Deus morreu com cancro do pulmão

por Patricia Maia Noronha | 2017.09.24 - 12:43

 

 

 

Não é lá porque vejo a minha ex-namorada no meio da rua, a acenar alegremente, como se fosse mais feliz agora do quando estávamos juntos. Não é lá por causa disso que vou voltar a fumar.

Já não fumo há duas semanas. Foi mesmo assim de um dia para o outro. “Cold turkey” como dizem os ingleses, porque é assim que os homens deixam de fumar. Não é cá com adesivos e pastilhas e outras mariquices. Homem que é homem deixa de fumar em “cold turkey”. “Peru frio”. É melhor não traduzir porque em português não faz sentido nenhum. O que interessa é que seja de um dia para outro, sem pensarmos mais nisso.

E vou conseguir. Aliás, tudo o que meto na cabeça levo para a frente. Quase tudo o que meto na cabeça. Aquela ideia de passar a andar de bicicleta não foi para a frente porque era uma idiotice. Percebi isso logo no primeiro dia, depois de ter chegado ao trabalho a suar que nem um porco. Enfim. De resto, quase tudo o que meto na cabeça levo para a frente. Ainda tenho a bicicleta. Está na varanda a atravancar o espaço todo. Continuo a andar de bicicleta uma ou duas vezes por mês. Pelo menos uma vez por mês. Dá um trabalho dos diabos tirar a bicicleta dali.

Sempre fumei bastante mas quando ela decidiu que a “relação não funcionava” passei a ser aquilo que os bifes chamam “chain smoker”. Não vale a pena traduzir. Acendia um cigarro no outro e houve um dia que senti os pulmões a colapsar. Nesse dia decidi parar e nada me vai fazer mudar de ideias.

Está um gajo aqui ao meu lado, no café, a fumar cigarro atrás de cigarro todo contente. A mim não me incomoda. Cada um escolhe a vida que quer. Eu escolhi ser saudável. Não vou fazer yoga que aquelas posições são ridículas mas até já como frutos secos que fazem bem ao coração. São caros como o caraças. Cheguei a comprar frutos secos no Celeiro mas incomodou-me um bocado perceber que só há gajas no Celeiro. Passei a comprar no Continente que até são mais baratos.

Estou no meu smartphone e acabo de ver, no Facebook, uma foto da minha ex com um gajo todo musculado. Acho que vou à farmácia comprar as pastilhas que ajudam a deixar de fumar. Estão esgotadas. Que merda. A vida é só problemas. Deus, se existisse, aposto que fumava dois maços por dia. Aliás, se Deus existisse já tinha morrido com cancro do pulmão.

Volto ao café. O gajo ao meu lado já tem o cinzeiro a transbordar e acaba de acender mais um cigarro. Vi agora no Facebook uma foto da ex e do tal mr. Muscle a beijarem-se na boca com uma daquelas carinhas com olhos em forma de coração. Que se lixem os pulmões. “Amigo pode dar-me um cigarro? Deixe estar, vou mas é lá dentro comprar um maço”.

 

(Foto créditos Unsplash.com.)

Portuguesa, natural de Lisboa. Sou jornalista e também gosto de escrever ficção. O meu livro de contos "Brilho Vermelho" foi vencedor da menção honrosa do prémio Alves Redol 2009. Tenho vindo a publicar esses e outros contos em revistas eletrónicas de Portugal e do Brasil.

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