Dignidade

por Alexandre Borges | 2017.10.18 - 12:35

 

 

A equipa do MAI não esteve à altura das circunstâncias. Até mesmo pelas declarações infelizes que foram sendo feitas, chegando ao ponto de queixumes sobre semanas de férias, coisas quando muito para fazer em privado, não esteve à altura.

As pessoas e os partidos que, por exemplo, criticaram o Ministro Calvão da Silva, quando invocou o divino para justificar uma enxurrada e os seus efeitos em Albufeira, não podem agora fazer de contas que não há gravidade no que se passou. Não podem sequer dizer que temos que esperar mais porque a “época” de incêndios vai a meio. Não podem por várias razões.

A primeira é porque a “época” não devia existir e é um anacronismo que tem de terminar de vez. Não podem porque o papel da Ministra e da sua equipa é preparar com tempo, definir políticas, alocar recursos financeiros e do Estado e não tomar decisões operacionais. Isso é feito com tempo, muito antes da época começar. Julgar que demitir um ministro a meio da “época” é atribuir-lhe responsabilidades que não tem e assumir que a preparação não foi cabalmente efectuada e que as coisas são decididas em cima do joelho. Não podem igualmente porque é considerar que os operacionais da ANPC e dos todos os agentes estão dependentes da sua opinião (e de assessores que nunca viram um incêndio na vida) para gerir operacionalmente os meios e isso seria grave. Não podem porque o que não podia ser feito é mudar as estruturas de comando do sistema em cima da época ou pouco tempo antes – e isso foi feito. Não podem porque, seguindo essa lógica, então agora temos as inundações e logo a seguir teremos a neve, o frio e, como serviu de justificação para fazer obras num certo e determinado miradouro de Lisboa, a possibilidade de ocorrer a qualquer altura um tremendo terramoto.

Morreram mais de 100 portugueses, arderam quase 500 mil hectares de terras, muitos milhares ficaram sem emprego, sem bens, sem nada. Não estamos a falar de trocos. Exige-se dignidade e respeito por Portugal, pelos portugueses, pelos lugares que são ocupados e até por si próprios.

Não digo que o Governo seja responsável por isto, não podemos dizer isso, há muitos parâmetros que não são controláveis e que podem ser minorados com muito trabalho, mas que demora décadas, mas que parte do Governo se pôs a jeito para ser associado a isto, lá isso pôs. Ou essa parte é expurgada ou será todo ele, que globalmente está a fazer muito melhor que o anterior, que sairá penalizado e isso seria igualmente trágico. Não podem os responsáveis continuar a ignorar alertas e fingir que não sabem e não veem o que está mesmo ali ao lado.

 

P.S.: Já depois de escrever este texto, Marcelo Rebelo de Sousa disse o óbvio e exigiu que se cumpram os mínimos. Costa perdeu uma oportunidade de resolver o problema e foi obrigado pelo Presidente a fazê-lo. Isso tem um nome.

P.S.2: Hoje de manhã a Ministra apresentou formalmente a sua demissão, algo que já deveria ter feito. Na carta de demissão, que divulgou publicamente, é clara que apresentou “insistentemente” a sua demissão após o incêndio de Pedrógão Grande e foi Costa que não a aceitou.

 

(Foto DR)

 

Natural de Canas de Senhorim. Licenciado em geologia pela UC.
Virulentamente bombeiro.
Gosta de discussões cordiais, de vaguear pelo mundo munido de auscultadores.

Pub