Letras @COR dadas – Yuval Noah Harari

por Miguel Alves | 2018.12.31 - 16:22

 

Yuval Noah Harari, nascido em 1976

Propositadamente, deixei para o final de 2018, duas crónicas sobre dois livros cujos conteúdos irão ocupara a humanidade, muito provavelmente, durante várias décadas. O primeiro, “O Choque das Civilizações e a mudança na Ordem Mundial”, na sua componente política sobretudo da paz e da guerra; o segundo, “Homo Deus”, de que nos ocuparemos nesta crónica, nas componentes da humanidade e da condição humana, sobretudo na projeção do seu futuro suportado nas suas vertentes científicas e económicas, sendo certo que também a paz e a guerra sempre tiveram nestas a sua sustentação.

Yuval Noah Harari nasceu em Qiryat Atta, Haifa, Israel a 24 de fevereiro de 1976. Especializou-se em história medieval e militar na Universidade Hebraica de Jerusalém, tendo-se doutorado posteriormente no Jesus College de Oxford em 2002. Fez de seguida um pós-doutoramento em História entre 2003 e 2005. É atualmente professor titular do departamento de História da mesma universidade.

YH nasceu numa família secular de Haifa com origens libanesas e da Europa Oriental, sobretudo da Polónia onde alguns dos seus familiares ficaram aquando da emigração de seu avô para Jerusalém, e que foram chacinados pelos nazis. É adepto da meditação Ypassana desde os tempos em que estudou em Oxford e que pratica no início e no fim de todos os dias de trabalho durante duas horas. Faz ainda um retiro de 30 dias todos os anos onde impera o silêncio, a ausência total de livros e todo o tipo de meios de comunicação. Ypassana é uma técnica de meditação budista das mais antigas da Índia onde é ensinada há mais de 250 anos. Significa o insight, profundo e desprendido, na natureza das coisas e na realidade. É considerada como uma arte de viver através da contemplação, introspeção, observação de sensações e observação analítica. Pode ter duas modalidades de prática: a concentração/tranquilidade e a concentração/investigação. YH afirma ser esta esta prática, a sua paz e as perceções que incute, a principal fonte de energia para as obras que recentemente publicou.

YH desde muito cedo foi avesso aos patriotismos e nacionalismos do seu país: “Aos 13 anos já sabia que o universo tinha uns quantos milhões de anos. Poderia eu esperar que Israel durasse tanto tempo? Se o leitor é palestiniano, não se sinta superior. É igualmente improvável que haja algum palestiniano daqui a duzentos milhões de anos”.

YH tornou-se um ícone da literatura universal com a publicação de três livros quase consecutivos e que fizeram dele “an intelectual rock star”: O primeiro (“Sapiens-Uma Breve História da Humanidade”, 2011), saiu na sequência de estudos anteriores que fizera sobre a revolução cognitiva que o homo sapiens levou a cabo sobre os neandertais seus rivais na evolução humana. O segundo (“Homo Deus, História Breve do Amanhã”, 2015) sobre a revolução tecnológica em curso e as suas previsíveis e assustadoras consequências futuras na evolução humana e de que hoje escreveremos. O terceiro, editado este ano (“Vinte e uma Lições para o século XXI“, 2018), com base e na sequência do anterior. A venda mundial dos dois primeiros aproxima-se dos 15 milhões de exemplares.

O impacto deste historiador/filósofo/pensador na história contemporânea faz dele o guru supremo do nosso zeitgeist. De uma escrita clara, e primorosamente traduzida, avassaladoramente fundamentada e argumentada, lê-se compulsivamente “como um thriller” social e antropológico, irresistível na sua exemplar narrativa, onde enfrenta com convicção e confiança as grandes, atuais e mais dramáticas questões da humanidade no nosso tempo.

Quero hoje @CORdar a segunda deste conjunto de três obras de YH: “Homo Deus, História Breve do Amanhã” 2015, das Edições Elsinore. Foi este que já li, tendo a meio a leitura do “Sapiens” e a que, a seu tempo, se seguirá o terceiro.

