É A FLOR DOS JARDINS

por José Carreira | 2017.07.16 - 13:58

 

 

 

 

O que somos é o modo como nos vêem.  A energia é outra coisa. Está lá, mas só alguns a emanam.

Isabel Lucas

 

A edição de 2017 dos Jardins Efémeros tem sido alvo de polémica, com muitas críticas nas redes sociais. A crítica, desde que construtiva, é saudável e ajuda à evolução da nossa sociedade. Contudo, lamento que muitos dos comentários sejam absolutamente descabidos, despidos de consistência e gratuitos, lançando um anátema, muito provavelmente injusto, sobre quem ousa experimentar, criar, inovar e, com toda a certeza, expor-se à crítica, à qual ninguém está imune. Seria mais cómodo manter as plantas e esquecer a programação? Seria, pois, mão não seria a mesma coisa….

Ainda assim, também gostaria de ter as plantas, o jardim, o verde, a frescura da cascata, os elementos que estimulavam a descoberta e predispunham para ouvir sons desconhecidos e observar instalações experimentais e inusuais, funcionando como pedra de toque para a formação de novos públicos…

Mais do que um jardim, o importante é encontrar uma flor, aquela flor, a nossa flor, a que nos fez parar, observar, pensar e procurar. Encontrei nos JE a (Inês) FLOR que criou o projeto Mulheres Jardim – Artes Visuais | Instalação – “que consiste numa série de dioramas que ilustram a mulher em paradoxos de si mesma, explorando a crueza e a brutalidade, mas também a delicadeza e sonhos que ela alberga.”

Adorei o trabalho da artista exposto na antiga loja FETAL, na Rua Direita. Os Jardins Efémeros permitiram-me, direta e indiretamente, conhecer três novos artistas que, ainda que ocasionalmente, se interligam: Inês Flor; Zadie Smith e Benjamin Clementine.

A escritora britânica Zadie Smith já estava na minha lista de prioridades, referenciada por amigos que fazem da leitura uma prática diária, eclética e seletiva. A capa da revista Ípsilon (Público, 14 de julho de 2017) tem uma fotografia da autora que considera que “O escritor é um adolescente a fazer perguntas”.  Ao ler as 5 páginas da excelente entrevista de Isabel Lucas, enquanto bebia um café na Fnac de Viseu (o serviço mudou e melhorou, ufa!), senti o impulso, aquele impulso (os leitores sabem ao que me refiro), dirigi-me às estantes, peguei em dois livros de Zadie: Swing Time e NW: História de Uma Cidade.   Enquanto lia a crítica ao livro – “Swing Time: título retirado ao filme de Fred Astaire, é o mais belo romance de Zadie Smith.”, surge uma jovem que começa a fazer ilustração. O traço foi-me imediatamente familiar, a utilização da esferográfica, as tonalidades azuis e o delinear do rosto de uma mulher não deixaram margem para dúvidas, estava ali a artista que tinha conhecido, há poucos dias, e que tinha criado um jardim, embora se chame Flor, Inês Flor. Os traços azuis surgiam ao som de um artista que desconhecia, nada que o Shazam não resolva… a simbiose dos traços da Flor com as melodias de Benjamin Clementine conjugavam-se na perfeição. Entretanto, decidi adquirir o mais recente livro de Zadie Smith que começa por narrar a história de duas raparigas mestiças que sonham ser dançarinas:

“Ambas vivíamos me bairros sociais, nenhuma recebia subsídios. (motivo de orgulho para a minha mãe, de escândalo para a de Tracey: muitas vezes já havia tentado, sem êxito, «conseguir o de incapacidade»”.

Vou voltar à leitura, enquanto tocam os 11 temas do álbum At Least For Now.