Hostes podres

por PN | 2017.04.12 - 12:35

O descaramento e a firmeza têm por vezes surtido o mesmo efeito, logo, quem com inacreditável valentia se opõe às hostes podres, mas fortes pelo número, por tão notável coragem, recebe, em doses regulares, ora a cólera de quem o gorro encarapuça por inteiro, ora a sôfrega fúria do amo, caso o tenham agraciado com um direito constitucionalmente a todos atribuído.” –

                                                                                                                                                              Montaigne

 

Les uns et les autres é o título de um filme francês datado de 1981, do realizador Claude Lelouch. Numa tradução fluida dir-se-ia “Uns e outros”. Preferimos “Os uns e os outros”, numa mais lata perspectiva.

Em todas as facetas da vida humana deparamos com estas duas categorias de seres – “os uns“, neste quase absurdo semântico-gramatical de um artigo definido plural se acrescer ao artigo indefinido do mesmo número, caracterizam aquelas pessoas que pautam suas vidas por posturas muito acomodatícias de conformidade ao dirigismo de momento, sempre lépidos a mudar o ângulo da bússola de acordo com as espacialidades de ocasião. Nalguns casos extremados, enquistados numa subserviência agónica e nauseante.

Prestes a lamberem tudo o que lhes é posto à frente das queixadas, no exemplo pouco digno da mais rastejante aquiescência aos pretórios da hora, aos sobas de momento, aos edis da circunstância. São os subservientes, aqueles que visam alcançar alguma coisa através da bajulação e do servilismo.

 

Em 1976, Alan Pakula realizou o filme Os homens do presidente, que contava as intrigas prepotentes e as espionagens sórdidas do republicano Nixon ao candidato democrata da oposição e a desgraça que lhe tombou em cima pelo escândalo desencadeado por dois repórteres do The Washington Post, conhecido no mundo inteiro por Watergate.

Enquanto houver um presidente, haverá sempre os homens do presidente, os rapazes do presidente, os moços do presidente… E o que são eles? Os “sapatilhas”, os moços de recados que servem o cafézito e correm ligeiros a vergar o dorso, que de tão dobrável já perdeu a postura erecta do homo sapiens, configurando-o com o pan troglodytes. E porém, demorou o homem seis milhões de anos a assumir a verticalidade distintiva…

Os outros“, sem indefinições à mistura, são aqueles que se pautam por valores mais subidos e que trazem o olhar no horizonte sem terem que acertar o passo pela pegada de terceiros, discernentes do seu caminho, pautados por códigos éticos, boa moral, brio profissional, mérito e ausência de atalhos ínvios. Marcham pelo seu pé e sabem dizer Não vou por aí!

Os uns” são cumulados de migalhas da gamela que ceva quem os mantém e do cúmulo da empertigada arrogância malfazeja que premeia a sua néscia mediocridade, na orgia da manipulação desenfreada.