Homo Deus” é uma obra de que podem extrair-se várias teses, umas mais discutíveis que outras e todas com as caraterísticas que acima assinalei: avassaladoramente documentadas e argumentadas, convictas, confiantes e seguras no desenrolar da narrativa, mesmo quando o próprio autor põe em causa, com enorme honestidade intelectual, os seus fundamentos (“são possibilidades e não profecias”). As que se seguem são algumas das possíveis tentativas de alguma síntese, que se me depararam relevantes, mas são, forçosamente, subjetivas e singulares.

Tese 1: A imortalidade está cada vez mais acessível ao Sapiens.

Segundo YH, “A transformação dos seres humanos em deuses pode seguir qualquer um destes três caminhos: manipulação biológica, manipulação cibernética ou a manipulação de seres não orgânicos”.

Começa a desenvolver esta matéria assinalando muitos dos ganhos científicos atuais e, sobretudo, aqueles que são previsíveis no futuro. Não deixa, porém, de salientar as contra-argumentações de prematuridade desta tese e a que não serão alheias as suas origens e educação, nomeadamente que a ciência não acrescentou tempo nenhum à duração normal da vida, apenas evita mortes prematuras. Por outro lado, uma grande parte da atividade humana nos diversos domínios, artísticos, políticos e religiosos, são alimentados pelo receio e medo da morte, a par de ser a morte a solução de muitos problemas da humanidade. YH sinaliza também algumas da implicações familiares e profissionais da “loucura que seria desafiar a eternidade”, tal como as consequências para a humanidade se, por exemplo, Estaline vivesse duzentos anos, tal com Mao Tsé-Tung e até Vladimir Putin, quiçá Trump.

“A abordagem da cultura e da ciência modernas não vêm a morte como um mistério metafísico e muito menos a fonte de onde jorra o sentido da vida. Veem-na como um problema técnico que pode e deve ser resolvido. Os seres humanos morrem devido a uma falha técnica. E para cada problema técnico, há também uma solução técnica. …tradicionalmente era uma coutada de padres e teólogos. Neste momento, os engenheiros assumiram o controle. … em nenhum momento os médicos e os cientistas irão parar e dizer: “aqui chegados não avançamos mais”. O direito à vida não é limitado por um prazo de validade…uma minoria cada vez maior de cientistas e filósofos têm vindo a falar de forma mais aberta que o principal objetivo da ciência moderna é derrotar a morte. Ray Kurzweil, vencedor do Prémio Nacional de Tecnologia e Inovação dos USA, criou uma empresa subsidiária da Google, de que havia sido nomeado diretor de engenharia, cuja missão estatutária é “resolver o problema da morte”. Bill Maris, presidente do fundo de investimentos Google Ventures, disse: “se me perguntarem hoje se é possível viver 500 anos, eu direi que sim. “Não queremos avançar alguns metros, queremos ganhar o jogo”. Cada tentativa falhada para vencer a morte aproximar-nos-á do objetivo. Se à nossa crença no caráter sagrado da vida humana juntarmos as dinâmicas do meio científico e acrescentarmos as necessidades da economia capitalista, uma guerra implacável contra a morte surge como inevitável. O nosso compromisso ideológico para com a vida humana nunca nos permitirá a mera aceitação da morte”.

Tese 2: As religiões poderão não fazer sentido, já que a morte é o seu suporte estrutural.

