Duas folhas soltas – Eis a floresta em Vila Nova de Paiva….

por Alexandra Campos | 2019.07.25 - 17:59

A floresta, que ocupa mais de um terço do território do concelho, é fonte de emprego, vendas, lazer, biodiversidade, sequestro de carbono, protecção do solo, regulação da qualidade da água e do ciclo hídrico. Mas a soma de decisões erradas trouxe como factura os incêndios, atiçados pelo desordenamento e consequência do abandono florestal.

Poucas coisas têm tanto valor em tão diversas frentes. A floresta tudo dá – gera riqueza, pincela paisagens únicas, alberga um sem-número de vidas, limpa os ares, purifica águas, protege o solo, dá emprego, deslumbra turistas e ainda enriquece a gastronomia. Dá resposta a cada um dos três pilares do desenvolvimento – economia, sociedade e ambiente. A sua evolução entrelaça-se com a do restante país, nas suas estórias e na sua História. Como o faz no presente e promete no futuro.

Vila Nova de Paiva tem mais de um terço do seu território coberto com florestas e bosques. Este é um dos maiores e mais importantes recursos naturais do concelho e já deu provas disso. Desde sempre. Do fogo, abrigo e alimentação com que protegia as gentes de outrora, à cinergética ou à prática de resinagem que ainda hoje é a seiva que brota de resinosas como Pinus pinaster (pinheiro-bravo) que alimenta uma fatia importante da economia nacional, a floresta deu o material que levou os portugueses a outras paragens como foi o caso da navegação ou que permitiu que a ferrovia assentasse carris pelo país fora.

Em tempos remotos, eram os Quercus que imperavam. De seu nome comum, os carvalhos. Ancestrais são também os castanheiros, as cerejeiras-brava, os loureiros, os teixos, as bétulas, os salgueiros, os amieiros ou os freixos, entre muitos outros. A necessidade de terras aráveis e pastos deu a primeira machadada nessas florestas. Ao longo da História do concelho, a paisagem sofreu tremendas mudanças, ora porque se abriam clareiras para agricultura e pastagens, ora porque os recursos florestais eram necessários, como foi o caso das traves para os caminhos-de-ferro.

Nesse meio tempo, a floresta alimentou, tanto com as espécies que acolhia como com os seus frutos e bagas, iluminou, aqueceu, abrigou e deu rendimento às famílias. Hoje continua a fazê-lo, embora as protagonistas sejam outras. Uma há que resiste há séculos: o sobreiro, uma espécie de extraordinária generosidade. É paisagem, é biodiversidade, é protecção do solo, é sumidouro de carbono e mais, muito mais.

A mais antiga destas novatas é o pinheiro-bravo, campeão das campanhas de florestação do século passado. No concelho acabou por dominar boa parte da paisagem, alimentando serrações, oferecendo a resina cujo uso acabou por cair em desuso. Durante anos, liderou a tabela das espécies predominantes no país e do concelho. Mas é uma espécie hoje em declínio, sobretudo devido aos incêndios que encontram na sua resina um combustível de excelência e na continuidade das plantações o pasto ideal para ganhar velocidade e força.

Acabadinho de chegar ao primeiro lugar das árvores com maior presença no concelho de Vila Nova de Paiva está o tão mal-afamado eucalipto, estrangeiro dos quatro costados, vindo da Austrália e Tasmânia e que ainda hoje é visto como uma maldição. Acusado de mil e uma tropelias, o seu maior defeito é o que os Homens fazem dele. Ou mais concretamente, onde e como o plantam. Manchas contínuas em locais inapropriados é receita certa para o disparate, criam um excelente pasto para os incêndios. Erros que o tempo e o conhecimento estão agora a tentar corrigir. Mas se a floresta é de facto fundamental, podendo ser uma mais-valia económica do concelho a floresta não se reduz à equação papel-madeira-resina.

Há todo um mundo diversificado que tem, como principal vantagem, a oferta de respostas para muitas comunidades, como Vila Nova de Paiva, que ainda persistem nos meios rurais. Alguns exemplos: a castanha também assim como o medronho, a aguardente, o mel, os cogumelos ou a caça são algumas das oferendas das florestas do concelho. A floresta é também o território de excelência para o turismo, outra produtiva área associada ao turismo de ambiente. Das paisagens que mudam a cada curva nas serranias tão bem descritas por Aquilino Ribeiro, «…Terras do Demo. Aldeias montesinhas que moram nos picotos da Beira, olham a Estrela, o Caramulo, a cernelha do Douro e, a norte, lhes parece gamela emborcada o Monte Marão. O vale, que as explora, trata-as despicientemente por Terras do Demo. Sem dúvida, nunca Cristo ali rompeu as sandálias, passou el-rei a caçar ou os apóstolos da Igualdade em propaganda. Bárbaras e agrestes, mercê apenas do seu individualismo se têm mantido, sem perdas nem lucros, à margem da civilização…», Aquilino Ribeiro em Terras do Demo, à deslumbrante simplicidade de zonas ripícolas cuja vegetação existente lhe é tão caracteristíca associada à prática de pesca e à boa qualidade das águas, ou até mesmo o papel dos matos no passado e no futuro… do nosso tempo, «… [Nave] Para o cume da serra, onde o marco geodésico acusa os seus 1110 metros de altitude, a vegetação predominante é a urgeira, de que o indígena extrai o carvão para as forjas, e o mato galego, em que entra toda a casta de arbustos, sargaço, fieito, carpanta, bela-luz, rosmaninho, esteva, etc, etc. Estas plantas estão ali desde o tempo das cavernas e acusam proporções inusitadas. Uma haste de carqueja chega a medir mais de dois metros de altura…», Aquilino Ribeiro, peças úteis para a criação de pellets procura contribuir para dar respostas estratégicas a grandes desafios que se colocam ao nível da aproveitamento de material lenhoso de espécies arbustivas (matos de espécies como giesta, tojo, urze, etc., espécies invasoras acácias, robinias, etc.) em ciclos curtos e com itinerários técnicos cujo balanço energético seja positivo, salvaguardando a erosão dos solos e a emissão de carbono através de queimas in situ de material lenhoso, pretendendo contribuir para dinamizar a limpeza da floresta e fomentar actividades de produção florestal diminuindo assim o risco de incêndio e erosão do solo, preservando a biodiversidade e potenciando o valor económico das espécies autóctones acrescentando valor à preservação e salvaguarda da paisagem e promovendo a criação de outros actividades económicas promotoras do turismo em espaço rural como a cinegética, a recolha de material vegetal com valor acrescentado em indústrias de valor acrescido com a perfumaria, cosmética entre outras.

