hipóteses sem tese

por Maria José Quintela | 2017.06.26 - 10:10

 

 

lembro-me do tempo em que as estações chegavam e se despediam com pontualidade. como quem nos dava vagar para preparar a mudança. primavera verão outono inverno. assim rezavam os livros da escola. se acaso isto não for um erro de distância mal calculada. ou um sonho. hoje parece-me que tudo era mais previsível e menos artificial. sabia-se menos do exterior e mais do que ficava no perímetro interno. digo eu empiricamente. sem voz de assumir que era melhor ou pior.

afinal todas as vidas são curtas comparadas com a idade do mundo. e o tempo sempre se gastou. os alvos é que eram outros. gastava-se muito tempo a ensinar regras. concedo. mas muito mais a praticar exemplos. o berço do respeito.

só muito mais tarde alcançaríamos a utilidade dos exemplos. na altura em que muitas palavras perderam o valor do seu primeiro sentido. a ética e a honra são meros exemplos de tantas palavras que ficaram fora de moda. especialmente fora do alcance dos seres mediáticos. hoje assiste-se a um flagrante esgrimir de palavras mortas. o discurso já só faz o caminho andado. envernizam-se as palavras e desconcertam-se os consensos para confundir as mentes mais simples e mais sãs.

a dissimulação está na ordem do mundo e na natureza do homem. vale tudo menos usar a inteligência. e muito menos o coração.

espanta-me que uma geração demore tanto para mudar tão pouco mundo. os passos talhados em círculo são um aparente sinal de vertigem. com muitos minutos de pesar e sem um minuto para pensar o desnorte é garantido.

não tenho a compreensão da desordem. muito menos a veleidade de soluções. se o confesso é mais para me redimir do que para acusar. no mínimo acrescento a minha ignorância a tudo o que vejo. no máximo crio distância para me descontagiar de correntes parciais que esvaziam juízos próprios. todos os lados sofrem de miopia crónica. uma forte incapacidade de ver a árvore à distância. como se a alienação fizesse parte de um pacto de infelicidade eterna.

 

tantos miradouros de solidão. e nenhum tempo parado. às vezes as estações baralham o horizonte que fica à altura dos pássaros e deixam despidas as árvores do verão. na proximidade as pessoas começam a desaparecer. depois do primeiro impacto de susto vem a razão. sempre foi assim. não mudaram as formas de morrer. foi o ângulo de sombra que aumentou. o esquecimento previne a loucura. segreda-me uma voz de dentro.

 

quem nos dirá a verdade? e o que faríamos com a transparência? não sei.

sei é que este chão que não transborda resíduos é feito de camadas de ossos e ruinas. e sei que tenho saudades do cheiro a terra molhada.