E porque em tempo de férias urge repousar!

por Amélia Santos | 2016.08.10 - 00:21

 

Num ano especialmente difícil da minha vida profissional, em que por diversas vezes me senti à beira-esgotamento, com o cansaço natural do trabalho aliado à preocupação de estudante, com viagens constantes pelo meio e a sensação de que não se consegue fazer tudo, nem tudo bem feito, porque o tempo não estica mais… eis que, numa interrupção da Páscoa planeio uma viagem de sonho a São Tomé e Príncipe. Seria a viagem que me iria recarregar baterias para terminar o extenuante ano letivo e, como o local, para além do sol e do mar (num ano de chuvas ininterruptas em Portugal), é paradisíaco, comecei a ganhar fôlego extra uns tempos antes da dita viagem. A sensação assemelhava-se à mesma motivação que fazia salivar os ratinhos de Pavlov… e os preparativos da viagem já começavam a ser a vivência da viagem…

Mas dois dias antes de partir para as ansiadas férias, uma nuvem cinzenta veio colocar-se bem em cima da minha cabeça, na figura de um colega com quem mal me relacionava, mas que não hesitou em queixar-se de uma avaliação que eu fizera ao seu filho. Este eco chegou-me indiretamente, mas foi o suficiente para me turvar o espírito. O pior de tudo, creio, foi não ter tido a frontalidade de falar comigo e de me pedir explicações, ainda por cima sendo ele pai do aluno mais arrogante e mal formado da turma…

O que é certo é que parti para a tal viagem de férias com esse problema sempre a acompanhar-me e penso que não houve um único dia, desses sete supostamente idílicos, em que essas personagens não me tenham acompanhado e não se tenham intrometido nos meus programas…

Era mais jovem e não tinha ainda a capacidade de me abstrair de algumas coisas e de expulsar fantasmas, como tenho hoje… E isso pesou, custou-me muito caro e nunca mais esqueci que uma viagem maravilhosa acabou por ficar manchada com este infeliz episódio.

Surgiu-me de novo na memória esta viagem e este episódio quando um destes dias, num dos seus maravilhosos artigos, o padre José Tolentino de Mendonça refletiu sobre o verbo «repousar» e nos questiona a nós leitores: “Porque resistimos tanto a parar e a encontrar formas de repouso que nos devolvam a nós próprios?” Porque, responde ele, “(…) o repouso tantas vezes começa com a sensação de um esvaziamento, surpreendente, incómodo, duro de lidar.”

No meu caso, o difícil foi encetar o processo de esvaziamento e desligar a ficha da corrente. Sem esse esvaziamento não é possível existir repouso! Nem o meu, nem o de muita gente. Mas, tal como quase tudo na vida, também isto se aprende e se treina e a aprendizagem é mesmo o processo mais extraordinário do desenvolvimento do ser humano.

Não partilho a opinião de que os feitios não se mudam e nem que “burro velho não aprende línguas”. Mentira, mudam, sim. Mudam-se os feitios e muito. E os velhos também aprendem línguas e linguagens novas e renovadas formas de comunicação, interpretação e de reação. Basta querer e fazer o esforço que tudo na vida requer. E também se aprende sempre, até ao fim…

Assim, conclui Tolentino de Mendonça “aprender a repousar é também aprender a libertar-se do imediatismo das nossas expectativas e dos nossos desejos muito idealizados.” Aprender a repousar ajuda-nos a viver melhor e a tirar verdadeiro partido de nós próprios e dos nossos momentos.

E, “esse desistir de resolver problemas ou de pensar na pressão que representa o momento seguinte, esse ser simplesmente acaba por revelar-se mais reconciliador do que as nossas extenuantes e fragmentadas jornadas de corta e cola.”

Neste período generalizado de férias, aproveitemos todos da melhor forma o repouso merecido e usufruamos do valioso encontro connosco próprios, como se os nossos olhos vissem e contemplassem pela primeira vez a paisagem e as cores…

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996)
Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008)
Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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