A humanidade no seu conjunto e sob diversas formas, pensa que possuímos uma qualidade mágica que demonstra o nosso poder e justifica a nossa superioridade sobre todas as espécies vivas. Especificamente, para as religiões essa qualidade é a alma imortal, também numa miríade de versões, e que não existirá em mais nenhum ser vivo. “A crença de que os humanos têm almas eternas é um pilar fundamental do nosso sistema legal, político e económico. …descobertas cientificas mais recentes contradizem inequivocamente este mito monoteísta. …até agora não encontraram nenhuma centelha mágica. Não há qualquer prova cientifica de que os Sapiens tenham alma. …a ideia da alma contraria os mais elementares princípios da teoria da evolução. Esta contradição é a causa do ódio desenfreado que os monoteístas fanáticos nutrem pela teoria da evolução. O seu suporte são os textos sagrados onde, supostamente, se encontram todas as respostas para os problemas da humanidade. A Bíblia vende uma versão monoteísta da história e tem pouco interesse pelas questões da sociologia, da ecologia e da economia. Ao contrário, as religiões animistas e politeístas têm da história uma perceção mais exata ao atribuírem aos acontecimentos um conjunto variado e diverso de causas. A Bíblia mantém-se como fonte de autoridade, embora tenha deixado de ser há muito uma fonte de inspiração”. E aqui coloca-se a questão do Islão radical que pretende ser a resposta para os dilemas da humanidade (“o Islão é a resposta”). Não, não é, diz YH: ”O Islão radical pode prometer uma ancora de certeza num mundo de tempestades tecnológicas, mas, para se poder atravessar uma tempestade, um mapa e um leme fazem mais falta que uma ancora. O Islão ainda não se reconciliou com a revolução industrial”.

Tese 3: A ciência/inteligência continuarão a descolar progressivamente da consciência.

As religiões têm uma estreita ligação com a consciência, através de sensações e emoções a que correspondem experiências subjetivas. A ciência, ao contrário, é fria, exata, metodicamente dirigida para objetivos palpáveis, não refutáveis e sistematicamente passiveis de confirmação. Foi através dos passos da ciência que o homem foi tentando ao longo da historia explicar-se a si próprio, ao mesmo tempo que, com base nela evoluiu. A máquina a vapor serviu para explicar muito do funcionamento humano. Até Freud dela se serviu para explicar parte da sua teoria da sexualidade: energia acumulada sobre pressão, que depois os exércitos também utilizaram para aumentar a agressividade e capacidade de luta dos combatentes. Mas, em nenhum período da história como aqueles que se avizinham, a ciência se afastou da natureza profunda da condição humana a ponto de poder suplantá-la, quiçá até destruí-la como muitos já alvitram. A grande fratura neste caminho situa-se na sua descolagem da consciência.

A consciência é algo muito diferente da alma. A consciência nasce de reações eletroquímicas no cérebro que tem mais de 80 mil milhões de neurónios ligados entre si por intrincadas teias. A influência de um domínio sobre outro processa-se de tal forma intrincada que nem as maiores inteligências conseguem vislumbrar o impacto que as inovações na área da inteligência artificial terão sobre a nanotecnologia e vice-versa. As emoções são algoritmos bioquímicos essenciais para a existência. Algoritmo é o conceito mais importante do mundo cuja origem é simultânea com a invenção da escrita e que pode ser definido como um conjunto metódico de passos que pode ser usado para fazer cálculos, solucionar problemas e tomar decisões. Hospitais, escolas, exércitos, empresas, barragens, estradas, funcionam com base em algoritmos mediados por entidades ficcionais e símbolos abstratos. O homem é um algoritmo gigantesco que produz cópias de si mesmo. A consciência é um fluxo de experiências: sensações, emoções e pensamentos. O fluxo da consciência é a realidade concreta que em cada momento testemunhamos diretamente. Para a ciência, sensações e emoções são algoritmos bioquímicos de processamento de dados. Tudo o que sentimos resulta da atividade elétrica do cérebro, logo será possível identificar todo um mundo virtual que seria impossível distinguir no mundo real. Porém, para entender-se a consciência tem que conhecer-se a mente e o seu suporte orgânico neuronal e cerebral. E aqui situa-se o drama maior da ciência: o que é acontece na mente que não aconteça no cérebro? Se houver algo acontecer para lá de rede neuronal onde é que isso acontece? Haverá algum algoritmo equivalente a uma experiência subjetiva? Até agora não. Todos os sistemas de processamento de dados, não necessitam de experiências subjetivas para funcionar. A consciência tem um enorme valor moral e político, mas não desempenha nenhuma função biológica. É um derivado biologicamente inútil. A consciência poderá ser uma espécie de poluição mental produzida por atividades complexas neuronais, tal como o dióxido de carbono que expelimos para respirar. É a melhor teoria da consciência que a ciência pode oferecer”.

