Da guerra

por Alexandra Azambuja | 2017.04.21 - 08:19

 

 

Ouvi muitas vezes falar sobre a guerra, a segunda guerra mundial.

Que depois dela se viveram tempos de distensão como nunca. Que as pessoas tinham a certeza que o pior das suas vidas tinha sido ultrapassado. Que seria impossível alguma coisa tão atroz e sem sentido voltar a repetir-se.

Do eco longínquo da guerra, das mil variantes do sofrimento que provoca, uma em particular continua a ressoar em mim como assombrosa: a arbitrariedade. Aquela ausência de sentido que permite exercer o poder como apetecer a quem quer que o detenha. O Mal disseminado.

Assisto ao grande enlouquecimento generalizado do mundo como quem olha para uma televisão sem som: aquilo não faz o menor sentido mas é muito longe e decerto noutro mundo onde não habito.

Esperava toques de clarim, sirenes, gente em desenfreada correria com a remota possibilidade de sim, termos uma guerra à porta, mas não. Ninguém no fundo no fundo consegue imaginar tanques na rua onde todos os dias atravessamos a passadeira para ir comprar o pão.

E assim continuamos alegremente a encarar o distúrbio generalizado no mundo como mais um episódio que será sanado por mãos misteriosas, forças ocultas ou mercados accionistas.

Talvez o mundo não possa ser de outro modo. Talvez a espécie humana tenha impregnado nos genes esta ânsia do conflito, a questão vital do território – desde sempre a linha pulsátil que separa os uns dos outros – e ilusões pueris de paz sejam apenas isso: ilusões temporárias entre ciclos de guerra.

Talvez não haja respostas ou as perguntas estejam mal formuladas, mas não deixaremos de fazer perguntas porque querer saber é como lascar duas pedras na esperança que produzam luz.

E é então que olhar o que temos agora – uma espécie de paz – se torna mais necessário. O curso do mundo não mudará por mais que queiramos ou tentemos, seremos sempre apenas um galho na tormenta do rio caudaloso, mas ainda assim podemos tentar. Todo o ínfimo esforço é valioso e para isso temos – ou não – uma coisa rara chamada sentido de justiça. Independente do tempo e do espaço onde nos encontramos, independente da opinião, da moral e da lei, é aquela coisa que sabemos ser certa apesar de tudo poder dizer o contrário.

A centelha do sentido de justiça é um dos legados que podemos deixar  às nossas crianças, e isso só é possível com exemplos, bons e sólidos exemplos.

Não há uma receita mágica para tal, apenas a tentativa diária, custosa e persistente de filtrar a realidade – insane – e depurá-la para os olhos infantis. Explicar, desconstruir diariamente a barbárie, o disparate onde o mundo se encontra mergulhado e dizer: não foi sempre assim, não será sempre assim.

Pela mais simples das razões: não pode ser assim.

 

(Foto DR)