Fundos da torre-4 O Cantinho do Fernando

por Amadeu Araújo | 2018.08.02 - 11:42

 

 

Há uma querela em torno da ortografia que só diz bem da boa, e pantagruélica cozinha. Serão ossos de suã ou de assuã? O perguntador acrescentaria línguas ao repasto, mas eu atiro-me ao espinhaço, mastigando como quem vai andando para a antiga fábrica da telha, mas sem chegar por lá.

Mas o prólogo é necessário a que se conheça a Dona Maria do Céu Mendes que tem prédios, ruas e quintas. Deixou tudo à cidade esta distinta fidalga, que além de ter sido a primeira pianista das Beiras ainda foi filantropa e generosa.

Uma misericórdia que deixou em testamento a Quinta de Cabanões, onde encontramos mesa posta no Cantinho do Fernando que tem almoços e jantares e intermédios, merendas e lanches. Ceias se preferirem a moda antiga e já agora, generosidade a todos e acabem-se as pelejas. Tanto vale ossos de suã, como de assuã. Estejamos em qualquer cardinal sextante as duas grafias e sonoridades são válidas e bem-vindas. Eu, por via de ofício, porfio assuã para designar os ossos da coluna vertebral do porco, saborosos das mais variadas maneiras, mas a mais simples a melhor. Cozidos com sal e pouco mais. Os ossos de assuã são um petisco tão bom quanto raro de encontrar. Mas haja sol no nabal ou chuvisco na eira descobrem-se na vetusta cidade de Viseu em Cantinho que só tem encómios para a boa cozinha.

Desmanchado o porco, se o talhante for magnânimo e benevolente haverá de sobrar chiça aos lombos e costelas. Sobrará assim carne nos ossos da coluna, desde o cachaço até aos lombinhos.

Essa prodigalidade é um dos petiscos que se mastigam no Cantinho do Fernando, ali na rua do Soito, em Cabanões, regado por um branco de São João de Lourosa e aconchegados por saboroso casqueiro. Também há bacalhau e polvo, cabritos e outras mantenças para almoços saborosos e fugazes, mas para mim é ao lanche que este apeadeiro da boa cozinha nacional vale a pena. E de merenda não estaria mal se não se forrasse a tripa com deliciosa e carnuda chouriça e depois, então sim, opíparo no que que granjeou nome ao Fernando e ao Cantinho. O borreguinho, e não confundir com cordeiro ou carneiro, é outro manjar para barrigas que se tenham em boa conta. Em bom rigor é um anho, um filho do cordeiro com menos de um ano e que chega à mesa em pedaços copiosos, de bom corte e com muita costela para dilucidar, pedindo aqui que se olvide o casqueiro e se carregue no cesto a broa de milho. É carne tenra, assada no ponto, de tempero simples e que se desmancha em solilóquio com uma língua atrevida e uma faca eficaz. A pinga é do Dão a preços justos o que faz deste Cantinho uma cozinha com arte, coisa simples, mas difícil de alcançar. E no final em sobrando broa ou casqueiro, e havendo fome, há sempre um créscimo de queijo para untar a barriguinha.

Podemos ainda empedernir a dança, lembre-se sempre da altruísta Maria do Céu Mendes, com aguardente, da branca e da amarela. E a seguir deliciar-nos com a sombra que brota na ruela lateral para amaciar o tabaco. Bote o olho a Teivas sem sair de Cabanões.

Sim ele há restaurantes grão-finos, tabernas esconsas e tabernáculos. Este Cantinho é solarengo, de cozinha iluminada por bons produtos e alumiado por mãos ataviadas e capazes.

Faça-se ao caminho, mastigue e não diga nada a ninguém ou um destes dias corremos riscos de ter que esperar pela mesa que ele as coisas boas sabem-se depressa.

 

 

Amadeu Araújo, Jornalista