LETRAS @COR dadas – Kierkegaard

por Miguel Alves | 2017.09.24 - 08:47

 

(Sören Aabye Kierkegaard – 1813-1855)

Sören Aabye Kierkegaard nasceu em Copenhaga, Dinamarca, no seio de uma família abastada. Seu pai era um homem culto e dotado de uma grande inteligência. Sua mãe havia servido na casa de família daquele que viria a ser o seu marido. Tiveram sete filhos, tendo morrido cinco e sobrevivido Soren e Peter Kierkegaard. Este, sete anos mais velho, viria a ser bispo da cidade de Aalborg.

SK frequentou a Escola de Virtude Cívica onde estudou latim, filosofia e história. Mais tarde, estudou teologia na Universidade de Copenhaga, onde também direcionou os seus estudos para a filosofia e a literatura. Casou com Regine Olsen, com quem teve uma relação de grande paixão e sintonia mútuas. Viria mais tarde a romper essa relação, da qual restam as suas memórias escritas e onde é visível o grande poder da atração existente entre ambos. Quando Regine se voltou a casar, esse facto afetou profundamente SK e tal circunstância é visível na sua obra posterior. Em “A Repetição”, 1843, uma obra sobre a natureza da fé, o amor e a experiência religiosa, SK insinua que através de um ato divino, Regine possa vir a voltar para si.

SK foi filósofo, poeta, teólogo, autor religioso e crítico social. Escreveu ainda sobre ética, psicologia, moral e religião. Alguns dos seus escritos, são considerados como fazendo parte dos fundamentos da psicologia existencial. Dotado de uma ironia fina, amante da metáfora e propenso a parábolas no desenrolar da escrita, centrou a sua criação na realidade humana concreta sobreposta ao pensamento abstrato, muito individualizada e focada sobretudo no compromisso pessoal. Em termos teológicos, SK situa-se na área da ética cristã, no papel da Igreja como Instituição e, sobretudo, na prática do cristianismo como religião do Estado e da qual nos legou um elevado sentido crítico (“…a dogmática ortodoxa e a ortodoxia em geral sempre rejeitaram como panteísta qualquer definição do pecado que o reduza a uma simples negação, fraqueza, sensualidade, finitude, ignorância. A ortodoxia viu muito bem que é neste campo que tem de travar-se o combate, que é preciso dar o nó na linha; ela compreendeu que, a definir o pecado como uma negação, a posição cristã é insustentável. É por isso que ela tanto insiste sobra a necessidade da Revelação. Paradoxo, fé e dogma fazem entre si uma aliança que é o mais seguro sustentáculo e defesa contra toda a sabedoria pagã. O Deus incarnado, se o homem, sem cerimónia, devesse ser seu camarada, seria um “pendant” ao príncipe Henrique de Shakespeare” – Henrique IV. Esta diferença infinita de natureza entre Deus e o homem, eis o escândalo cuja possibilidade nada pode afastar. Os homens ensinam-nos afalar, mas os deuses a calarmo-nos”).

A primeira grande obra literária de SK é considerada a sua tese universitária: “O Conceito de Ironia”, 1841, em que ele confronta o pensamento de Sócrates (“Pecar é ignorar. Tal é, como se sabe, a definição socrática de pecado. O defeito da definição socrática está em deixar vago o sentido mais preciso dessa ignorância, a sua origem”). “Isso ou Aquilo”, 1843, é considerada a sua obra prima. Nela confronta o pensamento de Hegel e foi escrita durante a sua estadia em Berlim (“Apenas a verdade que é construída é verdade para ti”).

SK escreveu sob diversos pseudónimos fazendo deles como que autores diferentes e com os quais entrava em diálogo e interação, num produto final de alguma complexidade e dificultada leitura. Victor Eremita foi o pseudónimo que utilizou na escrita de “Isso ou Aquilo”.

A herança literária de SK ficou durante largos anos circunscrita aos países escandinavos e só nos anos vinte do século passado os seus escritos foram traduzidos para francês, alemão e outras línguas. Passaram então a ser património da filosofia e cultura ocidental onde exerceram uma grande influência na abordagem de questões filosófico-teológicas essenciais.

Há ainda autores que consideram SK como um dos suportes do fundamentalismo religioso. Ernest Gellner (1925/1995), filósofo, antropólogo, politólogo, judeu de origem checa nascido em França e naturalizado inglês e muito próximo do pensamento de Max Weber, afirma que SK está associado à ideia de que a religião é, na essência, não a persuasão da verdade de uma doutrina, antes a crença, a dedicação e a prática, relativa a verdades inerentemente absurdas. Segundo Gellner, e referindo-se a SK, o homem identifica-se quando acredita em algo que agrida profundamente a natureza humana, circunstância que exige uma mobilização interna de grande escala. O homem para existir, terá que acreditar em algo cuja fé seja de difícil realização, estabelecendo assim uma ligação estreita e profunda entre a fé e a identidade (Gellner, E., 1992, Pós-modernismo, Razão e Religião). Um crítico e contemporâneo de SK, Carl Koch, afirmou que o seu drama mais profundo foi “a sua seriedade radical e escrupulosa”.