Para YH a conclusão é assustadora: “dado que só existe um mundo real enquanto o número de potenciais mundos virtuais é infinito, a probabilidade de o leitor habitar um único mundo virtual é quase nula. Ninguém sabe onde ficam os travões. …se conseguirmos travar a nossa economia e a nossa sociedade, a economia não irá encontrar um ponto de equilíbrio, ficará reduzida a cacos. Se o crescimento alguma vez parar ambas cairão por terra”.

Tese 4: Os fundamentos da democracia estão em risco.

Homo Deus” tem um racional estruturante, embora na sequência de o “Sapiens”: o período recoletor da humanidade, a revolução agrícola, a procura de sentido para a vida e o mundo, que culmina na revolução humanista e a sua queda, que ele considera em curso, com a sua substituição pelo que classifica como o Dataísmo. Inicialmente, o sentido para a vida situava-se num plano e em entidades de caráter superior e cósmico. Com o humanismo, passam a ser as experiências humanas que dão sentido á vida e explicam a realidade e o mundo. Tal como as grandes religiões, o humanismo à medida que se foi propagando e evoluindo, fragmentou-se. YH considera três tipos de humanismo  para os séculos XIX e XX: o liberal em que cada individuo é único e irrepetível: na política, economia, na arte e no livre arbítrio e que evoluiu para os nacionalismos modernos, liberais  ou não; o humanismo socialista que incluiu os regimes socialistas e comunistas nas suas diversas nuances, onde as preocupações individuais deixaram de ser dominantes e essenciais para se centrarem nos interesses e experiências coletivas e nas e consequências no coletivo da ação individual; o humanismo evolutivo que foi expresso na sua forma mais grotesca e criminosa no regime nazi. Este suportava os seus princípios na teoria da evolução: alguns seres humanos são mais capazes que outros e, quando surgem conflitos entre eles, os mais capazes devem aniquilar os menos capazes. No século XX, segundo YH, o humanismo liberal viu-se a braços com ataques quase mortais por parte do humanismo socialista e do humanismo evolutivo, ataques que venceu apenas graças ás armas nucleares com a doutrina MDA (destruição mútua garantida). O relativo vazio ideológico que se seguiu está a ser preenchido pelas “tecno-religiões que matam uns deuses e criam outros novos”.

YH lança um aviso assustador e temível que abre caminho para o “Homo Deus”: “Auschwitz devia servir de sinal de alerta marcado a sangue e não uma cortina negra que oculta seções inteiras do horizonte da humanidade: o humanismo evolutivo desempenhou um papel importante na definição da cultura moderna e é provável que venha a desempenhar um papel ainda mais importante na definição do século XXI”.

YH faz a justiça histórica que lhe parece evidente a Marx e Lenine que, ao contrario do humanismo evolutivo e do Islão radical, deram atenção com grande perspicácia e inteligência ás realidades económicas e tecnológicas do seu tempo a par das experiências humanas que arrastavam consigo (“Quando perguntaram a Lenine o que era o comunismo, ele respondeu: “comunismo é o poder dos sovietes e a eletrificação do país”).

O século XXI será o século dos cérebros e da mente que, ao tenta manter e desenvolver o sonho humanista da humanidade lhe vai minar os alicerces com “tecnologias pós humanistas”. “Não é só a ideia filosófica de que não existe liberdade individual que ameaça o liberalismo, mas também tecnologias muito concretas que não se baseiam no principio do livre arbítrio dos seres humanos. Estamos no limiar de uma revolução crucial. Os humanos estão em risco de perder o seu valor económico, porque a inteligência está a separar-se da consciência. É muito revelador que os exércitos e as grandes empresas não tenham dúvidas quanto á resposta: a inteligência é obrigatória, mas a consciência é facultativa. Será que as elites e os governos continuarão a dar o mesmo valor a cada indivíduo quando estes já não representarem uma mais valia económica? Será que a democracia, o mercado livre e os direitos humanos irão sobreviver a esta avalanche? Num registo mais sombrio, nas próximas eleições presidenciais americanas, o Facebook poderá conhecer não apenas as opiniões políticas de milhões de americanos, mas igualmente quais destes representam os decisivos votos oscilantes e as probabilidades de oscilação destes eleitores. O liberalismo irá ruir no dia em que o sistema me conhecer melhor do que eu me conheço a mim mesmo. Os costumes liberais como as eleições democráticas tornar-se-ão obsoletos”. Sabemos o que veio a acontecer nos USA; se as possibilidades deste livro, não profecias como o autor faz questão de salientar, se realizarem como aconteceu com esta, a coisa deixa de ser séria para ser assustadora. Na sua sequência não faltou quem já sinalizasse um próximo sequestro da democracia vindo da ciência/inteligência e executado na consciência e na liberdade individuais.

