Existe um banco de jardim onde a vida acontece

por Joana Gomes | 2017.03.26 - 13:25

 

 

Esse banco de jardim já viu de tudo e nele não se fazem depósitos de dinheiro, apenas de existência.

É um banco modesto e sem preconceitos, de onde se vê a mudança de cor das folhas das árvores ao longo das diferentes estações. O tal banco já viu o dia virar noite vezes sem conta e já viu um pai ensinar a um filho o que era um pássaro.

Nesse banco já duas pessoas se apaixonaram e outras duas se chatearam.

Já grupos de amigos entoaram canções ao som de uma guitarra e até já se deitou nele um sem abrigo para dormir.

Esse banco já sentiu o vazio de um “pintado de fresco”, já guardou um casaco esquecido e já se sentiu fustigado pelas folhas do Outono.

Já sobreviveu às intempéries, assistiu às lutas dos trabalhadores e serviu de trono para que uma pequena menina virasse princesa por uma tarde.

Já viu aquele pai virar avô e sentar-se ali para descansar de uma longa viagem a que todos chamam “vida”.

Aquele banco já albergou leitores, já foi plano secundário numa pintura e já foi o “tripé” de uma máquina fotográfica em modo “temporizador”.

Já viu a cidade vestida com as luzes de Natal, já ouviu o silêncio dos oprimidos e já sentiu o pulsar do coração que grita de felicidade.

Esse banco é o túmulo das conversas das amigas de terceira idade, o ponto de encontro dos jovens aventureiros ou mesmo o descanso de um peregrino. E não há quem nele se sente, que não acabe a filosofar.

Existe um banco de jardim onde a vida acontece: aquele banco de jardim que, no princípio, era só um banco.