Quero hoje @CORdar uma das obras essenciais de SK: “O Desespero Humano”, 1849, uma edição de 1936 da Livraria Tavares Martins do Porto e com prefácio de Adolfo Casais Monteiro. É uma obra de leitura um pouco difícil, mas carregada de conteúdos bem atuais. Os três primeiros capítulos tratam, no primeiro, o desespero como doença mortal (”O homem é espírito. Mas o que é o espírito? É o eu. O homem é uma síntese e uma síntese é uma relação de infinito e finito, de temporal e de eterno, de liberdade e de necessidade. O desespero está, portanto, em nós; mas se não fossemos uma síntese, não poderíamos desesperar”), entendido este conceito não como causador de morte, antes como constituinte de todo o percurso existencial (“doença mortal no sentido restricto, quer dizer um mal que termina pela morte, sem que após subsista qualquer coisa. E isso é o desespero”).

No segundo aborda o desespero na sua universalidade (“O homem traz em estado lactente uma enfermidade de presença eterna, uma exigência do seu destino: ser um espírito. …o desespero é precisamente a inconsciência em que os homens estão do seu destino espiritual. A sua aparição mostra a sua preexistência. …o desespero é uma categoria do espírito suspensa na eternidade e um pouco da eternidade entra na sua dialéctica”.

No terceiro desenvolve as diversas personificações do desespero. “Podem distinguir-se abstractamente as diversas personificações do desespero perscrutando os diversos factores desta síntese que é o eu. O eu é formado de finito e de infinito. O eu é liberdade. Mas a liberdade é a dialética das duas categorias, do possível e do necessário.   …necessário considerar o desespero principalmente sob a categoria da consciência: consciente ou não.  …não se conclui, porém que o individuo habitado pelo desespero e que, portanto, devemos designar como desesperado, tenha consciência de o ser. Deste modo a consciência, é factor decisivo. Quanto mais consciência houver, mais eu haverá; pois que, quanto mais ela cresce, mais cresce a vontade e haverá tanto mais eu quanto maior for a vontade. Quanto maior for a vontade, maior será a consciência de si próprio. A intensidade do desespero aumenta com a consciência”.

Os dois últimos capítulos abordam temas especificamente religiosos em torno da fé cristã e da relação com Deus (“…loucura pensar que a fé e o bom senso nos podem nascer tão naturalmente como os dentes, a barba e o resto. Pecamos, quando perante Deus ou com a ideia de Deus, desesperados, não querermos ser nós próprios. O pecado é deste modo fraqueza ou desafio elevados à suprema potência; é, portanto, a condensação do desespero”).

Vivemos hoje tempos de desespero que tornam muito do pensamento de SK atual. As suas ideias remetem-nos para outros paradigmas como sejam o da política, da sociologia, da psicologia e da psicanálise, da fé e da religião e, ela está em tudo, da economia.

Da política pela falta de algumas respostas cruciais que não vêm da democracia, como por exemplo, o avassalador e crescente abismo das desigualdades sociais. Dos fenómenos sociológicos criados pelas periferias das grandes metrópoles (desemprego, marginalidade, crime e violência). Da emigração/fuga maciças de milhares de seres humanos e do desenraizamento, ausência de perspetivas de vida e de futuro resultantes. Da falta de respostas para o sentido da vida e da identidade. Da ausência de vínculos afetivos e emocionais que nos amarrem a valores imateriais e intemporais. Fica assim criado o setting ideal para o desespero violento e global (fundamentalismos e radicalismos na versão hodierna) e que, talvez, só a religião e a fé podem colmatar, ao vincular a fé à identidade e ao sentido da vida, como assinala E. Gellner.

A resultante é o desespero de quem busca o sentido da vida e da sua identidade e as vítimas a montante e jusante dessa procura, a par da perplexidade e angustia (um passo para o desespero) das restantes comunidades. E agora?

Outras obra de SK:

Ou Isso ou Aquilo. 1843;

Repetição, 1843;

Temor e Tremor, 1843;

Migalhas Filosóficas, 1844;

O Conceito de Angustia, 1844;

Estádios no Caminho da Vida, 1845;

As Obras do Amor; 1847;

Pequenos Ensaios de Ética Religiosa, 1848;

O Livro de Adler, 1850;

Prática do Cristianismo, 1851:

Ataque à Cristandade,1853.

 

Psicólogo clínico. Mestre em Políticas e Gestão de RH pelo ISCTE em 1995. Membro da Associação Portuguesa de Psicologia, Sociedade Portuguesa de Grupo-análise, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Rorschach e métodos projetivos e membro da Sociedade Internacional de Rorschach. Docente no ISCE de 1999 a 2007. Aposentado. Ex Dirigente da DGRSP nas funções de Diretor dos Estabelecimentos Prisionais de Viseu, S. Pedro do Sul e Lamego. Foi Diretor do Estabelecimento Prisional de Sintra e Adjunto do Diretor do Estabelecimento Prisional de Lisboa.

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