Leonel Gouveia, “tolinho” ou só insensato?

por PN | 2019.08.19 - 11:52

Na sua rubrica “Portal do Dia”, Luís Osório escreveu acerca da criação do Museu Salazar, em Santa Comba Dão, projecto acarinhado pelo autarca socialista local, Leonel Gouveia, apelidado pelo cronista de “o tolinho do autarca”.

Se António de Oliveira Salazar foi governante autocrata e omnipoderoso de Portugal durante quase quatro décadas, ninguém deve ignorar a sua longa passagem pela vida do país, de 1932 a 1968, sem contar com os anos da passagem pela pasta das Finanças, sob pena de agir como, por exemplo, José Estaline, que apagava ou reescrevia a História a seu bel-prazer.

Todavia, esse museu, a ser criado, e pensamos que o será de forma encomiástica toando loas ao bafiento fascismo e a uma figura assaz controversa e sombria, deverá também transmitir a outra perspectiva do ditador Salazar. A sua “faceta negra”.

Por mais que tentemos ver os factos à luz do circunstancialismo histórico, à luz dos momentos ou períodos em que a História ocorre e decorre, entender o seu “sei muito bem o que quero e para onde vou”, proferido na tomada de posse como ministro das Finanças, a muitos ouvidos soado como prenúncio do “milagre económico”, fazer esse tributo ao rosto e imagem de 40 anos de uma ditadura a que o 25 de Abril pôs cobro, deveria conter também a outra componente da política colonialista, do proteccionismo de alguns (Tenreiros, Kaúlzas, et all) em detrimento da maioria dos portugueses, da exploração, do servilismo, da fome que levou milhões a emigrar, da censura, da política do atavismo rácico que nos situou celebremente na “cauda da Europa” democrática, da famigerada PIDE (Polícia de Intervenção e Defesa do estado), das perseguições e detenções políticas, da tortura, do exílio e degredo, dos assassinatos cometidos pelos seus elementos e, sem ir mais longe lembrar o do seu opositor e a Américo Tomás, em 1958/59, o general Humberto Delgado, abatido a tiro mais a sua secretária, Arajaryr Campos, em Olivença, a 13 de Fevereiro de 1965, pelo agente Casimiro Monteiro a mando do inspector para o efeito delegado, Rosa Casaco. E etc., etc., etc…

Se Leonel Gouveia conseguir transmitir a imagem de António Salazar assim pluralmente prismada, no negativo e no positivo, ainda se adrega, de alguma forma, a perceber o fundamento deste saudosista intento, senão, quase nos sentimos no direito de partilhar da ideia de Luís Osório quando a ele se refere como ao “tolinho do autarca” socialista.

Paulo Neto