Fundos da torre-2

por Amadeu Araújo | 2018.07.19 - 09:53

 

 

Há uma laranjeira e uma nespereira alapadas, ali quem passa o Alto de Santo Amaro. Dobrando a lomba vislumbramos o Morgadio de Tonda que teve em Soares de Albergaria o último defesso. Assaz eloquente é esse apelido Albergaria, pertinente para a adega aonde quero chegar. Com os Três Pipos almejando pingar o cocuruto, descemos, cumprimentamos o grande Quitério, escarrapachado na escritaria da parede, e marchamos à direita que é envergonhado, mas o tempo é de Verão. Nessa esplanada, sombreada a árvores e chapéus de sol, alapados em cadeiras capazes e mesas largas e aperaltadas, amesendamos as entradas. Sim tem dias de trovadoria que as mastigamos todas, mas neste domingo bailaram pataniscas e enchidos. Favas e moelas foram postergadas e encomendado o cabrito e o caril de gambas. Das últimas adorei o arroz, bago solto e redondo, e o picante do caril. O camarão, grande, duro e saboroso pediu meças. O cabrito, de encostar a faca e deixar latejado o osso, marchou sem sacerdócios. Apenas os grelos, salteados no azeite e umas batatas fritas, honestas e enxutas. Ainda arreámos o naco de vitela grelhado, acolitado a feijão negro como a louça aonde se locupletam as iguarias. Noutras andanças já turvei o polvo frito com migas, broa e couve, e o Bacalhau à 3 Pipos, lascas envoltas em cebola com assadura no forno. Há menu para os mais pequenos, internet para os modernos e estacionamento para duas dúzias de automóveis. E sombra na careca para quem se empertiga na palamenta, nacional e eficaz.

A pinga exijo-a sempre local e desta feita o tablet apenas tinha 3 referências aos rosés do Dão: Cabriz, Vegia e Casa de Mouraz. Este último, a 9 euros e meio a botelha, vinha ali do lado e trazia escondido no rosado Touriga Nacional, Jaen e Tinta Roriz. Boa escolha, servido fresco e com 12,5 de grau que permitiu chegar a casa. Claro quem almoça com crianças e mulheres tem que prolongar o repasto e na ausência do Papão, um doce de ovos cuja falta de comparência foi explicada com justiça e lisura, veio um Arroz Doce, aspergido a canela e uma Mousse à 3 Pipos, com chocolate, bolacha, natas, café e amêndoa e que deixou as beiçolas do gaiato extremas de felicidade. A carteira também não mugiu. Entradas, 3 meias-doses, duas sobremesas e um vinho com denominação, mais a justa gratificação pelo atendimento delicado valeram cinco dúzias de euros. Não me coube a mim riscar a dívida, mas quem o fez não se queixou. E visto daqui também me parece justo alpendre para um mealheiro que na saída acrescenta vantagem de poder comprar vinho para o caminho e para a dispensa.

Parece-me, pois, que Albergaria é justo apelido para este restaurante Três Pipos, em Tondela a partir da saída do IP-3 para a Adiça e rumando a nascente. Já Amadeu Ferraz de Carvalho, na partitura “A Terra de Besteiros e o actual Concelho de Tondela” apontava para que Tonda fosse diminutivo de Tondela. Não quero imiscuir-me na investigação histórica, nem desejo o regresso da Estrada Real, a mim basta-me ter esta esplanada e estas árvores, os ares do Caramulo e a Cozinha, de mão cheia da Dona Ju, sim já andei lá por dentro com outros outorgados cozinheiros, mas nada quero acrescentar ao assunto. A comida é autêntica, o serviço feliz, o espaço prazenteiro. O Papão volta no Outono e eu por lá espero espraiar os últimos sois antes das invernias.

 

 

Amadeu Araújo, Jornalista