Dia Mundial dos Pobres – A Arte do SorrIR

por Alexandra Campos | 2019.11.19 - 10:42


Tenho muito medo dos termos que roçam os extremos dos conceitos.
Tenho o mesmo cagaço em relação às certezas absolutas e às dúvidas permanentes.


Mas há uma certeza que eu tenho: Ser mulher é bem mais exigente que ser homem. E sim, sou uma feminista no sentido mais “viril” da palavra.
E quando oiço algumas pessoas dizer, que as coisas mudaram muito e que o que não falta são mulheres, mais precisamente: Pequenas burguesas a queixarem-se do alto dos seus pequenos redutos. Fico pasmada!!
Porque é revelador da dimensão da bolha que nos encerra. E nesses pequenos redutos, o que há em luxo, escasseia em oxigénio. Mas não é desse segmento de mulheres, dessa minoria bafejada pela sorte das grandes heranças ou dos bons casamentos, que quero falar. Seria cliché persegui-las como bruxas. E mesmo esse pressuposto de conforto, pressupõe trabalho na sua manutenção. O conforto financeiro não é colo certeiro. E tenho algumas amigas que vivem com uma inteligência do caraças no conforto da sua bolha.


E há muita bolha que vive à espera de ser rebentada. E há uma maioria gigante que nem vive em bolhas, nem sopra bolhas há anos sem fim.
Não vivo com luxo, para me puder dar ao luxo das coisas que gosto. São as minhas opções. A minha Maria é mãe de três rapazes, levanta-se às 5h30 da manhã e vai directa para o Fórum limpar as casas de banho. Nunca fez compras no Fórum. Segue para as quatro casas, que esgrima com a mestria de quem sabe, que cada uma delas representa a parcela necessária para compor o frágil puzzle do orçamento familiar. Apanha 6 autocarros por dia. Não vê as mochilas dos filhos quando chega a casa e tem uma pálida ideia do que andam a estudar. Quando chega a casa, faz panelas grandes de comida, para garantir, que sobra o suficiente, para se algum dos rapazes regressar para almoçar. Sempre que precisam dou-lhes umas aulas na matemática da vida, onde as equações, fracções, não consigo amputar e nem os deixar de ajudar.
Há uma ambiguidade gigante entre os nossos sonhos, uma disparidade absurda na forma como sorvemos a vida, e o espaço, o tempo consagrado ao lazer, ao prazer e ao casuístico. Mas no cerne do ser mulher, as nossas dores assemelham-se e os nossos sonhos, são iguais. Tenho a certeza que há um certo consolo mútuo nessa partilha.


A presença da Maria é uma lição diária, nunca a vi senão a sorrir.
Não há que ter vergonha do que se tem, mesmo quando pouco se fez para receber, só deve haver vergonha no “ser”. Quando o ser não é honesto, quando os sonhos não são limpos e a inveja é uma tempestade interior.
Perguntei-lhe na semana passada se ela achava que eu era rica e ela respondeu-me a rir: – Então não é menina Xaniña? Nunca a vi senão a sorrIR.

Alexandra Campos