Fundos da torre-1

por Amadeu Araújo | 2018.07.13 - 13:00

 

Não foram muitos, mas foi quanto baste. Em duas penadas os últimos meses trouxeram-me dois envelopes. Mal feito fora, eu que andei lá encavalitado nos tratores, de poceiro às costas, vergado à labuta de um porco no espeto, um arroz de feijão e uma tábua de queijos de lhe meter faca e dedos. Foi essa lembradora que me assaltou quando regressei da boa-vai-ela matinal.

 

Topei-o mal entrei em casa. No desjejum não o tinha visto, ali alapado, esquecido naquela porcelana, entalado entre o micro-ondas e a máquina do café. Corado, com o laranja a ficar retinto e os olhos ressequidos, um pedaço de pasta dura a pedir a faca do Ivo, cutelaria cirúrgica para queijo velho. Desmemoriado de Serpa, alvitrei o esquecimento, reclamei prédica, corporação e preleção. Mas um queijo esquecido, mesmo que duro e velho, bom e merecido, reclama companhia, conversas e letras, prolongamentos e aflições. Espreitando nos fundos da torre, cada vez mais puídos, lá encontrei essas missivas. Guardadas por um Cão, fazendo lembrar Roriz, um Alfrocheiro na Touriga. Coisa colhida em cepa velha, esquecido 20 longos meses antes de carimbado e aviado. Foram esses os envelopes que me chegaram
e nessa manhã alcoviteira resolvi abrir um deles para ver que coisas me cantava. E ali ficou, namorando o lacticínio, perorando por um copo de pé alto e boca larga, a rija cortiça separada de grosso e escuro vidro. De caminho ficou pronta a carne, a batata e os feijões. É agora, avisei-a, de forma solene e perene. Vais marchar e acolitar a merenda, mas, aspergindo o aroma que se afunilava ao gargalo, percebi o recado do Manuel Rogério. Se estiveste 20 meses esquecida nos fundos da adega poderás adregar mais minutos no armário das coisas frias. Saído da brancura, ocupou lugar, distinto, no repasto. No cesto um centeio do Dom João I, pão que muito me apraz rilhar e nas mãos a faca de espetar no peito. Cortei-lhe as badanas, fiquei-me pelo amarelo e roí que nem abade em dia santo.  O resto da botelha, 75 minúsculos centilitros, atirei-os ao copo e fiz-me ao terraço. E por ali fiquei, franzindo a língua, sorvendo frutos e aromas, prolongando o
despautério. Sim isto de abrir um Envelope, Tinto e desejado, reclama uma tarde de sorna, de preguiça, eu e as cento e duas teclas do meu Toshiba, as mesmas que agora uso para vos maçar, semanalmente ao menos ou sempre que rolha e palamenta reclamem o desidério de o estoilar. Chamo-lhe fundos da torre, onde estão as corporações e as amesendações, e esta é prédica de bebrícios e comícios, que esta janela não é uma gávea, tão pouco uma torre sineira!
Sobrepujando e barregando este Envelope Tinto 2015 custa 43 euros, talvez mais barato na Adega do Ribeiro Santo, a pouco mais de duas léguas desta Rua Direita. E o passeio merece a desdita. Já a pinga, escorvada numa tarde de estio, deixou-me feliz e contente. Os dedos também agradeceram a poética.
Entaramelados no teclado, aspergindo o último golo e lambendo a beiçola que ele há garrafas felizes.