Em busca da Nápoles de Elena Ferrante

por Amélia Santos | 2017.12.27 - 17:12

 

Depois de ler a tetralogia A amiga Genial, ficou em mim, e certamente em muitos leitores, um desejo fervoroso de ir a Nápoles. Talvez na esperança de encontrar por lá as personagens que nos encheram a alma e continuar com a história ou pelo menos revivê-la… Assim, juntamente com duas amigas ferrantinas, organizámos a viagem e fomos em busca da Nápoles da nossa imaginação. Não foi propriamente um imaginário de beleza que nos moveu, mas sim entrar em bairros com vida, onde tudo acontece, muitas vezes da forma mais crua e tosca. Não procurámos uma cidade para turista, organizada, repleta de monumentos e edifícios emblemáticos, com cenários idílicos. Se fosse isto a mover-nos, certamente não escolheríamos Nápoles, porque a cidade é a antítese da cidade «para turista ver», do conceito tradicional de beleza…

Quisemos mergulhar nos seus bairros, como se se tratasse do bairro onde Lila e Lenù, as amigas geniais, cresceram. Foi, na verdade, isso que nos apaixonou. E é tão fácil sentir e respirar toda a ambiência descrita por Elena Ferrante ao percorrer os bairros do centro histórico da cidade. Sim, o centro histórico é isto, o caos, uma enorme confusão e desordem, onde os napolitanos efetivamente vivem diariamente e têm as suas vidas (des)organizadas. A cidade é o lugar de todos. É incrível, mas incrível mesmo, por exemplo a quantidade de estendais que enfeitam todas as ruas, todos os edifícios, todas as casas. A roupa pendurada nas varandas funciona como telas multicolores que os napolitanos exibem para os vizinhos e que eventualmente revelam também uma inconsciente (des)preocupação estética, porque acabam por esconder alguma degradação da pintura dos edifícios e acentua o pitoresco das ruas. Ruas estreitas, labirínticas que nos fazem perder e desorientar, regressando ao mesmo lugar minutos depois… E esta é também a magia da cidade.

A magia que se apresenta de igual forma dissimulada nos ruídos, vozes, conversas, gritos, apitos permanentes. Motas e carros amontoam-se e tentam fintar o transeunte, porque a pressa impera. Há que entender que não há tempo a perder. Tudo fervilha, tudo precisa de ser feito sem calma, como se toda a gente estivesse atrasada para alguma entrevista de emprego. Tudo acontece com as emoções ao rubro.

As pessoas gritam da varanda, chamam os filhos de casa, como antigamente nas nossas aldeias… E eles respondem e gritam também. E discute-se com uma vizinha de varanda para varanda e lava-se a roupa suja à janela, antes de a estender… Nápoles é uma cidade frenética e, por isso também, odiada pela narradora da amiga genial… que, ao mesmo tempo que anseia fugir de lá, sente uma necessidade premente de voltar para recarregar as baterias do seu lado criativo, para se inspirar… porque aqui vive-se com paixão, com ardor e chamas…

Pois, os napolitanos são arrebatados e vivem a vida intensamente. Não será por acaso que um dos símbolos da cidade é o coração, o coração que ama e palpita. Que facilmente vem à boca. Que se espelha nas paredes repletas de referências a entes queridos que morreram e são homenageados e recordados nas paredes de casa, com fotografias e flores e inscrições fúnebres e santos… Muita emoção perpassa pelas ruas percorridas sem nenhuma preocupação ou preconceito. É a vida no seu esplendor aquilo que mais se sente… Também eu, tal como Lenù na sua primeira impressão de Nápoles, fiquei “assoberbada com o barulho do trânsito, com as vozes, com as cores, com o ar de festa por todo o lado…

Todo este cenário de desordem delirante termina quando se sobe de funicular até ao castelo e se tem aquela visão da cidade ao longe. Magnífica numa conjugação de cores de outono, onde o casario constitui uma harmoniosa tela, decomposta em fotografias absolutamente dignas de postais. Esta será a imagem de Nápoles amada por todos os que, conhecendo os dois polos, entendem que nas antíteses encontramos tantas vezes o segredo da harmonia. Uma visita a uma cidade assim, faz-nos questionar o conceito de belo e entender a beleza nas suas mais invulgares manifestações.

Ah… encontrei por lá a Lina e a Lenù e espiei-as à distância. Em alguns momentos, creio que andaram connosco de mãos dadas… Fiz compras na charcutaria de Stefano Carracci, entrámos na pastelaria dos Solara para comer qualquer coisa e, desde a Piazza Garibaldi, observámos Nino Sarratore… A Nápoles de Elena Ferrante saiu da nossa imaginação e transformou a realidade em ficção…

(Fotos DR)

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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