Fará sentido uma manifestação de mulheres?

por Filomena Pires | 2018.03.05 - 15:23

A pergunta, feita por um homem, foi o pretexto para ensaiar uma resposta e trazer à memória razões doridas que muitas mulheres me revelaram como impedimentos para me acompanharem a Lisboa no próximo sábado.

Meu caro Zé, preparar uma manifestação de mulheres é um momento privilegiado para comprovar que a igualdade está ainda por cumprir.

A mais dolorosa de todas as ausências, segredada num misto de dor e coragem, feita certamente de muita consciência social e política, falou-me de precariedade. A Ana faz parte do exército de mulheres desempregadas, chamadas à semana, ao mês, quem sabe, para substituir baixas médicas em lares da terceira idade. Um soco, um atordoamento de angústia pensar nestas mulheres! São sobretudo elas quem cuida dos dependentes, em casa como nas instituições onde a exploração tem nome de IPSS. A sobrecarga de um trabalho muito duro, física e emocionalmente, é de tal ordem, que as baixas se repetem sem direito a reconhecimento de doença profissional. É aqui que entra o exército das desempregadas sempre “disponíveis” para viver a prazo com as contas para pagar, os filhos em famílias monoparentais para criar. Entre a revolta e a admiração, fui dizendo que a ida a Lisboa faz crescer a esperança e a partilha, um dia de luta lava a alma. Mas a ausência parece concretizar-se.

E quantas não irão para cumprir o horário de trabalho no 6º dia da semana, contratadas por empresas de trabalho temporário ou mais que isso? É certo que esta escravatura não é exclusiva das mulheres, mas terminada a jornada de trabalho, elas continuam, quase em exclusividade, a cuidar da roupa para lavar e passar a ferro, a fazer a limpeza da casa ou as compras, assumindo responsabilidades não partilhadas. Também esta razão foi invocada para não participar na manifestação – os dias de trabalho arrastam-se muitas vezes por 12 e 14 horas sem qualquer respeito pelas crianças e jovens que crescem nesta ausência de figuras significativas efetivamente presentes.

É verdade que as mulheres ganham menos do que os homens e a sua maioria está na base da pirâmide profissional em empregos não qualificados, embora muitas tenham formação profissional e até formação superior. Na Função Pública, as chefias são ainda muito ocupadas por homens porque a carreira das mulheres continua muito sacrificada pela maternidade. Lembro que a função social da maternidade está consagrada na Constituição da República Portuguesa.

Eu diria mesmo, , que tem havido retrocessos. A partir do momento em que elas querem caminhar para uma sociedade aberta, participar de facto, a ordem social estabelecida reage de formas por vezes muito subtis. Toda a gente parece defender as mulheres, mas achando que tudo está no campo da mulher e do homem, não se reivindicam políticas no campo mais aberto das condições de vida e é também disso que se trata. Estão em causa, nomeadamente, as condições laborais ainda muito agravadas pelas alterações do Código do Trabalho. Há retrocessos que procuram justificar a subalternidade no emprego, a flexibilidade, o tempo parcial e o serviço temporário.

E que dizer da violência doméstica? E do assédio moral no local de trabalho que atinge sobretudo as mulheres? Quantos colegas nossos vivem subjugados pelo medo de não agradar ao diretor todo poderoso?  Estou a falar de docentes, mas a tortura psicológica no local de trabalho é transversal, no privado e no público. Para as operárias como para as funcionárias públicas ele é muito difícil de identificar, denunciar, combater e travar.

Em janeiro foi denunciado que um clube de homens, em Londres, que se reunia há muitos anos para fins de assistência a instituições, fazia assédio sexual pago e dispunha das mulheres para seu prazer durante a jornada de assistência caritativa. Lembras-te do Ballet RoseA mulher tratada como objeto sexual dos poderosos, figura de entretenimento. Isto acontece sempre que há retrocesso e não quando há progresso. Isto, meu caro, é discriminação, humilhação, ofensa à dignidade, não completamente alheia à maior escravatura dos tempos modernos – o tráfico de mulheres e meninas para exploração sexual.

Na sua origem, o Dia Internacional da Mulher é um dia de luta, de reivindicação de direitos, de conquista do direito básico a ser mulher com dignidade, a ser feliz. Sendo que a luta por uma sociedade igualitária exige que as pessoas estejam conscientes do lugar que ocupam, as manifestações servem também para fortalecer essa consciência.

Acredita, bom amigo, que razões não faltam para nos acompanhares a Lisboa.

Professora de Filosofia, Membro da DORV do PCP, Dirigente do SPRC e Eleita na Assembleia Municipal de Viseu pela CDU

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