ERA UMA VEZ…

por Cílio Correia | 2017.03.26 - 13:08

 

Deixem-me contar uma história simples, do tempo em que as árvores e as plantas falavam entre si.

Havia duas figueiras no meu quintal. As figueiras foram crescendo, vigorosas, com um tronco forte e pernadas robustas, uma das quais com o tronco principal inclinado de tal forma, quase como uma escada. Uma, dava figos “pingo de mel” a outra, os “caralhotos”, aqueles figos pretos, pequenitos, que dão para secar. Cresceram no quintal ao lado de duas tangerineiras que esmagavam, sem a mínima solidariedade. Nem queriam saber da vizinhança. As duas tangerineiras, de pequeno porte, viviam sufocadas e oprimidas, ressentiam-se, e só cresciam o que as figueiras deixavam. A produção de tangerinas era escassa. Já quanto aos figos era um ver se te avias, e quando começavam a ficar maduros atapetavam o chão do quintal. As solas dos sapatos ficavam sujas, com os figos esmagados colados à sola, mal nos descuidávamos. Uma chatice, assim ao jeito de não há bela sem senão. Era delicioso comer uns figos pingo de mel, ao lanche, apanhados diretamente com um naco de boroa de milho. Mas a relação entre as árvores foi-se agravando. As figueiras começaram a envelhecer e tiveram que ser cortadas para dar lugar a um novo arranjo do quintal. As tangerineiras aplaudiram. Com o mal dos outros posso eu bem, assim pensaram as tangerineiras, que deram uma “senhora pulada”.

No lugar duma das figueiras foram plantadas roseiras e no da outra, um limoeiro, mais ajustado ao espaço e com um melhor convívio entre as árvores. Uma das tangerineiras, ao cabo dos anos, acabou por morrer, resistindo a outra que ainda lá está, assim como o limoeiro que continua de boa saúde.

Quem nunca deu sinais de incómodo com as mudanças foi uma parreira que continua a dar uvas de mesa, “sabe a rosa”. Outros tempos.