Fundos da torre 8: A Presuntaria

por Amadeu Araújo | 2018.08.30 - 21:41

 

El Rey em sendo vivo anotava e compilava. E compilava é vocábulo por si só capaz de estremecer o melhor dos compêndios. E mesmo debaixo do olhar de Dom Duarte, rei que mandou compilar toda a legislação do reino, está mesa comprida, capaz de nos atiçar a barriga e gorgolejar o palato.

Chama-se ‘A Presuntaria’, fica ali em cima, quem vem da Rua Direita e corta para a rua da Cadeia. Lá dentro a decoração lembra o irmão mais velho, The Brothers, mas prefiro olhar ao teto onde ainda sobrevive um dos muitos jornais para quem trabalhei. Presuntaria, talvez em homenagem ao presunto que é cortado à nossa frente, em lascas irregulares e finas, trazendo um aroma intenso, curado, com uma untuosidade própria do pernil e de sabor pouco salgado e ligeiramente doce. Sim é difícil falar assim da nobreza do bácoro, mas foi o que anotei com garganta de bem comer. Falta a indicação da cura, e a origem, mas atinando ao copo mastigamos com prazer que os tempos da salgadeira, com pena minha, já lá vão. Seja como for veio apurado, seco e maturado, magro e gordo. É daí, do porcino pendurado e escorreito quem vem o presunto, repousado no fresco e escuro. Este de média cura, mais tenro e lascado.

Por aqui existem petiscos simples, como enchidos, queijos ou azeitonas. E descobri-a numa noite dessas de vadiagem, uma jornada mais tardia, em que nos aviámos com queijo e chouriça, de boa carne e melhor fumeiro. E, claro, uma broa de fazer corar os trambelhos. Nesta segunda jornada constatámos o bonito espaço, a encorpada garrafeira e a forma despachada e atenta com que o serviço decorre.

Ainda com o pensamento alijado ao monárquico assemelhei-lhe moça e chamei a fidalga. Uma Rosa Maria, já com dois anos, e que se mostrou copo à altura da sede. O rosé da Quinta dos Monteirinhos é todo ele Touriga Nacional, mineral e refrescante e bem que dançou com o presunto, o queijo e o paio que nos foi entrando mesa adentro.

Bebidos e entrados veio um arroz de salpicão, carolino em calda, feijão vermelho, que diria raçudo, e bom enchido. Que acabou de abrir na panela, de ferro, com que chegou à tábua. Mais acomodado afiambrámos uns ossos de assuã, singelos em prato de barro e uma faca de corte fino, esmiuçando a carnuça que nos embalou a escorrer mais uma pinga. Na lista havia petinga, que não pescámos e arroz de vinha d’alhos. Noutros dias há farinheira e morcela, assadas na telha; assaduras com arroz de feijão, que é petisco de roer e bem bom merecendo-se o aprecio da carne porcina. Na lista aviam ainda bacalhau, em arroz ou açorda que é de bom contento e difícil achamento e nos dias mais beirões alvitra cabrito assado no forno com migas e batata assada.

Sim à primeira andança pode parecer coisa de normandos e grafos de fino calibre, mas acabamos por constatar que a cozinha funciona e funciona bem.

The Brothers ou a singela Presuntaria é casa de secos e molhados, vinhos e petiscos, com pratos quentes e fino atendimento. A jornada, para 3 mastigantes, custou 38 euros e inclui o vinho que aparece a preços cordatos e meigos. Ora bem pode el Rei, e a sua Lei Mental, ficar descansado. O património da coroa está a salvo e a cozinha honrada, sem centralização e sem ferir interesses senhoriais. 

 

 

Amadeu Araújo, Jornalista