Esperas!

por Ana Albuquerque | 2018.02.10 - 23:24

 

 

Chegam. Tiram uma senha. Mostram o cartão azul. Passam-no através da abertura de vidro e sentam-se à espera de serem chamados.

Olham uns para os outros, na sala com cadeiras verdes e beges, uma mesa redonda ao centro, com revistas velhas.

A televisão num canto da sala. O som pouco nítido do noticiário. São nove horas de uma manhã fria, apesar de solarenga. Permanecem calados. As vozes chamam-nos roucamente através dos intercomunicadores. Um médico esqueceu-se de carregar no botão e não desligou o aparelho. Na sala de espera, assiste-se, em direto, ao início da consulta. Ela levanta-se para avisar do lapso. Volta o som da televisão.

Olham-se desconfiados. Não há só idosos na sala. Seres humanos que a vida prematuramente atirou para o campo do esquecimento. Que pensará cada um deles?

Chegou um segurança fardado. Simpático. Sorridente. Por enquanto, que ainda é cedo.

Alguns levantam-se para desentorpecer as pernas. Têm passos pesados, arrastados. Olhares vagos. Olhares sem expressão. Doentios. Sem brilho. Começam a ficar impacientes. Sentem-se enjaulados. Vão contando as tábuas que formam quadrados dispostos simetricamente no chão de madeira envelhecida. As janelas altas de vidro martelado têm grades. Entra pouca luz. Seis lâmpadas elétricas escoam uma luz branca quase asséptica.

O som da televisão não consegue abafar o chiar das cadeiras verdes, dispostas como se estivessem num autocarro de partida para uma longa viagem, sem regresso.

Chegam mais e mais. Os da segunda consulta. Os da primeira estão quase todas ainda na sala de espera, à espera.

Cada vez que algum vai à casa de banho, uma luz verde acende-se e ouve-se um apito.

Os doentes vêm acompanhados. Podem cair. Podem não saber o caminho para os gabinetes. Podem perder-se na saída. A empregada de bata azul aproxima-se da boca da sala e chama num tom de voz impessoal, radiofónico: Sr. Francisco, Sr. Joaquim e Sr. João façam o favor de vir comigo!

Um quarto de hora depois regressam. Trazem as receitas para os comprimidos que os vão continuar a acalmar e a aceitar, sem esbracejar, a vida. Há uns que nasceram normais. Outros demasiado lúcidos. Têm de tomar comprimidos para controlarem as emoções e as esperas.

Ela continua sentada, à espera.

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.