar vizinho. Todos os lugares comuns deviam ser santos de Natal(AON nasceu a 19 de Dezembro de 1924).

 

Outras obras de AON

A Ampola Miraculosa, 1948;

Tempo de Fantasmas, 1951;

No Reino da Dinamarca, 1958;

Abandono Vigiado, 1960;

Poemas com Endereço, 1962;

Entra a Cortina e a Vidraça, 1972;

Dezanove Poemas, 1983;

 

 

(Foto DR)

 

 

 

 

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

Pub