Joli, o asno das Freixedas…

por Paulo Neto | 2017.03.23 - 10:25

 

 

Faz tantos anos que já não adrego a contá-los…

O Senhor Afonso Pragueiro, do Sátão, estimado negociante de gado em todas as praças nortenhas, sabendo do meu gosto por equídeos, resolveu fazer-me uma surpresa.

Num dos seus carregamentos trouxe-me um burro mirandês, comprado na feira das Freixedas, em Pinhel. A célebre feira de S. Bartolomeu, ou Torna-Feira, realizada em Agosto e de muito concurso oriundo de todo o país.

O dito asinus vinha do desmame mal esgalhado nos seus 6 meses justo feitos. Castanho escuro de pelagem, feita de um pelo comprido e grosso, orelhas peludas e grandes, volumoso de cabeça – por ser inteligente – e um focinho de lábios grossos, pescoço curto, peito largo e muito robusto.

Ou seja, um mirandês a não fugir da raça, a não ser no temperamento, suposto ser dócil.

Custou a alimária 10$00 (o equivalente a 5 cêntimos de hoje) e o transporte 20$00. Motivo sério seria este para desconfiar, quando a besta custa metade do transporte. E ainda assim, só muito mais tarde o vim a saber, pois o Sr. Pragueiro era homem de subida educação e carácter justo e delicado.

Como não estávamos preparados lá em casa para a imprevista “prenda”, o meu pai, depois de muito cogitar, decidiu estacioná-lo temporariamente na garagem, ao lado do “boca-de-sapo”, preso a uma perna de armário, com um fardo de palha por leito.

Mas o asno logo mostrou sua rebeldia, não gostou do alojamento e no dia seguinte, a porta de trás esquerda do “DS” estava metida dentro, por mor de mui acertado parelha. Um desconsolo e muitos ralhetes. Também não havia modo de comer, e só de biberão aceitava o alimento. Uma canseira.

Escovei-o bem escovado, com bruça adequada e pedi a minha mãe um cobertor para o alindar, tal Alter de Cruzado. Deu-me um cor-de-rosa que lhe atei em torno do dorso, com uma vetusta cilha meio esfiapada trazida das águas-furtadas da tia-avó Cidalina.

Entretanto e antes que escavacasse o carro todo, lá migrou para a Quinta das Vigárias, onde um velho estábulo das horsas do Pe. Joaquim Carreira lhe serviu de aprimorados cómodos.

O problema começou por ser nunca querer de lá sair quando para tal era instado, saindo à noite (era boémio), pelo cúmplice postigo cujo cortelho adregou de abrir, para onde bem lhe dava na realíssima gana. A quinta era grande, mas ele gostava era de tasquinhar nas hortas alheias. O resultado chegou célere nas reclamações da vizinhança…

Havia que dar-lhe um nome, pois o ímpio animal não vinha baptizado. Pensei em Bobi, em Farrusco, em Turco, em Marron, mas eram nomes de cão e ele podia ofender-se. Ficou Jolly Jumper, sem grande imaginação, mas como a montada do Lucky Luke, que por ser comprido onomástico, se quedou por Joli.

Todos os dias o escovava e levava a passear, pelo rabeiro, se ele aceitava a sair do estábulo. Não via a hora de o montar, mas o Senhor Pragueiro avisara-me que antes de um ano não convinha, pois a coluna era ainda fragilzinha, apesar de eu ser mais leve que uma pena de águia ou jóquei irlandês…

Entretanto, o Dr. Hermínio Faro oferecera-me uma velha sela inglesa, que descobrira perdida no sótão. Lustrei-a com creme Ponds de minha tia e remendei-a com uma velha agulha de sapateiro. Cilha eu já tinha. Faltavam-me os loros e os estribos. Como não os arranjei, descobri dois cintos “desactivados” lá por casa, e com algum artificioso engenho, congeminei um perigoso arremedo da coisa. Quanto à cabeçada… era mesmo a de burro com que viera adereçado, sem freio nem bridão, que não era áspero de boca, e com uma nagalhada corda a servir de ficcionada rédea alemã.

Escoados os meses, a primeira vez que o montei, foi um dia de festa. E o Joli foi da maior lisura e correção. Nem upa nem cangocha. Aceitou-me com asinina placidez. A partir daí foi um forró e um calvário.

Pude enfim, pelos avelanais, soutos ou leiras afora, dar azo às minhas épicas e tão ansiadas cavalgadas, as quais eram ronceiras nas subidas – a modos de chouto curto – e tão lestas nas descidas, que eu até tinha vertigens. Mas o pior era o Joli ser assaz manhoso, e por me perceber de calções, trotar sempre encostado às silvas dos caminhos, o que me deixava um franciscano, de pernitas ao léu ciliciadas.

Com o passar dos tempos e das tropelias – entra elas a introdução de um “turbo” – que consistia, depois de estar bem aperreado no selim, em o meu amigo Quim lhe levantar a base da cauda, e com toda a candura, aí depositar “inocentemente” um ouriço de castanhas. O “mirandês“, ao picar do “esporim”, em vez de erguer a cauda para ele cair, mais premia e contraía para dentro. O Joli, por gloriosos instantes, tornava-se então um puro sangue inglês, de corridas, tipo Ascot, e em simultâneo, fez-se tão quezilento e manhozão que o “conselho supremo paterno” deliberou oferecê-lo, depois de muita conferência, muito choro e abraços de despedida efusivos, a uma trupe de ciganos que costumavam campear lá pela quinta.

Não deu resultado. Um mês depois vieram devolvê-lo à procedência, pois tinha pouca utilidade, alegada manha e mimo em demasia.

Lá teve que vir o paciente Sr. Pragueiro que o levou e despachou na Feira de S. Antão, em dia de mui triste sina para mim. Mas lá que foi um ano de intensas emoções, ninguém duvide…