Eu não dou nome a uma tempestade, mas podia!

por Joana Gomes | 2018.01.09 - 20:00

 

Eu sou apologista de que devemos dar nomes às coisas. Sou mesmo. O tão afamado chamar os bois pelos nomes. Desde que não sejam nomes feios, por mim está tudo bem. A questão é: por que razão se lembraram de dar nomes às tempestades em Portugal? Quero dizer, o problema não está nos nomes em si, embora tenha ficado fula por não ver lá o meu. É que eu não dou nome a uma tempestade, mas podia. Dependendo da lua, vá! Mas, adiante… O problema está em quais tempestades?

Sim, quais tempestades? É que não andamos nós a ler Fernando Pessoa para aprender que um dia de chuva é tão bonito quanto um dia de sol, para depois chamar de tempestade a um está de chuva. Muito embora para o meu tipo de cabelo qualquer grau de humidade existente na atmosfera já possa ser considerada um verdadeiro apocalipse. Bem que posso sair de casa de touca e chamar àquilo de dilúvio. Mas isso são questões pessoais. Outra coisa totalmente diferente é criar uma tabela de A a Z e deixar meio país em pânico porque vem lá a Ana.

E, realmente, a Ana ainda fez alguns estragos. Muito em parte porque já não víamos uma gota de chuva há meses e depois porque tive que aturar a minha mãe a dizer que já não aguentava com tantas carumas para varrer no pátio.

Já em relação ao Bruno, nem sei o que vos diga. Sinceramente, tenho um amigo com o mesmo nome que é bem capaz de causar mais estragos e nem é preciso estar num dia mau! Eu até posso atestar que saí de casa nas calmas para dar um passeio pelas ruas da cidade e ir tomar café ao Mundial. A única coisa que apanhei foi chuva. Chuva, senhores! Um simples chuva, que nem nome tinha.

Claro que, como sou uma rapariga cheia de fé, logo me atrevi a pensar calma, Joana, nada está perdido, vem aí a Carmen. Andei dias a alertar para o facto. Desmarquei jantares e cafés com amigos porque vem lá a Carmen, o melhor é ficar por casa – sim, eu sou o tipo de pessoa que cria os seus próprios alertas vermelhos e planos de contingência. Mas quem é a Carmen?, perguntavam-me eles. E eu enchia o peito para dizer que era a tempestade. Até que, certo dia, estava eu à mesa em família a dizer que vinha lá a Carmen quando o meu pai me diz, com a mesma simplicidade com que me disse há vinte e tal anos que o Pai-Natal não existia (mas existe, calma!!), que a Carmen já passou!

Se isto não é das coisas mais tristes na vida de uma tempestade, nada mais é. Passou e nem carumas levantou. Até a Fada dos Dentes se dá ao trabalho de deixar uma moeda de baixo da almofada. Já a Carmen, nem chuva, nem vento… nem bom casamento.

Em abono das tempestades deste mundo, é bom que caia um nevão em breve, daqueles bem mal-humorados, que nos obrigue a ficar por casa, sem poder ir trabalhar e ao qual se possa chamar pelo primeiro e segundo nome. Porque uma tempestade à séria tem que ter dois nomes, tal como os nossos pais nos chamavam – aos berros e de colher de pau na mão – quando fazíamos asneira da grossa em pequenos!!