corpo pequeno

por Maria José Quintela | 2017.11.14 - 13:35

 

 

o tempo engrandece-nos nas mais variadas situações de celebração. e reduz-nos quando negamos as ameaças globais cuidando que os muros nos legalizam.

as tragédias saltam despudoradas dos filmes de acção para as ruas e os finais felizes encaixam-se perfeitos na ficção.

quando a violência é um espectáculo visual gratuito a indiferença veste um fato impessoal que usa e lava para o evento do dia seguinte. sem pejo nem indignação.

para a minoria que tem o poder de estalar os dedos e realizar desejos basta desligar os comandos e sorrir para o retrato oficial. a morte é coisa de pobres e mortais comuns. não de deuses.

 

inventam-se objectos sem coração nem passado. o consentimento tácito assente no anseio obscuro de uma morte limpa. e eu suspeito que o poder malicioso emerge do torpor desmemoriado insidiosamente instalado entre duas catástrofes.

 

há uma nova terminologia a involucionar o mundo. a oportunidade de negócio tornou-se o tema virulento de uma histeria universal arrasadora da ética e da classe pedinte.

a propaganda mundial branqueia o suor dos rostos e o fumo dos escapes. um paradoxo entre a boca e o pão. a terra mal amada. gretada.

 

o defeito da matéria humana é o seu desejo de posse. um nome para cada coisa e cada coisa na sua redoma. vai-se o corpo e ficam os pertences. são as regras.

ninguém acaba o que começa. uma folha flutua até pousar.

qalquer mortal tem dois direitos assegurados: a última palavra e a ironia de desconhecer a hora em que a diz. por isso vive como se fosse eterno. devora-se e morre.

 

pudéssemos nós reflectir o enorme céu que nos devolve a condição precária e o discernimento. soubéssemos ao menos cair para o lado onde podemos fazer mais estragos. sermos mortos incómodos.

 

entre o corpo e o ar interpõe-se um nó e um fôlego. a aragem que nos empurra é estranha aos ombros. somos a folha menor de uma árvore infinitamente frondosa.

corpo pequeno.