diário termal

por Maria José Quintela | 2017.05.30 - 22:34

 

 

os espirros são incontroláveis. santinho. diz um. e logo outro: não se deve dizer santinho e sim saúde. ai é? então porquê? a minha mãe contava que no tempo da pneumónica o espirro era um sinal antecipado de morte certa. por isso se dizia santinho. o utente dos espirros sorriu. vejam só o que me estava guardado. nunca mais direi santinho. o que eu aprendo aqui.

os utentes vão entrando e vão saindo. uns mais faladores. outros mais calados. certamente não falam do que lhes custa falar. e há um que escreve num caderninho preto sob o olhar curioso ou desconfiado das funcionárias. enquanto espera repara na funcionária que corre de um lado para o outro. da irrigação para o aerossol. do aerossol para a nebulização. o corpo tem o porte ligeiro e a face contraída. talvez a denunciar a vontade frustrada de satisfazer todos os clientes ao mesmo tempo. mas não tem mãos que cheguem. atrapalha-se. o resultado é o esquecimento de alguns clientes. precisamente aqueles que chegaram primeiro e já terminaram um tratamento. ironia do destino. ou não. a conversa ajuda a distrair. uma conversa fiada. pensa o do caderninho preto.

 

hoje há estagiárias. quase todas jovens solícitas e simpáticas. mas com pouca destreza. pudera. são mão de obra barata. hoje a funcionária com fácies de stress parece mais descontraída. as estagiárias tiram-lhe algum trabalho e aliviam-lhe os vincos. naturalmente acrescentam o burburinho. pergunta uma: sente-se bem? sim. responde a utente. porquê? é que está assim com uma carinha chochinha. ah. deve ser de cansaço. acordo cedo. quando tenho horários a cumprir a noite corre-me mal. o do caderninho preto fica a cismar. como se escreve chochinha?

uma utente diz alto: acabo hoje. já se sabe que tudo tem um princípio e um fim. nem sempre. pensa o do caderninho preto no vício incorrigível de responder mentalmente. hoje a conversa até podia descambar para a filosofia. mas não. ninguém pega na deixa. ele muito menos. está a comer uma banana. come sempre uma banana enquanto espera. que pensarão as funcionárias do ritual? elas também comem. no armazém minúsculo onde guardam os kits individuais. no intervalo possível dos tratamentos e das conversas. conversam muito. entre elas. entre elas e os utentes. alguns gostam de conversar. outros nem por isso. o do caderninho preto não deve gostar. mas hoje falou. por causa do cronómetro sem alarme que lhe prolongou um tratamento. fez o reparo. dizem-lhe que não. que toca baixinho. sorriu mentalmente. o seu perfeccionismo à flor da pele não deixa escapar as falhas. já nem fala do paternalismo imbuído em certas funcionárias. especialmente em relação aos mais idosos e mais simples. a piada fácil e estafada. mas as pessoas gostam e riem. riem e ficam felizes.

 

hoje foi um pouco melhor. pensa o do caderninho preto. o bastante para ganhar quinze minutos. esta funcionária é bem mais organizada e menos faladora.

de repente alguém diz que não consegue fazer o tratamento. que a água está muito forte. deite aqui se faz favor mais um cartuxo de sal. não. nem mesmo assim. hoje não faço este. e vai embora. fica o ruído de fundo. água corrente e catarro.