Do Municipal Parolismo

por Miguel Fernandes | 2016.03.10 - 10:09

 

Em português, livre de sotaque viseense, colocaria a seguinte questão: “O que é ser viseense?”

Estou certo que do Rossio não chegaria uma resposta satisfatória, provavelmente ela também não chegaria de outro lugar, é natural.

“Ser viseense” significa muita coisa e o seu contrário. “Ser viseense” não é para todos, tem muito que se lhe diga, é um pouco como ser Rebelo de Sousa. É ser contra o acordo ortográfico e falar com sotaque, ao mesmo tempo que se …é a favor e se fala sem sotaque. É beber zurrapa do Dão ao mesmo tempo que se elogiam as melhores quintas da região. É assar uma bifana, do porco que se matou em Póvoa de Sobrinhos, porque o Big Mac não puxa carroça. É elogiar o comercio tradicional enquanto se compra um par de cuecas na Zara porque elas “estão mesmo em conta” e afinal de contas o dinheiro não estica. Ser viseense é tudo isto, o seu contrário e mais alguma coisa que se queira atirar lá para dentro, mas também é ter orgulho na tradição. E a tradição está aí, na nossa visão do mundo, na nossa etnografia, também no nosso sotaque.

Todos conhecemos alguém que fala “achim” e simpatizamos com esse alguém, não nos sentimos vexados por ele, sabemos que somos família de sangue, não temos vergonha dos nossos. Nenhuma região se deve envergonhar da sua cultura.

Irmos todos modernos à BTL mas estampar num “hoodie” -também ele muito moderno- algo como “Em Bijeu não se fala achim”, além do provincianismo preconceituoso que revela, só pode significar uma de três coisas:

a) Não ter respeito pela tradição oral – Algo perigoso;

b) Querer ser pós-moderno e não passar da superfície – Sinal de mediocridade;

c) Querer apoucar algum vereador ou outro viseense anónimo – Isso é censurável.

Miguel Fernandes, nascido em Viseu nos anos 80, durante a adolescência foi consumidor hiper-activo de televisão, música pop e lustrosos clássicos herdados do seu avô paterno. Tornou-se forasteiro, no seu próprio país, primeiro dedicou-se à Ciência Política depois à Gestão, quando finalmente percebeu que “Greed is not Good” regressou à planície beirã.

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