Faleceu D. Manuel Martins, o “Bispo Vermelho”

por Paulo Neto | 2017.09.24 - 18:09

 

 

Faleceu hoje D. Manuel Martins, Bispo Emérito de Setúbal, à frente de cuja diocese esteve nos tempos conturbados de 1975 a 1998.

Homem de forte carácter, muito interventivo socialmente, ao chegar a Setúbal deparou com milhentas situações de miséria, de exploração e de repressão. O seu papel, à frente daquela diocese regeu-se por uma inequívoca e clara posição ao lado das classes mais desfavorecidas e contra a sua centenária exploração.

A postura cívica sempre assumida, muito centrada em ideais de Fraternidade e Igualdade, tornaram-no um protagonista incómodo para a própria estrutura da Igreja.

Gradualmente, com denodo e muita obra, tornou-se adjuvante de um povo hostil, que via nele um adversário, pelo seu estatuto de homem eclesiástico, conquistando o seu respeito e, até, veneração.

Não obstante as influências sofridas e até alguma ostracização imposta, D. Manuel Martins nunca cedeu a pressões e manteve até ao fim a sua lúcida voz de denúncia, em claro desafio a todos quantos o quiseram silenciar.

Oriundo de Leça de Balio, onde nasceu no seio de uma família modesta, em 1927, faleceu hoje, aos 90 anos de idade, na Maia, em casa de familiares onde há alguns anos vivia retirado.

Tive o gosto de o conhecer pessoalmente e, por diversas vezes trocar sentidas e inesquecíveis impressões. O que recordo, sensibilizado.

Cidadão honorário de Sernancelhe, que trazia no seu coração, nos últimos anos não faltou a uma cerimónia do 25 de Abril, com cuja essência se identificava totalmente, sendo um amigo de José Mário Cardoso e Carlos Silva Santiago, os dois últimos presidentes da autarquia, a quem, publicamente, deu vários testemunhos desse penhor.

Era também um genuíno aquiliniano dotado de vastíssimo saber e de uma pitoresca e desassombrada retórica, que empolgava os seus auditórios, com a assertividade, o conhecimento e o sabor da sua eloquência.

Morreu um Homem, um lutador. Bom, Fraterno e Libertário.

Requiescat in pace