Fundos da torre 6: Recordo

por Amadeu Araújo | 2018.08.16 - 22:11

 

 

O galo gordo, o que canta madrugada cedo, é a diretriz para acoplarmos mesa na moderna vila de Castendo. É preciso ser-se barroco, espreitar ao alto, deitar o olho ao largo Magalhães Coutinho e ver os galarós empinados nas torres cimeiras da vetusta Igreja da Misericórdia. Um presbítero a caminho da rua do Alexandre, um Herculano que o escreveu sem talvez conhecer o macho da galinha que aparece decorado nas paredes do Recordo, localizado na rua do escritor, paredes meias com o centro cívico de Penalva.

Antes de entrar sente-se cá fora e contemple as novas edificações. O vinho, um rosé feito em Sezures, vem ter consigo. Ali, atentando ao forjado do ferro que imortaliza as cepas, percebemos melhor ao que viemos. Comer. Comer e bem. A prédica chegasse-lhe com broa e casqueiro branco que ainda bem não estão umas asinhas de frango tostado na mesa. Ameijoas, em porção generosa e umas moelas reclamam mais trigo e pedem ao Picoto Encosta. Sim o rosé de Sezures é um Encosta do Picoto, feito em Penalva do Castelo e serve-se gelado neste Recordo, casa fina e sofisticada, de merendas e refeições.

Há outros vinhos, com o Dão bem capitaneado, mas só por este refresco faço a viagem. Nas comidas, para quem mastiga além do petisco, acrescem umas migas de feijão vermelho, enlaçadas na sabedoria de mãos certeiras e, no meu dia, uns carapaus de fritura ligeira. Noutros dias há “misto de vitela e grelhada”, que ao almoço há sempre prato robusto, seja ele um bacalhau lascado ou uma valenciana no arroz. Nos petiscos e nos coentros é que estamos bem. Há orelha e até uma singela, e fresca, salada de feijão frade com atum, a lembrar outras comidas quase empurradas para fora de modernas cozinhas que aqui se resgatam. Desta cozinha, que tem vista e se deixa ver, saltam ainda sandochas, do lombo ou de peito de peru. Por acaso não as provei e fui à modernidade olhar a cara de meu filho, entalando nas pequenas mãos um poderoso hambúrguer “com duas carnes”. O melhor que o gaiato provou.

Eu vou pela petisqueira e acrescentei queijo. Um lacticínio de pasta mole e outro de meia cura, salpicados a doce de abóbora e de mirtilos. Se abrir as goelas de espanto não vai poder providenciar uma das ligações mais extraordinários que se pode abondar no queijo. Também havia, vi-as mais tarde, umas línguas de gato, uns biscoitos de farinha rija que prolongam a converseta. O Dom Biscoito tem prodigalidades e se a tarde pedir refrigério há ainda uns gelados artesanais da Fabridoce. E claro, uma tarte de noz divinal de massa fofa e arejada. E outra de coco…

Os preços, já vos aponto a conta, têm modos e são sensatos. Acresce a mercearia e a garrafeira. O Júlia Kemper tinto, em dia que esteja no mês, salta a 13 euros, e o Taboadela branco, a cinco paus. Mas esses, traga-os para casa e por cá beba desse rosé, que não dará o palato por mal empregue.

O atendimento é cordato e atento, conhecedor e atencioso. Generoso que nos perguntam pelo reforço das doses que são copiosas e benevolentes. Enquanto espera pela dita repare nas histórias que contam os desenhos do Almeida, incluindo o honrado lavrador de outros tempos e avô de um dos associados da casa. E agora que já percebeu, espreite outra vez ao cata-vento da Igreja da Misericórdia. Vê como o sentido cresce ao pipo? Eu recordo-me das tardes em que fujo a Penalva do Castelo e lambuzo a beiça na petiscaria e na gulodice. Éramos cinco e por 2 garrafas de vinho mais comida que abonde e sobremesas para miúdos e miúdas, largámos 50 paus, num preço justo e calibrado à comedoria. E a qualidade da oferta merece-a, por inteiro, Penalva do Castelo que sem perder a origem se assoma numa urbanidade feliz para dias preenchidos. Só falta esperar que venham as castanhas e que ainda haja vinho de Sezures que ser-se do local tem mérito e alvissara. A nós, pelos menos, os mastigadores!

 

 

Amadeu Araújo, Jornalista