Tese 5: As atuais desigualdades sociais poderão caminhar para duas humanidades: os melhorados e os inúteis.

O liberalismo humanista tornou-se uma ideologia dominante por razões filosóficas e até morais, mas também e quem sabe, sobretudo, por razões e vantagens político-económicas. O ser humano único e individual, era também um número para os exércitos imperiais alargarem os seus domínios, como o foram em termos de produção maciça e intensiva após a revolução industrial e até aos finais do século XX, como continuam ainda a ser um número em termos do consumo maciço nos tempos atuais. YH chama a atenção para a curiosidade histórica de a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão coincidir com o recrutamento obrigatório pós-Revolução Francesa para esta fazer face aos antirrevolucionários internos e às monarquias europeias empenhadas na sua queda. Paralelamente, o direito ao voto das mulheres nos USA surgiu em 1918 na sequência do seu importante papel durante a I guerra mundial e dos serviços decisivos por elas prestados “Não poderia ter sido travada quer pelas outras nações envolvidas quer pela América se não fossem os serviços prestados pelas mulheres. Perderemos a sua confiança e não seremos dignos dela se não lhe concedermos o máximo de direitos possíveis”, afirmou o presidente W. Wilson no senado americano.

No século XXI, esta realidade poderá ser alterada muito substancialmente. Diz YH: “…a maioria de homens e mulheres poderá vir a perder a sua valia económica e militar. Os exércitos mais sofisticados do século XXI apoiam-se em tecnologias de ponta. São apenas necessários pequenos grupos de soldados altamente preparados. …super guerreiros das forças de segurança e alguns peritos a usar tecnologia sofisticada. …vírus informáticos estão a substituir os exércitos massivos e cada vez mais os generais confiam em algoritmos para as decisões cruciais. …as ciberguerras podem durar apenas alguns minutos”. A conclusão poderá ser simples: “será que as elites e os governos continuarão a dar o mesmo valor cada individuo quando estes já não representarem uma mais valia económica? Os seres humanos estão em risco de perder o seu valor económico porque a inteligência se está a separar da consciência”.

Alguns cientistas e economistas preveem já que, com mais ou menos tempo, os humanos não aperfeiçoados serão completamente inúteis. Não faltam já emergências dessa, oxalá não, “fatalidade”. As ondas migratórias gigantescas que começam a assolar diversas partes do mundo, nomeadamente a Europa, são seres humanos que fogem não só à fome e á guerra, mas também à inutilidade humana e social.

Tese 6: O Sapiens poderá ser substituído e ultrapassado pela inteligência artificial criando um ser diferente dele ou destruindo-o.

A civilização Sapiens adquiriu ao longo de séculos a convicção de que é detentora de capacidades e competências fora do alcance de todos os outros seres vivos e até da tecnologia e da ciência. A realidade atual desconfirma progressivamente esta quimera. Se os seres humanos forem apenas algoritmos desenvolvidos pela evolução, nada impede de pensar que não haja algoritmos inorgânicos capazes de executar tudo aquilo que estes são capazes de fazer e até ultrapassá-los nessas capacidades. A ciência e o conhecimento carregam um dramático paradoxo: todo o conhecimento altera os comportamentos para que não ser inútil. Mas, ao alterá-los perde relevância. Quanto mais conhecemos, mais alteramos a nossa vida e mais o saber perde validade. Para, em consequência, exigir novos avanços da ciência.