A riqueza não se esgota aqui, nos empregos, nas vendas, no lazer. Aliás, só agora começa. A biodiversidade que a Rede Natura encerra, grande parte inscrita em zonas florestais, é reconhecida como única e bem presente no concelho ao longo do Paiva. São aves, são plantas, são zonas excepcionais que transformam numa riqueza ambiental. A acrescer a já tão grande espólio, acresce o sequestro de carbono, a protecção do solo, a regulação da qualidade da água e do ciclo hídrico.

Estamos longe de uma floresta dominada por Quercus, como era no passado. Já passámos pela quase desolação, assistimos às monoculturas e hoje vemos muitas das espécies ancestrais a recuperar terreno. Sofremos com a factura de decisões erradas, como atestam os fogos, naturais no nosso clima, mas agora mais atiçados pelo desordenamento.

No período compreendido entre os anos de 1980 e 2018 detectou-se a ocorrência de um número crescente de incêndios florestais no concelho, sendo que, apesar deste aumento, as áreas ardidas (mato e povoamentos) têm vindo a diminuir, exceptuando-se os anos de 1998, 2005, 2013 e de 2017. Estes salientam-se pela negativa, com o máximo de ocorrências registadas a ser batido nestes anos. A consequência directa manifestou-se na área ardida, quer povoamentos florestais quer de matos. O acréscimo de área ardida no ano de 2005 e 2013 é mesmo de realçar, por ser manifestamente superior ao registado nos últimos 5 anos subsequentes. As freguesias de Pendilhe e Touro são as mais atingidas no Concelho pelos incêndios florestais. Nos anos de 2005 e 2013 a quase totalidade da sua área geográfica foi consumida pelo fogo. A freguesia de Queiriga tem sido até ao momento a menos afectada, quer em número de ocorrências, quer em área ardida, no cômputo geral do concelho. Este facto pode ser imputado ao tipo de floresta existente nessa freguesia. Esta pode ser dividida por três tipos distintos: uma área a nascente muito afectada nos últimos anos da década passada, onde actualmente não se tem registado ocorrências, em virtude do esforço de florestação nessa área, e o outro tipo de floresta existente é ainda constituída por áreas extensas de Pinus pinaster adultos, produtivos.

Os incêndios de 2017 ainda estão bem presentes na memória das populações, o que tem ajudado na compreensão, na aceitação com sensibilização para a prevenção sobre os incêndios florestais de uma legislação onde a base da gestão de combustíveis vai de encontro ao miminizar-se o risco e todo o panorama vivido onde se traduzia numa situação de dramático abandono, com escassez de meios, ficando as populações entregues a si próprias. Várias questões se levantaram relativamente à gestão de combustíveis num território de baixa densidade como Vila Nova de Paiva, onde a população maioritariamente rural, envelhecida e marcadas pelo despovoamento e emigração de salientar que quando falamos tecnicamente de combustíveis florestais não nos referimos a uma espécie concreta, mas a todo o material combustível disponível e cujas características determinam um comportamento mais ou menos intenso da propagação do fogo. Sendo assim, aqueles povoamentos florestais estão longe de constituir o modelo de combustível mais perigoso junto aos aglomerados e edificações. Os povoamentos produtivos geridos, apresentam cargas de combustível muito menores quando comparados com modelos de combustível compostos por matos ou compostos por povoamentos regenerados sem gestão ou de reduzida gestão. A execução das faixas de acordo com o aumento das distâncias entre copas e a eliminação por exemplo de folhosas como carvalhos, vai conduzir à abertura de clareiras pela redução da densidade de copas, o que permitirá um maior desenvolvimento de arbustivas e de herbáceas, obrigando a um maior número de intervenções ao ano para cumprir a legislação e o consequente custo associado. Igualmente, a abertura exagerada de clareiras poderá aumentar o risco de ignição devido a um aumento do combustível fino que no verão estará completamente seco e disponível e, em caso da presença do fogo, levará a um aumento da velocidade de propagação dos incêndios. Recorde-se que a maior parte dos incêndios tem origem junto ao espaço urbano-rural e junto a estradas e caminhos. A execução das faixas ao redor das edificações e dos aglomerados reduz o risco de serem afetadas diretamente pelas chamas, mas não exclui a possibilidade de serem atingidas por projeções de partículas incandescentes (fagulhas) oriundas do incêndio, por consequência, arderem.

Já muito se errou, já muito se corrigiu e há ainda muito a aprender. A floresta já muito evoluiu, regrediu, progrediu e transformou-se. Umas vezes conduzida pelas mudanças naturais, outras pela mão do Homem. E como qualquer organismo vivo, continua nesse trajecto. Essencial à vida, fonte de riqueza, paleta de algumas das paisagens mais bonitas do país, eis a mina de diamantes.

Alexandra Campos