Esta Rua Direita é de todos os que a queiram ler

por Fernando Figueiredo | 2013.11.28 - 00:24

Se o leitor se der ao trabalho de analisar o panorama das grandes opções estratégias comunicacionais entre os países da União Europeia irá, apesar das muitas directivas comunitárias de tentativas de normalização e directrizes de regulamentação, encontrar muitas diferenças. Veja-se por exemplo o caso do audiovisual e logo aí os Países divergem na autorização ou não da abertura de televisões regionais e locais.

Na maioria das pequenas e médias localidades europeias normalmente existe apenas um único jornal, uma única rádio e excepcionalmente uma única televisão. Portugal não foge a esta regra, onde normalmente existe um único jornal ou uma única rádio por município (quando existe), o que anula a concorrência. Ao contrário do exemplo excepcional da região da Galiza, onde o mercado local é competitivo, sobretudo nas cidades de média e grande dimensão, com vários títulos locais, várias edições locais ou as duas coisas e onde até existe uma “Axencia Galega de Noticias”, por cá, a nível regional e local continuam também a manter-se alguns órgãos de comunicação muito fulanizados que sobrevivem mercê unicamente da carolice dos seus animadores, apesar da pressão para a empresarialização do subsector.

Com a crise que se vive e que no campo da imprensa se alarga para lá do problema do baixo poder de compra ao desinteresse pela noticia, pela ausência de participação cívica e politica na comunidade, não é de estranhar a volatilidade a que temos assistido na imprensa local mas é igualmente sabido e tido como certo que quando se fala da liberdade de expressão do jornalismo, é preciso também ter consciência do quão difícil é ter um jornalismo livre em Portugal e ao mesmo tempo assegurar a sua sustentabilidade económica. O grande problema é que, muitas vezes, essa liberdade de expressão é condicionada pela necessidade dos subsídios, dos apoios, da publicidade de quem tem o poder, seja ele privado ou público.

Sabemos o quão muitas câmaras condicionam em grande medida aquilo que hoje se critica na Madeira – fazem isso ao nível dos seus órgãos de comunicação locais, impondo a sua sua vontade. Quando algum se torna incómodo, seca-se a torneira e as pessoas acabam por se render, porque o estômago bate as horas todos os dias, e há filhos para criar, despesas para liquidar. São realidades que há que levar em conta e das quais hoje dificilmente se foge. No papel, a questão da publicidade comercial – que é um dos factores fundamentais para a sobrevivência da comunicação social local e regional – e o facto de em muitos casos a percentagem que a lei obriga na publicidade institucional não estarem a ser cumpridos tem aniquilado muito jornal local. Muitas das vezes, as repartições de finanças e os tribunais, em vez de publicarem nos jornais locais, publicam no jornal nacional, que tem maior tiragem, mas onde provavelmente sai com uma letra minúscula que não se consegue sequer ler – talvez haja intenções por trás disso.   No campo das rádios locais, depois da “canibalização” a que foram sujeitas pelas emissoras de dimensão nacional, desapareceu a “imprensa de proximidade”, a entrevista local com o dirigente local deixou de se fazer, a reportagem local directa desapareceu e hoje, ninguém em Lisboa consegue “apalpar” a realidade dos sentimentos, do ar que se respira numa comunidade local e isso, na minha opinião, merecia ser repensado.

A questão dos recursos humanos, se são ou não escassos: temos hoje uma multiplicidade de cursos de jornalismo e escolas que ensinam comunicação, não faltam licenciados. O problema é que os órgãos de comunicação social não têm condições económicas para recrutar licenciados. Hoje assiste-se a passar de muito daquilo que era profissionalismo para o voluntarismo. Ou seja, um regresso ao passado.

Cada vez há mais pessoas que, gratuitamente, aceitam colaborar com rádios locais e com jornais, e fazem as suas crónicas e artigos de opinião, esse espaço vai sendo ocupado pelo voluntariado. Não sei se será uma boa opção, porque estamos a criar um naipe enorme de pessoas altamente qualificadas que não estão a ser aproveitadas como deve ser. Não se faz jornalismo de investigação, a reportagem de fundo, o fundamentado estudo de opinião, a noticia séria, informativa, filtrada com os dois lados da questão mas tão só o copy past do comunicado recebido, da critica lida neste ou naquele blog e pouco mais, e neste cenário há quem a isso ainda seja capaz de lhe chamar jornalismo.

Diria que hoje, a grande expectativa da maioria dos órgãos de comunicação social local e regional, é sobreviver. É saber se daqui a um mês ainda estão vivos. Esse é o grande problema.

Creio contudo, ser ainda verdade que existe uma consciência regional, e que os órgãos de comunicação local e regional devem dar corpo a essa consciência regional, e talvez por isso o poder central e centralista não está muito interessado em que haja uma expansão de um sector da comunicação social que foge ao seu controlo, e que dissemina esse espírito regionalista, esse bairrismo, esse gosto pela terra e pela região como só esses órgãos conseguem suscitar.

A comunicação social local e regional deve cumprir as funções clássicas da comunicação social: informar, formar, entreter, etc mas ser também um espaço convivial e de conivências. Sendo, em primeiro lugar, um útil veículo de informação deve criar vínculos entre os que nela se envolvem, pelo que a troca de informação contribui para a integração e reintegração constante dos membros da comunidade.

Terá ainda que ter uma importante função de produção simbólica comunitária, agudizando o sentimento de pertença e permitir ver o “outro de fora” como genericamente diferente, enquanto o “outro daqui” como genericamente semelhante. A esse nível, pode também ser um veículo de resistência às pressões globalizadoras e desterritorializadoras mas igualmente um veículo de projecção do local no global aproveitando das plataformas digitais e chegando dessa forma a toda a diáspora.

Deve funcionar ainda muitas vezes como veículo de petição e de representação ou de sectores da comunidade ou de toda a comunidade perante terceiros, sobretudo quando se envolve num jornalismo de causas.

Por fim, como não podia deixar de ser, a comunicação social regional e local é também um espaço simbólico onde se desenvolvem competições, principalmente entre os detentores do poder político local. Noutras ocasiões, a comunicação social regional e local contribuirá para o aparecimento de espirais do silêncio a nível regional e local, quando a opinião veiculada pelos media é confundida com a opinião maioritária ou única e as eventuais minorias (ou maiorias que julgam estar em minoria) se calam. Esta situação poderá ocorrer quando os media regionais e locais, em vez de assumirem uma condição de espaço público polifónico, são concentraccionários e controlados por poderes (e muitas vezes pelo poder unipessoal do cacique local).   Como sou um crédulo sonhador defendo que até os deputados na AR deviam andar sempre de jornal debaixo do braço e hoje com as novas tecnologias isso fica para eles, para muitos emigrantes, para todos os viseenses espalhados pelo Mundo à distância de um clique, pois só assim informados poderemos em consciência e com espirito critico discutir a comunidade e decidir em conjunto do seu futuro.

Foi e é por tudo isto que decidi aceitar com assumido gosto o convite feito pelo Paulo Neto para me passear pela “Rua Direita”. A partir da “Senhora da Beira” procurarei observar em todas as direcções o que se vai passando pelo concelho e sem preocupações de especial ou pessoal interesse irei deixando “Rua Direita” abaixo a minha leitura desses factos e a expressão da minha cidadania. Até já!

Coronel na reserva, cidadão no activo, politico novato à antiga e às direitas, amigo do seu amigo, inconformado com a injustiça social, intolerante com a incompetência, exigente com a vida, blogger por devoção e benfiquista sem convicção.

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