Fundos da torre 18: A Mexicana

por Amadeu Araújo | 2018.11.07 - 21:27

 

 

Subir à mais alta é sempre euforia e feitoria mesmo em dias de frio e nevoeiro. Sim subir pela dextra, tendo o Vanguarda como farol e na rotunda virar pela esquerda. O estacionamento abunda e o destino visualiza-se com um enorme e vermelhusco letreiro. Estamos na rua Monsenhor Mendes do Carmo e tome por boa a premissa de que o simples esconde o requinte.

Albergados na Mexicana, bem amesendados e melhor acolitados, chega-nos paio, orelheira, queijo curado e cogumelos. Ficou o queijo e o paio, de fino corte, para bebericar o tinto, daqui, e provar o branco, dali. Termos e Cardo, de pinguça fomos prendados. Aos comes que a lista é longa de cozido e grelhados. Cozido o cherne, fresco e saboroso, bem grelhados os linguados e o galo, um fino e raro peixe, de bom sabor e melhor textura.  Nas guarnições batata cozida e brócolos e vamos ao talho que melhor me apraz. Nacos de vitela de boa grelha e, para os comilões, uma ‘posta à Mexicana’, acolitada com frutas, ficaram a colorir, dois murros nas batatas, um curioso e saboroso puré de marmelo, três castanholas e um esparregado divinal. Deitei a mão ao arroz de feijão dos nacos, besuntei-me de esparregado e precisei de encómios para atalhar uma peça do lombo, apelidada de posta, no que fui ajudado por uma boa e prestável facaria.

Nas saídas uns profiteroles e um leite creme, que eu regressei ao lacticínio, poisado na mesa ao lado à espera do regresso. E uma surpresa. A garrafeira é sortida, e visível, não faltando escolhas pátrias, mas beber local é sensato. A Síria da Quinta do Cardo amesendou o piscícola, o Roriz e a Trincadeira, mai-la Nacional e o Jaen prodigalizaram um lote da Quinta dos Termos, de 2014, que ensaiou veludo goela abaixo, enrodilhando a mastiga e deixando bom e feliz travo na garguela. Claro que mais queijo e, supimpa, meia garrafita, para encavalitar. Cafés e uma aguardente ajudaram à moenga que as doses são generosas, o serviço atento, a comida de boa confeção e melhor sabedoria. Sim comer bem, com boa matéria prima, frescura de peixe e bom corte na carnuça. Mas comer explicado, com a horta a botar os legumes na mesa, e acompanhamentos num diapasão de sabores da estação que nos implicam naquilo que melhor gostamos. O gabarito também se nota na palamenta e no empratamento. E quem nos recebe percebe disto dos comes e dos bebes, não é para todos, e de nos fazer sentir em casa. Sete mastigantes, duas garrafas, e meia, de vinho com denominação de origem, doces, cafés e aguardentes, e tabaco que ainda é dos felizes que nos deixam ser prazenteiros. Importou a dita ao sacristão centena e meia de ouros. Preço justo no cardápio, sobriedade nos custos vínicos e regressa um tipo a casa, conduzido pois então, e precisa de beber uma água das pedras e fumar um Português em Celorico da Beira. Olhando ao alto e fica-se ali feliz com o poderio da mesa e da garrafeira desta Beira Interior, que me obrigou à demanda, que tenho que lá ir maestrar taninos.

Uma opípara odisseia, que muito me tardava o meu amigo na Guarda, a que há que juntar o gasóleo, mas se formos ao lado de lá já ganhamos para as portagens, e a fartura. Farta e fiel continua a mais alta. Ao alto e com garbo.

 

 

Amadeu Araújo, Jornalista