ELEIÇÕES LEGISLATIVAS: FIM DO “CAVAQUISTÃO” E TRAMBOLHÃO DO CDS

por Carlos Vieira | 2019.10.09 - 18:24

As eleições do passado domingo, deram uma vitória mitigada ao PS que ganha mais 20 deputados, mas não consegue maioria absoluta. Os eleitores portugueses já aprenderam a não dar cheques em branco.  O PSD perde 12 deputados, sendo 2 de Viseu, círculo onde ficou com os mesmos 4 deputados eleitos pelo PS, que tinha três, confirmando o fim do “Cavaquistão”. Como diz o povo: “a tradição já não é o que era!”

O CDS perde 13 deputados, incluindo Hélder Amaral, candidato por Viseu, que já pediu a demissão de todos os cargos no partido, juntando-se à queda de Assunção Cristas que também atirou a toalha ao chão e anunciou que não voltará a candidatar-se à liderança.

A CDU  perde 5 deputados, mas, no entanto, permanece como uma importante força de resistência operária e popular ao avanço do neoliberalismo conservador e reaccionário da Inicativa Liberal, que elegeu 1 deputado, e, sobretudo,  à subida preocupante da extrema-direita racista e xenófoba que agora chega à Assembleia da República pela eleição de um deputado do Chega.

Este esboroamento da CDU prejudicou o PEV, que apenas viu eleitos dois deputados, por Lisboa e Setúbal,  ficando de fora Eloísa Apolónia, candidata por Leiria talvez para fazer frente ao candidato do BE, Ricardo Vicente,  pós graduado em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável, mestrado  em Engenharia Agronómica, activista do movimento Peniche Livre de Petróleo e dos Precários Inflexíveis,dirigente distrital e nacional do BE,  que veio a ser eleito deputado.

 A “emergência climática” que vivemos hoje em Portugal e no Mundo não foi aproveitada pelo PEV, que agora está a pagar a falta de coragem para arriscar ir a votos de forma autónoma, aparecendo ao eleitorado mais como um “grupo de trabalho ambientalista” do PCP.

O Bloco de Esquerda foi o segundo grande vencedor , confirmando-se como terceira força nacional, ao manter os seus 19 deputados, apesar de não ter almejado os dois dígitos de 2015.

Embora não tenha conseguido eleger Bárbara Xavier, em Viseu, prejudicado pelo aumento da abstenção (aumento que devia preocupar e fazer reflectir toda a gente),  o BE confirma a sua posição como 3º partido em quase todos os distritos, incluindo os do interior. Aliás, o BE, embora tenha perdido deputados no Porto e na Madeira, aumentou os eleitos por Aveiro e Braga e continua a crescer em todo o interior, onde solidifica a sua organização e implantação, augurando um futuro mais democrático e inclusivo para estas regiões tão esquecidas e abandonadas pelo centralismo macrocéfalo de Lisboa. O distrito de Viseu, onde o BE ficou a 1.750 votos de eleger uma deputada  (que teria sido eleita se o despovoamento não levasse à redução de nove para oito deputados por este círculo eleitoral) é um bom exemplo desse enraizamento do BE por todo o território nacional.

O PS beneficiou eleitoralmente com as medidas propostas e negociadas pelos partidos de esquerda que apoiaram o seu governo, mas não deu garantias de continuar a “geringonça” nos mesmos moldes, havendo quem tenha interpretado as declarações de António Costa como a opção preferencial por acordos “limianos”. Já Guterres conseguiu governar assim, com abstenções do PSD e do CDS. A grande questão é se António Costa quer ou não continuar a consolidar uma solução à esquerda, com estabilidade e com uma política de recuperação de rendimentos e do poder de compra dos portugueses mais desfavorecidos, de reposição de direitos laborais, de desenvolvimento sustentável com respeito pelo ambiente, de investimento nos serviços públicos, a começar pela Saúde e Educação, hoje ameaçados pelas políticas de privatização e municipalização tão do agrado da direita, tantas vezes com a complacência ou cumplicidade dos governos do PS, já para não falar das cativações de Centeno. 

O PAN foi, a par do PS e do BE, o outro grande vencedor, com a eleição de 4 deputados. A ver vamos se a sua indefinição ideológica e alguma errância política se agrava ou intensifica com as pressões e o previsível aliciamento do Poder.

Quanto ao Livre, temos a agradecer-lhe a eleição de Joacine Elysee Katar Moreira, historiadora de 37 anos, líder e activista do Instituto das Mulheres Negras, que assim poderá juntar forças a outra grande activista anti-racista, Beatriz Gomes Dias, fundadora e dirigente da Djass – Associação de Afrodescendentes e activista da SOS Racismo, eleita pelo BE, também em Lisboa. Embora a causa da igualdade e da liberdade (irmãs siamesas que nunca poderão viver separadas uma da outra), bem incrustada na matriz socialista e revolucionária do BE, sempre tenha estado no centro da política do partido coordenado por Catarina Martins.

Carlos Vieira e Castro