Fundos da torre-3

por Amadeu Araújo | 2018.07.26 - 19:25

Há mais de 30 anos a minha primeira Rádio em Viseu deixou o estúdio da Alexandre Lobo para uma garagem no Bairro de Santa Eugénia.

Nesses anos viajava da Balsa ao Viso de mochila amarela às costas e reforçava os discos no Som, quase ao fundo da Rua Formosa, ainda sem silo à vista. Como todos sabemos o que fizemos, no Verão passado, regressei a Santa Eugénia movido pela indicação de um especialista em adegas e panelas. Fiquei na esplanada, a mesma onde esteja sol ou chuva começo as hostilidades com um “branco de Vila Nova de Paiva”, e pedimos uma sóbria grelhada e um Encruzado que nos acalmou a noite. O vinho foi carote e disso demos conta. Foi receituário que bastou ao achaque. O XXL, mai-la sua esplanada, colocou os vinhos no preço justo e alvitrou-me o desassossego. Um dia apresentou-me a Tinta Pinheira, o Rufete que todos vituperam e tantos vinificam em segredo, e confirmou as hossanas ao Jaen, o próximo grande assomo no Dão – assim haja castanhas em Novembro e ousadia nos adegueiros. Numa dessas longas tardes de chuva precisámos aconchegar a barriguinha e abalei-me ao restaurante com o séquito dos prosélitos. Eu e esses sectários alapámos à cadeira e hoje temos ali mesa primorosa para almoços fugazes e tábua comprida para jantares alongados. Claro podia-vos falar da Vinha da Neve, dos Caminhos Cruzados, da Adega de Penalva, do Alvarinho do Carlos Lucas ou até mesmo do Ruy de Povolide. Mas os fundos da torre reclamam préstimos e eu lembro uma suculenta mão de vitela, em tacho largo, escorropichada a Picos do Couto. Recordo ainda a língua a debulhar o bacalhau com grão e ovo a que o Paulo me diz sempre que não acrescenta batata. Ou a grelhada e a vitelinha, o borreguinho e o mais o que a dispensa dita que se apreste ao créscimo. Há ainda as caldeiradas e os ensopados e tudo o que manda uma cozinha tradicional com laivos de evento, ou direi invento…As sopas, meia mantença e feitas à moda antiga, com carnuça e outros cometimentos ou mesmo a massa do lavrador, rica no feijão carnudo e vermelhão engrossada com tubos de cereal. Para os menos carnívoros há essa odisseia do prego XXL, com bife sublime em pão esplendido e, rogando, umas batatas fritas enxutas e honestas. Para os entradeiros assomo com essa alheira pingada a queijo. A coleção de vinhos faz deste XXL uma boutique para finos copos, a palamenta rasga o suprimento, mas o que pronuncia e abras-nos é a qualidade do material, o coloquial da mercearia, do talho e da peixaria que se bota na mesa. E, para mim que sou atrevido e desmiolado, o haver sempre um rasgo de queijo, duro e velho, acompanhado de abençoada aguardente com que finalizo a dita e regresso à esplanada, vendo as serranias e coçando a barriguinha pelo auxílio no preenchimento. De Português Suave nas beiçolas olho os dez euritos que custa um almoço de confiança ou nos 15 que importam num jantar de informalidades. O resto é o costume, há internet das coisas, estacionamento, jornais e amigos. Convenhamos que “E a esplanada, já vos falei da esplanada?”

Amadeu Araújo, Jornalista