Interior – a lengalenga governativa

por Luís Ferreira | 2017.06.15 - 08:34

 

O Interior de Portugal (carinhosamente apelidado de: territórios de baixa densidade) vive, já há uns anos, uma tendência recessiva profunda em praticamente todos os setores. Entre tantos outros, a educação, a saúde, a economia e, em especial, a demografia. Um comboio descendente sobre o qual os sucessivos governos se têm apresentado hipocritamente preocupados e subtilmente inertes.

Embora a minha memória seja ainda menina de tenra idade, verdade é que me consigo facilmente lembrar que todos os últimos governos (ou seus candidatos) apresentaram medidas para intervenção no Interior – pomposas promessas que afirmam desconhecer a realidade, formuladas em palavras metade eleitorais, metade demagogas. Talvez por esse motivo, a grande maioria das políticas discutidas não chega sequer a ver a luz do dia. Já as poucas que são adotadas, além de erróneas, são um verdadeiro contrassenso. Criam-se unidades para a valorização do Interior, mas dão-se-lhes sede em Lisboa. Fecham-se escolas de modo a incentivar a natalidade. Incentivam-se os médicos a sair de lá ou fecham-se tribunais e balcões do único banco público que temos, de modo a fixar pessoas.

Esta é a lógica que se segue: pôr uma região a andar cortando-lhe as pernas. Verdadeiros atos de desigualdade social, refletidos em cidadãos que têm que fazer largos kms para acederem a uma consulta, um depósito bancário ou um julgamento, quando nem transporte têm. Então, que legitimidade tem o governo para impor a estas pessoas o pagamento de impostos por tais serviços que não usufruem? Legitimidade, à sua boa maneira, total! Dinheiro não cai do céu, e alguém tem que pagar, por exemplo, todas as remodelações e adornos que se fazem em Lisboa para receber turistas. Pura política redistributiva.

Mas é aqui que a oposição tem, ou deveria ter, uma palavra a dizer. E embora por vezes as digam, falam para ouvidos moucos. Tão moucos quanto seriam os seus ouvidos, se estivessem eles próprios no poder. Veja-se, por exemplo que, até há pouco tempo, tínhamos o BE e o PCP, que criticavam e propunham, naqueles seus papeis de oposição desmedida, jamais acreditando que algum dia chegariam ao poder. Agora que alguns poderes têm, calam-se bem caladinhos e deixam a procissão continuar. Neste vaivém governativo, o interior é outro país totalmente desconhecido. Até porque aquilo não se conhece com uma viagem de 4 em 4 anos.

Quem conhece o Interior, sabe que a sua paisagem é, hoje, um retrato da inatividade e indiferença dos sucessivos governos por esta vasta região. Sejam eles de esquerda ou de direita, nenhum contrariou a tendência. E todos, ao invés daquilo que seria expectável, têm contribuído para pisar esta região, cada vez mais enterrada. Esta tela espelha aquilo que para os nossos antepassados seria algo surrealista: uma região esquecida, de campos abandonados, casas inabitadas, palheiros em ruínas, escolas, tribunais e bancos fechados, e freguesias desfeitas (curiosamente ditas unidas). Meus senhores e minhas senhoras, apresento-vos o Interior de Portugal: uma casa sempre de portas aberta – uma casa que já nem portas tem – casa humilde que vai caindo (no esquecimento).

 

Ilustração de Mafalda Mota

Luís Ferreira é natural de Ferreirim, Sernancelhe, tem 17 anos e é estudante de Economia.

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