Fundos da torre 15: O Cantinho

por Amadeu Araújo | 2018.10.18 - 14:00

 

 

Há, pouco depois de cruzado o Mondego, um Cantinho em cidade hospitalária. Oliveira do Hospital é essa cidade, serrana e altiva, que nos dá meças e andanças. Quando por ali chego, ou à hora do lanche ou no vagar da ceia, acolito-me à Rua Conselheiro José Lobo, no centro histórico da cidade e, do lado esquerdo, o parador é sempre ‘O Cantinho, onde oficiam o Jorge e a Anabela.

A entrada mostra um café de balcão e cachecóis ao alto, muitos e de tantas cores. Entrando há sala e, à vista de todos, que os segredos estão no coração e na mão certa, a cozinha. Ao almoço há refeições diárias. A comida vem em doses generosas, a simpatia alarga-se e os saberes são de quem gosta do ofício e faz gala e gáudio na mestria. Há no começo da odisseia enchidos de fino calibre e melhor cura, fumeiro do bom e do melhor e até um presunto bem curado. Depois de entrados e sentados, amesendemos.

Nos dias dele salta “javali no forno com batatinhas”, uma alheira simples de garbo e, na sobre peliça, um bom e autêntico ovo de poedeira, servido com batatas honestas. Também há bacalhau em todas as virtudes, no tempo deles arroz de míscaros, chanfana e também por aqui se faz uma extraordinária cabidela. A Anabela é cozinheira de mão cheia e para mim, que também já por cá mastiguei umas inesquecíveis sardinhas assadas, a demanda é sempre formidável. Mas fabuloso, digno de romaria e carrossel, é o cabritinho, o chibo, vindo de pular pela serra da Estrela acima, torna-se num suculento assado, feito com todo o tempo do forno lento que enquanto ele se aprimora põem-me sempre um arroz de miúdos, a fressura do animal que torna o carolino num regimento capaz de badalar odisseias. Com o cabrito chegam batatinhas e, no que mais me apraz, uns grelos cozidos, em os havendo, untados com bom e saboroso azeite.

No beber é que está o ganho e o Jorge tem do bom e do muito bom. Há boa pinga em Oliveira do Hospital e a carta de vinhos, que se mostram, também capacita bem o Dão. O cabrito assado deste Cantinho honra a região, a pastorícia e o palato, com uma carne tenra, saborosa, suculenta e de excecional qualidade. Na saída há arroz doce, uns laminados de fruta quando é tempo dela e um delicioso e amanteigado queijo. Da serra da Estrela, autêntico e sublime, a solo ou com marmelada. Ao balcão se nos elevarmos sai bom café e essa aguardente de estalo.

Nos encómios convém, quando se requer dança, encomendar a valsa e nos proveitos com duas notas de dez já se merece a mastigação. Sou suspeito, que amigo dos da casa e de Oliveira, mas são hospitaleiros e merecedores dos melhores epitáfios à autêntica cozinha portuguesa. A comida é boa, o atendimento inesquecível, as doses avantajadas e o trato autêntico. Cozinha à vista do freguês é outra elegia que nos faz querer voltar e bailar. Traga as mãos, para coçar a barriguinha e o nariz para aspergir as serranias!

 

 

Amadeu Araújo, Jornalista