Fundos da torre 14: Petz

por Amadeu Araújo | 2018.10.11 - 15:13

 

 

É preciso assomar o Cristo-Rei e, descendo ao consulado de Aristides, contornar e entrar pelas Laceiras. A bordadura da estrada são vinhas e olival, mas o Petz, um Pedro e Paula merecendo a odisseia da autêntica cozinha regional, é moradia, discreta, com assento na rua principal das Laceiras.

Sentados venham elas, arregacem-se as mangas que dar conta do repasto exige diligência. E cumprimentos no balcão de pé alto. Entrando tem sala pela dextra e, na vante, amesendação com copos de pé, palamenta prestimosa e cozinha pecaminosa. Entremos a mãos juntas. Ossos de assuã, favas com chouriço, enchidos, em dias delas escabeche nas iscas e bom pão caseiro, de trigo e milho. De barriga composta podemos avançar pelo bacalhau, frito em tempura, com bons pimentos e doce cebola. Posta alta, merecendo o fornecimento da Lugrade – esses bacalhoeiros dos frios mares do Norte, em lascas que se enrolam na batata frita de boa textura e melhor doçura. Há depois, este Petz é para resistentes, essa grelhada mista com boa salchicha, melhor vitela e um bácoro de fino corte.

Mas esta oficina, de dois ou mais, tem na entrada o Pedro, um antigo chefe de sala do saudoso Morgado e nos fornos a Paula que é chefe de cozinha e mestre dispenseira.

Este Petz, alcunha do Pedro desde há muitos anos, tem assomo no centro da aldeia das Laceiras, em Cabanas de Viriato, e é um extraordinário panegírico dos sabores tradicionais, dos da Beira e portugueses, aonde nem sequer falta um cabrito assado, domingueiro, com arroz e bons grelos.

Na pinguça a garrafeira é nutrida e sortida, os viticultores têm aqui antepara do casco, mas o da casa também é bom. Este vem da Quinta das Três Marias, engarrafado para o restaurante pelo Peter Eckert. O branco com Encruzado e o tinto, arrisco, com laivos de Alfrocheiro. Vinhos modernos e arejados numa garrafeira que apresenta completa panóplia de todo o Dão, sendo um notável escaparate do que de melhor a região tem e capazes de bailar com a cozinha.

Agora que chove, e que daqui a pouco chegarão, é Outono e há míscaros com arroz de entrecosto, ou de costela em vinha d’alhos; um polvo grelhado cuja fama percorre frutuosa pátria e, nos finalmente, queijo da Serra, doce de abóbora e um honesto, e poderoso, pudim. Para os modernos há uma panna cotta de amoras. Na saída há um acrescento que nos deixa a contento, bem regalados e melhor merendados.

Vindo o encómio custa a petisqueira, para três timoratos comedores, 38 mil reis, ou, preferindo o economês de Frankfurt, 38 singelos euros. Sim pouco para tamanho rebuliço, mas entrando deixe espaço para o saindo que nunca é como começa, é como acaba. Nos entretantos boa mastigação, num contento e provento comedor. Uma sentida, e honesta, cantata à verdadeira cozinha portuguesa.

 

 

Amadeu Araújo, Jornalista