Nesta matéria, YH apresenta um conjunto de exemplos reais na área da inteligência artificial que é fulcral entender. Dada a sua extensão, vamos apenas sinalizá-los como sendo de leitura obrigatória:

O sistema de IA Watson da IBM: páginas 351/2; a farmácia controlada por um único robot em S. Francisco: 353; o Deep Blue da IBM, o Deep Blue e Alpha Go da Google relativos a jogos clássicos e xadrez: páginas 357/8; na área dos serviços financeiros e dos transportes e na área musical: 359 a 363; a braçadeira inteligente, a Microsoft Band que, na aplicação “Deadline” prevê o resto de anos que uma pessoa poderá viver em função dos seus hábitos: pagina 369; os testes de ADN da “23andME”: página 375; a aplicação de navegação Waze: página 381; o assistente pessoal Cartana da Microsoft: páginas 381/2 e 3.

Os reflexos da tecnologia e da IA no emprego poderá ser devastador. O século XXI poderá vir a confrontar-se com uma massa enorme de não trabalhadores, seres humanos sem valia económica, política ou outra. Carl Benedikt Frey e Michael Osborne, investigadores da universidade de Oxford, concluíram em 2013 que 47% dos empregos da sociedade americana estão em risco de desaparecer. Segundo eles, a questão fundamental não é a criação de novos empregos, antes a criação de empregos em que a capacidade dos humanos seja superior á dos algoritmos. Se tal vier a acontecer, será um golpe fatal no liberalismo humanista e no caráter sagrado da vida e condição humana. A última ameaça ao liberalismo humanista será o facto de que a humanidade necessitará sempre dos “indispensáveis e indecifráveis, que serão uma elite reduzida e privilegiada de humanos aperfeiçoados. O último prego no caixão da liberdade é-nos dado pela teoria da evolução. Tal como a evolução não se coaduna com a existência de uma alma, também não pode absorver a ideia do livre arbítrio. Os seres humanos deixarão de ser entidades autónomas. No século XXI, é mais provável que os seres humanos se desintegrem suavemente a partir do interior do que serem brutalmente esmagados por um big brother exterior”. Até lá poderão ser apenas partes integrantes de uma imensa rede global”.

Há profecias assustadoras: peritos e filósofos como Nick Bostrom afirmam que “é pouco provável que a humanidade venha a sofrer uma tal decadência pelo simples facto de que, a partir do momento em que a inteligência artificial suplante a inteligência humana, é bem possível que extermine a humanidade”.

YH dedica a parte final do seu livro à tecno religião emergente: o Dataísmo: “o dataísmo é o primeiro movimento a criar um valor verdadeiramente novo desde 1789: a liberdade de informação. Haverá alguma coisa no universo insuscetível de ser reduzida a dados?” Como cientista, YH termina o seu livro com três duvidas metódicas, também sintoma da sua honestidade intelectual: “Será que os organismos são apenas algoritmos e a vida não é mais do que processamento de dados? O que tem mais valor: a inteligência ou a consciência? O que acontecerá à sociedade, à política e à vida quotidiana quando os algoritmos não conscientes, mas de inteligência superior, nos conhecerem melhor do que nós próprios?

Concluímos e concordamos com ele e com as suas dúvidas também presentes: “É forçosa uma nova agenda para a Humanidade”.

Outras obras de YH:

Sapiens, Uma breve história da humanidade, 2011;

Vinte e uma Lições para o século XXI, 2018.

Artigos e estudos:

O Papel Militar dos Turcofoles Francos.

 Operações Especiais na Era da Cavalaria.

Estratégia e Abastecimento nas Campanhas de Invasão da Europa Oriental no século XIV.

Ilusões Marciais: Guerra e desilusão nas memórias militares do século XX e Renascença.

O Conceito de Batalhas Decisivas.

Conhecimento, Poder e o Soldado Medieval.

Fluxo de Combate: Dimensões militares, políticas éticas do Bem-Estar subjetivo na guerra.

A última experiência: Revelações do campo de batalha e a cultura das guerras modernas.

 

 

 

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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