Lembra-se da Alzirinha?

por Diego Garcia | 2019.02.14 - 10:38

“A Alzirinha era a pessoa mais doce do mundo. O seu sorriso era de tal forma contagiante que era impossível ficar indiferente a tão genuína alegria. Sua gentileza era tal que nunca fora capaz de nos repreender severamente fosse o que fosse que fizéssemos e acreditem, nós éramos terríveis!

E apesar de o sermos, a Alzirinha arranjava sempre uma maneira de nos fazer sentir bem, de dar a volta à situação por forma a minimizar qualquer dano que dela pudesse advir, advertindo-nos para as consequências das nossas ações ao mesmo tempo que fazia questão de nos oferecer uma visão mais alargada da realidade, onde palavras como amizade, liberdade, tolerância, humildade, bondade e amor ganhavam cores vivas em discursos que influenciaram a pintura que dou à vida até quando eu também deixar de estar entre vós.

Mas não se deixem enganar, regras são regras e a Alzirinha também tinha as suas. O almoço era à mesa. A bola e a bicicleta lá fora. Regras a Alzinha tinha, porém todas faziam sentido. Todas tinham um propósito e uma razão muito bem definidas, porém era claro: serviam o bem comum. Bem comum este, tão importante para a Alzirinha, que sendo ela dona de uma enorme parte da vila de Carregal do Sal decidiu doar uma parte para a comunidade da vila que lhe era tão querida, por forma a garantir que pelo menos uma parte da vila pudesse ser utilizada pela sua comunidade como espaço de contacto direto com a Natureza.

Tendo nascido em África a Alzirinha guardava dentro de si uma ligação muito profunda com a terra, com os animais e com a vida, em geral mais humana que a frieza nórdica que sinto nas minhas próprias raízes. Valeram-me todos os seus ensinamentos, todas as conversas e comidas deliciosas com as quais tanto a Alzirinha como sua querida irmã Luísinha me foram alimentando a alma, mas sem dúvida que a paciência de santa que a Alzirinha demonstrara incessantemente para comigo e para com o Tiago era algo do outro mundo.

É por ter vivido com a Alzirinha durante vários anos que me dá uma dor no coração quando vejo as regras, que derivadas às decisões de meia dúzia se aplicam num espaço que outrora fora doado, sem imposições, a toda a comunidade.

Um espaço que é para todos mas onde uma criança não pode andar de bicicleta. Um espaço que para todos é, mas onde os animais têm de ficar do lado de fora. Um espaço que feitas bem as contas, afinal, é só para alguns. Para quem é o parque Alzira Cláudio afinal?

Todos estamos de acordo que quem leva um animal terá de se responsabilizar pelos seus dejetos. Todos estamos de acordo que não devemos andar com as bicicletas em cima dos canteiros. Mas parece-me que há uma falta de memória de quem era a Alzirinha e não me refiro à colocação de um memorial mas a uma honra mais profunda aos sentimentos que emanavam da Alzirinha. À humildade, à liberdade, à tolerância, à compreensão, à bondade, ao amor. Este mundo pertence à vida sob todas as suas formas. Temos de nos organizar, ter regras e saber respeitar os limites da liberdade de cada um.

Por isso apelamos a que seja ouvida a nossa mensagem. Que sejam permitidos animais, monocíclicos, bicicletas, patins e primos afins num espaço que afinal é de todos e portanto apenas seria justo também ser para todos. Pela transmissão destes valores de liberdade, tolerância, humildade e compreensão por este espaço que é de todos nós. Pelo parque Alzira Cláudio.

Em memória da minha amiga Alzirinha. A pessoa mais doce do mundo.”

Texto de Frédéric Bogaerts, enviado por “Carregal Positivo”/Diego Garcia

(Fotos DR)