Fundos da torre 5: Bairru’s Viriatu

por Amadeu Araújo | 2018.08.09 - 10:16

 

 

É um bairro sossegado, com vista para o sereno arvoredo da Circunvalação. Os primeiros edifícios já lá andam há dezenas de anos, outros são mais novos e modernos, construídos com o dinheiro do vinho ali onde a cidade, primeiro, rompeu a crescer. Cantavam outros galos naqueles tempos e nem me abalancei ao lado de lá, ative-me na correnteza dos baixos, com tetos lavrados a madeira, olhando o comércio, os bares e restaurantes e um bairro arejado e moderno, viçoso e feliz que tem agora a companhia de uma padaria, que é também mercearia e petisqueira. O arranque não foi fácil.

O Bairru’s Viriatu, nas traseiras do Ciclo de Viseu, tem vinho, muito, mas pouco do nosso. Do Dão há apenas uma referência em prateleiras onde crescem outras regiões. Valeu-me uma belga que ali chegou, feita sumo de cevada, fermentado e artesanal. Foi essa Stella Arrtois que escorreu o petisco e a esse não lhe faltou merecimento.

Anotados os molhados avancemos aos secos a começar no pão, um casqueiro feito ali mesmo, na hora e uma supimpa, e lambiqueira, broa. No leite há amanteigado e curado. Queijo da Malcata e da Estrela, servido com atavio e acompanhado da gulodice. Um lembrado doce de abóbora e amêndoa. Alevantada a arca do fumeiro o surpreendimento é feliz. Uma chouriça de carne, gordinha e carnuda e uma perna inteira do porcino, curada e salgada. Um presunto que veio por junto e que acolitou uma tremenda surpresa, um formidável paio do cachaço. O paio é enchido nobre, feito do lombo que já andou pendurado no cachaço do reco. De textura firme e delicado sabor, foi companhia merecida, um extraordinário merendeiro. Este feito ali em cima, em Armamar, pela Fumados Douro, soube-me que nem regalo em dia de feira. De cura lenta, natural, diria até, deixou saudades e merecimentos. Presuntos, paios e chouriças impuseram novo cesto de pão, quente estaladiço, que namorou o quarteto de queijos. Chegou tudo acomodado em boa tábua e debaixo da sombra de alvenaria embalei três cervejinhas que me souberam como nunca, cevada, fermentada no tempo lento do vagar. Vagaroso fiquei eu ali sentado, apreciando a aragem e a rua larga e, lá ao fundo, o tremendo verde dos plátanos, digo eu que não sou florestado, da Circunvalação.

Não cresceu pão nem ficou fome, mas lamento o impedimento por não deitar goelas e língua a um belo catálogo de conservas, uns generais acolitados a bonitas prateleiras.

Na guarnição apontam-se ainda umas sandochas de leitão, memoriadas, mas não provadas.

Seja o que foi soube-me o lanche aos indolentes dias do Verão, soprados por uma aragem verde que muito me aprazou. Sim ele há tardes felizes e carreadas de modorra. Mais ainda quando o atendimento é dedicado e delicado. Até a cerveja se me ficou gravada a palato fresco, reclamando outro ditoso farnel, de secos e molhados.

Sim este Bairru’s tem Viriatu e feliz fica a cidade com tão prodigiosa panificadora que nos cobra pelo entretém singelos vinte mil réis, dois mil cêntimos se preferirem a europeização da samarreira que a mesa essa, é bem portuguesa.

 

 

Amadeu Araújo, Jornalista